A repercussão da imprensa em relação às
medidas adotadas pelos bancos centrais da Europa, Inglaterra, Dinamarca e China
foram excessivas. Exceto pelo Banco da Inglaterra, que aumentou suas compras de
títulos para dar mais liquidez ao sistema bancário londrino, os outros bancos
apenas reduziram suas taxas de juros. Em um ambiente recessivo, com taxas de
juros próximas do zero, reduzir as taxas em 25 pontos não representa
absolutamente nada. Em resposta a isso, os mercados vão retornando à posição em
que estavam antes da cúpula europeia da semana passada. Os juros das dívidas
soberanas de Itália e Espanha estão subindo, mostrando que a percepção de risco
sobre esses dois países caminha para um processo potencialmente perigoso.
Abaixo o gráfico do prêmio de risco dos títulos espanhóis, segundo o jornal El País:
As reduções simultâneas dos juros foram
vistas como uma ação coordenada dos bancos centrais para reagir à crise. Mas
essa suposta ação coordenada repete as falhas originais de todas as ações
feitas até agora. Elas são insuficientes e ineficientes para aumentar o
emprego, reduzir os riscos fiscais e impulsionar as taxas de crescimento. Como
observamos anteriormente, o BCE não conseguirá estabilizar os mercados de
dívidas soberanas sem que aumente suas compras, sem a imposição de limites.
Percebendo essa indisposição do BCE, os mercados vão pressionar ainda mais o
débil mercado das dívidas italiana e espanhola. Dito de forma mais técnica,
essa inação do BCE vai levar os mercados a uma crise auto realizada, pela
dinâmica de aversão aos riscos do mercado. E se essa crise vier, como está mais
provável a cada semana, Espanha e Itália sentirão as mesmas dificuldades para
sustentar suas finanças que a Grécia tem enfrentado.
Nos EUA foi divulgado o relatório da
situação do mercado de trabalho de junho, pelo Departamento do Trabalho. O dado
mais esperado era o da criação de empregos e ele veio abaixo do esperado.
Segundo as estimativas do relatório, foram criados 80.000 empregos no mês. Em
termos anualizados haveria uma geração de 960.000 postos de trabalho, número
insuficiente para dar emprego às pessoas que anualmente ingressam no mercado de
trabalho, que são mais de um milhão. Dessa forma, a economia dos EUA ainda não
conseguiu taxa de crescimento para reduzir sua taxa de desemprego, em 8,2%, e
realocar os cerca de 16 milhões de pessoas desempregadas ou empregadas precariamente
desde a crise de 2008. Com a forte participação do consumo no PIB e com a renda
dependendo fundamentalmente dos salários, desemprego impede a recuperação da
maior economia do planeta. Abaixo o gráfico com a série de dados do payroll, que estima a criação de vagas
no país:
O gráfico mostra a forte queda das vagas
em 2008-2009 e a recuperação recuperação lenta da criação de empregos a partir
de então. As estimativas sugerem que a criação de empregos, para retomar as
condições do mercado de trabalho antes da crise, são da ordem 300.000 vagas por
mês. Como pode ser observado, apesar de todas as ações do Federal Reserve e do governo Obama, a economia dos EUA está longe
desse cenário. A cada dia que passa, as chances de uma recuperação mais forte
vão ficando menores.
No Brasil os mercados se ressentiram
desse ambiente global adverso e mantiveram a tendência à queda nas bolsas e
alta do dólar. Os juros vêm caindo sistematicamente, por conta da queda da
inflação observada nos vários índices e da expectativa para o crescimento de
2012, que despencou ainda mais. Hoje o IBGE divulgou o IPCA de junho e ele veio
praticamente zerado, em 0,08%. Esse número enterra a discussão, que já vinha se
enfraquecendo ao longo dos últimos meses, segundo a qual a redução dos juros no
Brasil seria uma “manipulação política” e não uma resposta ao quadro de
desaceleração da economia. É muito provável que o IPCA encerre o ano mais perto
do centro da meta do que imaginavam os críticos da política monetária. Mas
isso, por outro lado, expõe o estado de fragilidade de nossa economia, que deve
continuar patinando ao longo do segundo semestre, apesar de todos os esforços
do governo em sentido contrário.
A divulgação de um payroll fraco nos EUA aumenta as chances do mercado passar a esperar
uma nova rodada de relaxamento monetário por parte do FED. O banco central pode
aumentar suas operação de injeção de liquidez (coisa que o BCE se recusa a
fazer) como alternativa à impossibilidade de reduzir mais sua taxa básica, que
está praticamente em zero. Dessa forma, as expectativas em torno de uma nova
rodada de relaxamento por parte do FED podem ancorar os mercados nos próximos
pregões. Devemos ficar atentos, por outro lado, ao comportamento dos mercados
de dívidas da Espanha e Itália.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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