terça-feira, 17 de julho de 2012

Ben Bernanke lacônico desanima os mercados.



A produção industrial dos EUA, relativa ao mês de junho veio ligeiramente acima do esperado, em 0,4%, suficiente para acalmar os mercados. Abaixo, gráfico da Bloomberg:






Com esse dado, e com a esperança de que o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, fosse anunciar medidas adicionais de estímulo à economia dos EUA, os mercados abriram otimistas, com leves altas. Mas o depoimento do presidente da autoridade monetária no Senado em nada acrescentou ao que já sabemos: há preocupações quanto ao ritmo da economia e do estado do mercado de trabalho. Nada mais dito, e o mercado ignorou a boa notícia da produção industrial, que se recuperou do leve tombo de maio. O índice de preços residenciais também veio acima do esperado, mostrando recuperação forte desde agosto do ano passado, acima da média das estimativas do mercado.

Junto com os mercados acionários, as moedas estão mais voláteis, com euro e real declinando frente ao dólar.

Os mercados ainda se ressentem da falta de uma liderança clara que possa atenuar os efeitos da erosão da confiança global. Ontem o Fundo Monetário Internacional publicou a atualização do Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global e o Relatório de Perspectivas da Economia Global. Eles confirmam que as condições gerais das economias é pior hoje do que era seis meses atrás e devem continuar a piorar. Além de reduzir as estimativas de crescimento para esse ano, em função da crise que se arrasta na Europa, o Fundo, no Relatório de Estabilidade Financeira alerta para alguns aspectos que fazem com que a vulnerabilidade financeira global aumente fortemente:

·  A Europa ainda não conseguiu elaborar um plano para estabilização de suas economias. Mesmo após o anúncio do pacote de resgate à Espanha, os prêmios de risco dos títulos espanhóis e italianos dispararam. Os líderes europeus não conseguiram apresentar uma solução confiável e, com isso, fazem aumentar o clima de incertezas acerca da região, que vai piorando à medida em que a recessão piora seus fundamentos.
 
· A economia americana apresenta um potencial elevado para aumentar a insegurança dos mercados no segundo semestre. O problema fiscal da maior economia do planeta é resumido na questão do teto legal da dívida pública e o precipício fiscal, ambos a ocorrerem em meio às eleições presidenciais. O teto legal da dívida pública dos EUA diz respeito à renovação da autorização que o Congresso tem que dar ao Tesouro para que ele possa continuar a emitir dívida. Três anos atrás os mercados passaram por enorme aperto por conta dos embates entre republicanos e democratas acerca desse tema. Os republicanos se recusavam a autorizar um novo teto para a dívida público, o que levaria o governo dos EUA a uma moratória de sua dívida. Apesar de provável a renovação do teto, os republicanos não a venderão sem causar um enorme estrago nos mercados, tal como fizeram anos atrás. Além disso, no começo de 2013 vencerão os descontos de impostos e gastos que o governo realizou durante a crise. Com isso haverá uma contração fiscal (elevação de impostos e cortes de gastos) da ordem de 4% do PIB. Se isso ocorrer,  a pressão recessiva sobre a economia dos EUA será explosiva, com potencial de derrubar o PI em mais de 7%. Essa é uma questão a ser tratada no âmbito político de deve gerar enorme volatilidade nos mercados à medida que se aproximar.

· Os mercados emergentes foram contaminados pela crise global. Isso representou menos crescimento e potencial de volatilidade nos mercados de moeda (o relatório destacou as desvalorizações da rúpia e do real). Outro aspecto que já é levantado pelo relatório é o impacto da crise sobre os ativos de créditos de China, Brasil e Índia, que expandiram essas operações fortemente após a crise. O Fundo alerta para a possível perda de qualidade desses ativos e seus potenciais ‘trancos’ sobre as taxas de crescimento desses países. O relatório destaca para a possibilidade de piora dos quadros de financiamento externo e fiscal desses países.

Com uma perspectiva tão negativa é improvável que os mercados melhorem sem que novidades concretas surjam dos políticos globais. Eles continuam resistentes a implantar, novamente, políticas agressivas de estímulos, com receio da piora do quadro fiscal. As a piora da economia tem arrastado as condições fiscais da maior parte dos países ao buraco.

Hoje os mercados ficarão oscilando em torno de poucas novidades, mas com a falta de vontade característica de uma economia global em desaceleração.




Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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