quarta-feira, 4 de julho de 2012

Em três pregões, 6% de alta por conta da aposta na mudança radical do BCE.



A Bovespa abriu o pregão retomando as altas observadas desde sexta feira, acumulando, no fechamento de ontem, 5,9%. No ano, o Ibovespa ainda acumula queda de 2%, mas o pregão de hoje pode zerá-la. O principal motivador dessa alta foi a recuperação dos mercados globais, que incentivaram as valorizações das ações e das commodities, com o Brasil se beneficiando, particularmente, das últimas. O pregão de hoje será marcado pelas apostas do mercado em relação à reunião do Banco Central Europeu, a ser realizada amanhã. O mercado espera o anúncio de medidas de flexibilização monetária, que seriam capazes de cobrir os buracos deixados pelo plano anunciado na última sexta, pelos dirigentes europeus. Na Europa, no entanto, os mercados estão em queda, mostrando mais cautela em suas expectativas quanto ao BCE.

A repercussão dos dados da produção industrial de ontem foi relativamente moderada, visto que os agentes, em média, ainda têm um crescimento esperado de 2,05% para 2012 e a forte queda de maio inviabiliza essa projeção. Tudo indica que muita gente confia efetivamente na capacidade do governo em gerar estímulos para tornar o segundo semestre um  pouco mais dinâmico que o primeiro. O Banco Central, através de seu diretor de política monetária, Aldo Mendes, mostrou preocupação em relação ao  índice e procurou direcionar para a taxa de câmbio uma saída para a desaceleração industrial. Segundo o Estado de São Paulo:


"’Temos acompanhado a indústria que, de certa maneira, tem apresentado alguma dificuldade de retomada’, disse Aldo. Para o diretor, a fraca reação do segmento industrial aumenta a preocupação da equipe econômica com o câmbio. ‘Isso aumenta a preocupação com uma valorização do real, fato que tira a competitividade da indústria’, disse.”


O mais importante dessa declaração é que ela nos confirma que dólar abaixo de R$ 2,00 leva o Banco Central à compra. As últimas intervenções da autoridade no mercado de câmbio foram no sentido de evitar uma alta forte do dólar, que poderia ultrapassar R$ 2,10. Agora, quando o câmbio rompe os R$ 2,00, a autoridade se dispõe à compra. Em função dessa postura clara, a taxa de câmbio voltou a subir e opera acima de R$ 2,00.

Na China e Europa os indicadores PMI continuam a indicar desaceleração, agora no setor de serviços. Na China o PMI Serviços veio desacelerando de 54,7 para 52,3, aumentando os temores de desaceleração do “motor da economia global”. Na Europa, Alemanha caiu abaixo de 50, mostrando contração do setor, ficando em 49,9 e no Reino Unido ela caiu de 53,3 para 51,3. Para o índice composto da Zona do Euro, o indicador veio em 46,6, depois de bater 46 no mês anterior. Dados fracos e cautela, levam os mercados à queda generalizada na espera da reunião da autoridade monetária.

O que podemos esperar da autoridade monetária europeia amanhã?

O BCE foi construído em cima de teses muito profundas a respeito de seu mandato e de seus limites de atuação. À diferença de outros bancos centrais, o Banco Central Europeu é limitado pelo seu capital, integralizado pelos seus participantes. Toda e qualquer expansão monetária está limitada pelo capital do banco. Outros bancos centrais, como o Federal Reserve dos EUA, não limitam a sua intervenção monetária ao seu capital, podendo emitir dólares infinitamente para atender às demandas da sociedade. As contrapartidas dessas intervenções, no lado real da economia, acabam sendo discutidas pela sociedade e são referendadas ou não.

Ao se auto impor limites de atuação, o Banco Central acaba por limitar sua capacidade socorrer os mercados domésticos que estão sob pressão, como Itália e Espanha. O mecanismo europeu de estabilização (ESM), que atuará para comprar as dívidas que estão instáveis, tem um poder de fogo de 500 bilhões de euros. As dívidas da Itália e Espanha, sozinhas, somam 2,5 trilhões de euros. Ao enxergar esse limite, os mercados podem ver o “arsenal” europeu como pequeno para conter a crise das dívidas soberanas e pode entrar em pânico novamente. Esse seria o caso se a França se mostrar incapaz de cumprir suas metas fiscais até 2013, como parece muito provável até agora.

Sendo o ESM limitado para dar suporte aos mercados de dívidas soberanas, fica a esperança do BCE entrar, novamente, nesse mercado e estabilizá-lo. O FED aumentou seus ativos em mais de US$ 2 trilhões para estabilizar os mercados de dívidas privadas nos EUA. O próprio BCE aumentou seus ativos em montante equivalente. Mas agora os dirigentes do BCE mostram-se mais resistentes a continuar essa expansão sem aumentar o seu próprio capital. Essa expansão continuada, que o mundo espera que o BCE faça, e que motivou as altas das bolsas nos últimos pregões, vai significar uma mudança significativa nos paradigmas da autoridade monetária europeia. Será que os seus dirigentes estão dispostos a fazer essa mudança tão radical?

Apesar da situação claramente demandar essa mudança radical, o comportamento dos dirigentes nas últimas ações, em particular no resgate da Grécia e na reunião de sexta passada da União Europeia, sinaliza que esse tempo de mudança ainda não chegou aos dirigentes do BCE. Uma atuação que torne o BCE algo tão  eficiente como o FED parece estar longe de acontecer.

Por tudo isso, acreditamos que a reunião de amanhã tem mais chances de mostrar uma ação “a meio caminho” entre o que é necessário fazer (mais uma forte expansão do balanço da autoridade monetária) e o que desejam, de fato, os dirigentes. Estamos diante de uma decisão histórica, que pode marcar uma “virada” na tendência recessiva global ou que pode, simplesmente, precipita-la ainda mais.

A melhor posição, até amanhã, é aguardar para ver...





Pedro Paulo Silveira (Economista)
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