Confirmando a expectativa de
desaceleração da economia brasileira, mas contrariando as estimativas dos
analistas consultados pelo Valor, a Vendas do Varejo, relativas a maio tiveram
uma retração de 0,8%. A expectativa dos analistas era de alta de 0,4%. Ainda que
tenha registrado uma alta de mais de 8% sobre igual mês do ano anterior, o
importante componente do PIB do segundo trimestre vai reforçando a nossa tese
de que nosso PIB estará muito mais próximo ao piso de nossas projeções (1,3% de
crescimento em 2012) do que ao teto (1,7%). Esse dado deve reforçar as
expectativas de mais cortes na taxa básica, a taxa Selic, ao longo do ano.
Nossa estimativa inicial, que está informada no sistema de expectativas do BC,
era de uma taxa para o final de 2012 de 7,5%. Com o resultado dessa pesquisa do
IBGE passamos a considerar a taxa Selic para o final de 2012 em 7%. Abaixo
tabela do IBGE com o comportamento das vendas do varejo por setores:
Como pode ser observado, os setores que
tiveram quedas importantes foram o de combustíveis, supermercados, móveis e
eletrodomésticos, Livros e jornais, outros artigos de uso doméstico e,
finalmente, material de construção.
Ontem o pregão da Bovespa encerrou com
uma queda de 3,05%, superior à queda do S&P500, de 0,81%. Vários fatores
influenciaram essa queda mais acentuada, entre eles a desaceleração das
importações chinesas, o que levou as ações de commodities caírem mais forte. Também os bancos sofreram durante o
pregão. Mas o fato é que os mercados continuam castigando as ações
brasileiras, refletindo, em nossa opinião, um ciclo de aversão aos nossos
ativos relacionados ao crescimento doméstico ou ao crescimento global. Esse
parece ser um comportamento restrito ao mercado de ativos reais, posto que a
dívida soberana continua mantendo um comportamento de solidez e baixo risco de
crédito, comparativamente aos países europeus.
A bolsa espanhola, por sua vez, registra
alta em função do entusiasmo do mercado com o pacote lançado pelo governo para
redução do déficit público. A meta do governo Mariano Rajoy é conseguir 65
bilhões de euros até 2014. Ou seja, o governo quer um aperto fiscal adicional equivalente
a 6% do PIB, a ser realizado em dois anos e meio. Linearmente isso equivaleria
a um aperto 1,5% do PIB nesse semestre, mais 2,1% em 2013 e 2014. Para um país
que tem uma taxa de crescimento projetada de -1,8% nesse ano, com desemprego de
25%, podemos pensar em uma taxa de contração que poderá superar 2,0% em 2012 e
seguir forte até 2014, com o desemprego superando o recorde de 25%. É uma
iniciativa que vai dar como fruto principal o agravamento da recessão no país e
vai jogá-lo na depressão. As principais medidas são a alta do IVA de 19% para
21%; alta de outros impostos ainda em estudo; redução dos pagamentos do seguro
desemprego, podendo chegar a 50%; redução das aposentadorias (ainda em projeto
de lei); redução dos salários dos funcionários públicos; redução das férias de
funcionários públicos; corte de 30% no número de conselheiros (vereadores) e
publicação dos salários dos prefeitos; mudança dos impostos sobre energia; fim
dos incentivos fiscais para compra de imóveis por parte de pessoas físicas;
corte dos gastos dos ministérios; redução das verbas para os partidos; redução
das empresas estatais.
Esse conjunto de medidas, é bom ressaltar
uma vez mais, pode entusiasmar os mercados no curto prazo, mas sufoca a
economia espanhola definitivamente. Estamos diante de uma ação que sinaliza
definitivamente para a piora do quadro econômico europeu. Além disso, é difícil
supor que os espanhóis aceitarão docilmente as consequências dessa iniciativa.
É muito provável que o ambiente político da Espanha comece a se tornar cada vez
mais insustentável.
Hoje será divulgada a ata da reunião do
comitê de política monetária do Federal
Reserve e ela poderá dar um sinal importante em relação aos próximos passos
da autoridade monetária. A economia americana já vem mostrando consistentemente
uma desaceleração e isso demanda mais ações por parte do FED. É possível que
essa Ata jogue um pouco de otimismo nos mercados que, além de tudo, estão
pessimistas com os resultados das empresas no segundo trimestre.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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