sexta-feira, 29 de junho de 2012

EVENTOS ECONÔMICOS DA SEMANA


Europa: ganhando tempo para respirar.


A reunião da cúpula europeia terminou com a aprovação de algumas decisões que jogam um banho de água fria na crise, mas apontam para o agravamento dela em alguns meses. Ela repete, de certa forma, a estratégia que vem sendo adotada desde o ano passado e que consiste em injetar dinheiro nos sistemas bancários e no financiamento das dívidas soberanas e aumentar o rigor na condução das políticas fiscais. Os mercados reagiram com vigor ao pacote e estão em alta exuberante, tal como fizeram nos anúncios do início desse ano. Mas o conjunto de medidas está longe de ter sucesso e, na ausência de novas políticas, jogará a Europa em uma depressão ainda mais grave do que seria de se esperar.

Voltando ao ponto de partida de janeiro, o plano da Europa para evitar o colapso da Espanha e da Itália tem o mesmo diagnóstico: a crise é financeira e dando aos bancos capital para sua sustentação eles voltarão a financiar o crescimento de suas economias. O mesmo vale para as dívidas soberanas, cujos custos explodiram nos últimos anos: o BCE compra esses títulos e evita que os custos continuem subindo, permitindo aos tesouros nacionais taxas de financiamento compatíveis com sua capacidade fiscal. Insistimos que essa estratégia adia o problema e é incapaz de reverter a tendência depressiva que empurra a região para trás. O BCE injetou 1,1 trilhão de euros no sistema bancário em duas operações entre dezembro/2011 e janeiro desse ano e, ainda assim, a região apresentou crescimento negativo no semestre com aumento significativo do desemprego. A insistência nessa política pode tranquilizar, em alguns pregões, os mercados. A bolsa espanhola está subindo 4%, a sua dívida se valorizou e o risco caiu de 550 para 480. Mas as condições econômicas ainda estão sujeitas à piora contínua, já que essa nova injeção de capital, de 500 bilhões, não deverá se transformar em gastos. Piorando mais a situação, esse dinheiro só será liberado ao final do ano.

Como apoio às economias, também foi aprovado um pacote de 130 bilhões de euros para incentivar os investimentos na região. Mas esse valor é pequeno diante das necessidades e as contrapartidas são, em grande medidas, um obstáculo para o crescimento.

Ficou firmada, também, a intenção de união bancária e fiscal da região, da formulação coordenadas de reformas para o aumento da produtividade das economias locais e o aumento do controle democrático às políticas adotas no âmbito da Comunidade e na União Europeias. Essa era a proposta de Itália, França e Espanha, levadas à reunião do início da semana com a Alemanha e que foi adotada com pouco entusiasmo pela Chanceler Angela Merkel. Em outubro o Conselho da União Europeia, a Comissão Europeia e o BCE devem apresenta rum plano concreto para implantação dessas quatro propostas.

Apesar de ocorrer em um clima de menor divisão, as decisões foram discutidas à exaustão, com a Alemanha desempenhando o papel mais conservador e levando as decisões ao critério de que cada ação deveria ter uma contrapartida, em geral de aperto fiscal.

Assim os mercados reagiram positivamente à reunião, valorizando o euro e sustentando fortes altas de ações. Como a liquidez imediata do sistema não aumentará, tal como o ocorrido com as operações LTRO do início do ano, esse movimento deve ser mais moderado do que foi entre novembro e maio, com o índice EURO STOXX 50 subindo 28%. Esperamos mais moderação nessa alta e um ciclo de otimismo mais curto, já que os indicadores econômicos da região continuarão a denunciar a forte desaceleração da economia.

Nos EUA foram divulgados os dados de consumo e renda pessoais de maio que, apesar de virem dentro das expectativas, mostram a economia dos EUA em ritmo muito lento. A renda manteve eu ritmo de crescimento de abril, mas o consumo caiu de 0,3% para 0%.






