sexta-feira, 6 de julho de 2012

BCE faz pouco, muito pouco, e o pessimismo deve aumentar.



A repercussão da imprensa em relação às medidas adotadas pelos bancos centrais da Europa, Inglaterra, Dinamarca e China foram excessivas. Exceto pelo Banco da Inglaterra, que aumentou suas compras de títulos para dar mais liquidez ao sistema bancário londrino, os outros bancos apenas reduziram suas taxas de juros. Em um ambiente recessivo, com taxas de juros próximas do zero, reduzir as taxas em 25 pontos não representa absolutamente nada. Em resposta a isso, os mercados vão retornando à posição em que estavam antes da cúpula europeia da semana passada. Os juros das dívidas soberanas de Itália e Espanha estão subindo, mostrando que a percepção de risco sobre esses dois países caminha para um processo potencialmente perigoso. Abaixo o gráfico do prêmio de risco dos títulos espanhóis, segundo o jornal El País:







As reduções simultâneas dos juros foram vistas como uma ação coordenada dos bancos centrais para reagir à crise. Mas essa suposta ação coordenada repete as falhas originais de todas as ações feitas até agora. Elas são insuficientes e ineficientes para aumentar o emprego, reduzir os riscos fiscais e impulsionar as taxas de crescimento. Como observamos anteriormente, o BCE não conseguirá estabilizar os mercados de dívidas soberanas sem que aumente suas compras, sem a imposição de limites. Percebendo essa indisposição do BCE, os mercados vão pressionar ainda mais o débil mercado das dívidas italiana e espanhola. Dito de forma mais técnica, essa inação do BCE vai levar os mercados a uma crise auto realizada, pela dinâmica de aversão aos riscos do mercado. E se essa crise vier, como está mais provável a cada semana, Espanha e Itália sentirão as mesmas dificuldades para sustentar suas finanças que a Grécia tem enfrentado. 

Nos EUA foi divulgado o relatório da situação do mercado de trabalho de junho, pelo Departamento do Trabalho. O dado mais esperado era o da criação de empregos e ele veio abaixo do esperado. Segundo as estimativas do relatório, foram criados 80.000 empregos no mês. Em termos anualizados haveria uma geração de 960.000 postos de trabalho, número insuficiente para dar emprego às pessoas que anualmente ingressam no mercado de trabalho, que são mais de um milhão. Dessa forma, a economia dos EUA ainda não conseguiu taxa de crescimento para reduzir sua taxa de desemprego, em 8,2%, e realocar os cerca de 16 milhões de pessoas desempregadas ou empregadas precariamente desde a crise de 2008. Com a forte participação do consumo no PIB e com a renda dependendo fundamentalmente dos salários, desemprego impede a recuperação da maior economia do planeta. Abaixo o gráfico com a série de dados do payroll, que estima a criação de vagas no país:





O gráfico mostra a forte queda das vagas em 2008-2009 e a recuperação recuperação lenta da criação de empregos a partir de então. As estimativas sugerem que a criação de empregos, para retomar as condições do mercado de trabalho antes da crise, são da ordem 300.000 vagas por mês. Como pode ser observado, apesar de todas as ações do Federal Reserve e do governo Obama, a economia dos EUA está longe desse cenário. A cada dia que passa, as chances de uma recuperação mais forte vão ficando menores.

No Brasil os mercados se ressentiram desse ambiente global adverso e mantiveram a tendência à queda nas bolsas e alta do dólar. Os juros vêm caindo sistematicamente, por conta da queda da inflação observada nos vários índices e da expectativa para o crescimento de 2012, que despencou ainda mais. Hoje o IBGE divulgou o IPCA de junho e ele veio praticamente zerado, em 0,08%. Esse número enterra a discussão, que já vinha se enfraquecendo ao longo dos últimos meses, segundo a qual a redução dos juros no Brasil seria uma “manipulação política” e não uma resposta ao quadro de desaceleração da economia. É muito provável que o IPCA encerre o ano mais perto do centro da meta do que imaginavam os críticos da política monetária. Mas isso, por outro lado, expõe o estado de fragilidade de nossa economia, que deve continuar patinando ao longo do segundo semestre, apesar de todos os esforços do governo em sentido contrário.

A divulgação de um payroll fraco nos EUA aumenta as chances do mercado passar a esperar uma nova rodada de relaxamento monetário por parte do FED. O banco central pode aumentar suas operação de injeção de liquidez (coisa que o BCE se recusa a fazer) como alternativa à impossibilidade de reduzir mais sua taxa básica, que está praticamente em zero. Dessa forma, as expectativas em torno de uma nova rodada de relaxamento por parte do FED podem ancorar os mercados nos próximos pregões. Devemos ficar atentos, por outro lado, ao comportamento dos mercados de dívidas da Espanha e Itália.



Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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