A Bovespa abriu o pregão retomando as
altas observadas desde sexta feira, acumulando, no fechamento de ontem, 5,9%.
No ano, o Ibovespa ainda acumula queda de 2%, mas o pregão de hoje pode
zerá-la. O principal motivador dessa alta foi a recuperação dos mercados
globais, que incentivaram as valorizações das ações e das commodities, com o Brasil se beneficiando, particularmente, das
últimas. O pregão de hoje será marcado pelas apostas do mercado em relação à
reunião do Banco Central Europeu, a ser realizada amanhã. O mercado espera o anúncio
de medidas de flexibilização monetária, que seriam capazes de cobrir os buracos
deixados pelo plano anunciado na última sexta, pelos dirigentes europeus. Na
Europa, no entanto, os mercados estão em queda, mostrando mais cautela em suas
expectativas quanto ao BCE.
A repercussão dos dados da produção
industrial de ontem foi relativamente moderada, visto que os agentes, em média,
ainda têm um crescimento esperado de 2,05% para 2012 e a forte queda de maio
inviabiliza essa projeção. Tudo indica que muita gente confia efetivamente na
capacidade do governo em gerar estímulos para tornar o segundo semestre um pouco mais dinâmico que o primeiro. O Banco
Central, através de seu diretor de política monetária, Aldo Mendes, mostrou
preocupação em relação ao índice e
procurou direcionar para a taxa de câmbio uma saída para a desaceleração
industrial. Segundo o Estado de São Paulo:
"’Temos acompanhado a indústria que, de
certa maneira, tem apresentado alguma dificuldade de retomada’, disse Aldo.
Para o diretor, a fraca reação do segmento industrial aumenta a preocupação da
equipe econômica com o câmbio. ‘Isso aumenta a preocupação com uma
valorização do real, fato que tira a competitividade da indústria’, disse.”
O mais importante dessa declaração é que
ela nos confirma que dólar abaixo de R$ 2,00 leva o Banco Central à compra. As
últimas intervenções da autoridade no mercado de câmbio foram no sentido de evitar
uma alta forte do dólar, que poderia ultrapassar R$ 2,10. Agora, quando o
câmbio rompe os R$ 2,00, a autoridade se dispõe à compra. Em função dessa
postura clara, a taxa de câmbio voltou a subir e opera acima de R$ 2,00.
Na China e Europa os indicadores PMI
continuam a indicar desaceleração, agora no setor de serviços. Na China o PMI
Serviços veio desacelerando de 54,7 para 52,3, aumentando os temores de
desaceleração do “motor da economia global”. Na Europa, Alemanha caiu abaixo de
50, mostrando contração do setor, ficando em 49,9 e no Reino Unido ela caiu de
53,3 para 51,3. Para o índice composto da Zona do Euro, o indicador veio em
46,6, depois de bater 46 no mês anterior. Dados fracos e cautela, levam os
mercados à queda generalizada na espera da reunião da autoridade monetária.
O que podemos esperar da autoridade
monetária europeia amanhã?
O BCE foi construído em cima de teses
muito profundas a respeito de seu mandato e de seus limites de atuação. À
diferença de outros bancos centrais, o Banco Central Europeu é limitado pelo
seu capital, integralizado pelos seus participantes. Toda e qualquer expansão
monetária está limitada pelo capital do banco. Outros bancos centrais, como o Federal Reserve dos EUA, não limitam a
sua intervenção monetária ao seu capital, podendo emitir dólares infinitamente
para atender às demandas da sociedade. As contrapartidas dessas intervenções,
no lado real da economia, acabam sendo discutidas pela sociedade e são
referendadas ou não.
Ao se auto impor limites de atuação, o
Banco Central acaba por limitar sua capacidade socorrer os mercados domésticos
que estão sob pressão, como Itália e Espanha. O mecanismo europeu de
estabilização (ESM), que atuará para comprar as dívidas que estão instáveis,
tem um poder de fogo de 500 bilhões de euros. As dívidas da Itália e Espanha,
sozinhas, somam 2,5 trilhões de euros. Ao enxergar esse limite, os mercados
podem ver o “arsenal” europeu como pequeno para conter a crise das dívidas
soberanas e pode entrar em pânico novamente. Esse seria o caso se a França se
mostrar incapaz de cumprir suas metas fiscais até 2013, como parece muito
provável até agora.
Sendo o ESM limitado para dar suporte aos
mercados de dívidas soberanas, fica a esperança do BCE entrar, novamente, nesse
mercado e estabilizá-lo. O FED aumentou seus ativos em mais de US$ 2 trilhões
para estabilizar os mercados de dívidas privadas nos EUA. O próprio BCE
aumentou seus ativos em montante equivalente. Mas agora os dirigentes do BCE
mostram-se mais resistentes a continuar essa expansão sem aumentar o seu
próprio capital. Essa expansão continuada, que o mundo espera que o BCE faça, e
que motivou as altas das bolsas nos últimos pregões, vai significar uma
mudança significativa nos paradigmas da autoridade monetária europeia. Será
que os seus dirigentes estão dispostos a fazer essa mudança tão radical?
Apesar da situação claramente demandar
essa mudança radical, o comportamento dos dirigentes nas últimas ações, em
particular no resgate da Grécia e na reunião de sexta passada da União Europeia,
sinaliza que esse tempo de mudança ainda não chegou aos dirigentes do BCE. Uma
atuação que torne o BCE algo tão eficiente
como o FED parece estar longe de acontecer.
Por tudo isso, acreditamos que a reunião
de amanhã tem mais chances de mostrar uma ação “a meio caminho” entre o que é
necessário fazer (mais uma forte expansão do balanço da autoridade monetária) e
o que desejam, de fato, os dirigentes. Estamos diante de uma decisão histórica,
que pode marcar uma “virada” na tendência recessiva global ou que pode,
simplesmente, precipita-la ainda mais.
A melhor posição, até amanhã, é aguardar
para ver...
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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