Ao terminar a semana com um pouco mais de otimismo, os mercados interrompem um ciclo de sete pregões de queda que levaram a uma perda de 7,5% no Ibovespa. Mesmo com a alta de hoje, o índice ainda se encontra negativo no ano em quase 5%. Acompanhando as moedas globais, o real está se apreciando em relação ao dólar em 2%. As commodities também estão num dia de euforia, após quedas vigorosas e algumas, como o petróleo, sobem quase 5%.

É possível que tenhamos mais alguns pregões de recuperação, mas esse ambiente só será consolidado se os riscos de depressão na Europa forem afastados. A cúpula que se encerra hoje não avançou nessa tarefa.
 


Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


Disclaimer:
"Este informativo foi preparado pela TOV Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários e é distribuído gratuitamente, com a finalidade única de contribuir com uma ótica sobre o mercado em geral, sem possuir qualquer vínculo com pessoas ou empresas eventualmente citadas, nem delas recebendo qualquer tipo de remuneração. Mesmo nos atentando para trazer as informações com a maior precisão, elas não são por qualquer forma garantidas, isentando a TOV de qualquer responsabilidade. Os indicativos, as opiniões e as projeções que venha a ser expressas neste informativo estão sujeitos a mudanças a qualquer momento, sem necessidade de aviso ou comunicado prévio. Cabe ressaltar que de nenhuma maneira, este relatório possa ser interpretado como sugestão de compra ou de venda de quaisquer ativos e valores imobiliários. Este relatório não pode ser reproduzido, distribuído ou publicado por qualquer pessoa, para quaisquer fins."

 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O PAC 2 e a situação fiscal da Europa.

O governo anunciou o pacote de medidas para estimular os investimentos e ele se resumiu a um aumento de compras de equipamentos à indústria nacional de R$ 6,61 bilhões. Acreditamos que essa medida é insuficiente para mudar o quadro geral de queda dos investimentos já que eles totalizam, segundo apuração do IBGE no sistema de contas trimestrais, cerca de R$ 200 bilhões de reais por trimestre ou R$ 800 bilhões por ano. Esse acréscimo do governo representa cerca de 1% do investimento total. Não haverá, portanto, mudança substancial da situação dos investimentos totais.

Seguindo na análise da crise europeia, procuraremos mostrar a importância do aspecto fiscal na deterioração do quadro econômico atual e de como as políticas adotadas até aqui mais agravaram do que evitaram a recessão que está sufocando o euro.

O quadro abaixo mostra os déficits públicos de cada país desde 2.002, medidos como percentagem do PIB a cada ano:


 



O ano de 2.008 está hachurado para identificar o ponto de inflexão da situação fiscal europeia e do mundo. Como pode ser notado, os déficits europeus estavam relativamente bem comportados até o ano de 2.008, com exceção da Grécia, quando passaram a “explodir”, atingindo patamares elevados. Essa alta do déficit ocorreu por conta da queda da arrecadação, do aumento dos gastos com os pacotes de socorro aos sistemas bancários e com os pacotes de estímulos à demanda. É possível observar que a situação fiscal dos EUA piorou significativamente e se manteve em patamar elevado, ao redor dos 8%. Já o Brasil, que vinha com déficits moderados, teve uma leve piora e depois voltou ao seu patamar normal.

A piora do  déficit está associada, em todos os países, prioritariamente, à queda do nível de atividade e à decorrente queda de arreação de tributos. Também concorreu, para os países que estão na mira dos mercados, como Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda, a explosão dos custos de financiamento de suas dívidas em decorrência da piora da percepção dos riscos por parte dos mercados. À medida que as economias se desaceleram, a arrecadação cai, aumentam os custos de financiamento e suas dívidas aumentam, em um círculo vicioso que vem sendo alimentado, em grande medida, pela insistência nas políticas depressivas impostas pela troika. O único caminho atacado pelos atuais planos foi o de tentar reduzir os custos de financiamento para tornar o déficit controlável. Mas, até aqui, essa política fracassou, já que tanto os custos como as dívidas subiram de maneira acentuada. A causa central é a queda do nível de atividade. Abaixo mostramos o tamanho das dívidas de cada país como percentual do PIB:




Olhar apenas o tamanho não nos dá a exata dimensão do problema. É necessário ver o custo de financiamento dessa dívida. O Japão, com uma dívida de 127% de seu produto anual, o PIB, tem um custo muito menor, em termos absolutos, do que vem tendo a Espanha, cuja taxa de juro está em níveis recordes. Brasil e Coreia têm dívidas bem baixas e tem conseguido sucesso desde o início da crise em mantê-las sob controle. A “mágica” dessa administração está nas taxas de crescimento de ambos que, apesar de terem se desacelerado em relação às taxas pré crise, ainda se mantém elevadas para financiar suas dívidas, de sorte a mantê-las em patamares civilizados.

Estamos, portanto, diante de um quadro que requer a interrupção desse círculo vicioso, no qual a troika asfixia as economias com restrição de gastos e os mercados aumentam os gastos via aumento dos prêmios de riscos sobre as dívidas soberanas. Não estamos diante de um problema localizado nas dívidas soberanas; ele é um problema fiscal associado a uma profunda recessão. A saída só poderia ocorrer mediante um novo pacote de estímulos das economias do euro. As soluções que o Brasil vem adotando até aqui seriam aplicáveis perfeitamente na Europa, onde os gastos públicos e privados estão despencando. Já no Brasil, as medidas não atingirão seus objetivos, já que estamos sofrendo por conta da crise global, sobre a qual não temos nenhum poder de gerenciamento.









Pedro Paulo Silveira (Economista)
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terça-feira, 26 de junho de 2012

Na Europa, uma nova proposta para “salvar” o euro; no Brasil, o desencanto do investidor com o governo Dilma continua.




Dando continuidade à aparentemente infindável novela da agonia do euro, os presidentes de França, Espanha, Itália e Alemanha se reúnem hoje para apresentar um rascunho de proposta a ser apresentado à reunião da cúpula da União Europeia que se reúne na quinta e sexta feira para discutir, pela vigésima vez, literalmente, a crise de sua moeda. Depois que Chipre pediu resgate e que os mercados globais derreteram, os dirigentes desses quatro países viram boa motivação para voltar à mesa de trabalho na tentativa de materializar uma saída para a crise.


Desde que o euro foi proposto, quase três décadas atrás, houve uma série de discussões sobre a possibilidade teórica de formação de um bloco econômico com moeda única que sobrevivesse às fragilidades inerentes a esse tipo de arranjo e aos regimes democráticos que sustentavam a proposta política. O único acordo a que chegaram teóricos e políticos, foi o estabelecimento de metas fiscais para os países do bloco, que deveriam ser atingidas gradativamente e, após isso, não poderiam ser removidas. As propostas mais radicais apontavam na direção da unificação dos regimes fiscais, com o estabelecimento de um  tesouro único que financiasse a moeda. A meio caminho, as metas fiscais, sem tesouro único, sobreviveram até que a crise de 2008 varresse os sistemas bancários europeus e impusesse uma enorme deterioração das condições fiscais de cada participante da euro região. Todo o imbróglio a que estamos vendo pode ser reduzido à questão fiscal: quem arca com o ajuste dos tesouros locais que foram empurrados ao colapso a partir da crise.


Ainda que os diagnósticos possam ser diferentes, a crise fiscal é o ponto central da crise do euro. Ela tem origem na recessão imposta pela crise financeira global e nos programas de resgate ao sistema bancário. Mas a saída dela, como temos afirmado constantemente nesse relatório, poderá salvar o euro ou enterrá-lo definitivamente. A ideia de construção de um tesouro único é atraente mas não há como saber se ela será viabilizada a tempo de salvar a Espanha e a Itália do colapso. O mais correto, tudo indica, seria o acerto de uma enorme emissão monetária do euro, de sorte a aliviar as condições recessivas da região, e a construção de um programa de implantação de tal tesouro que se baseasse nas receitas decorrentes da recuperação econômica futura. A questão é que a distribuição dessas contribuições presentes e receitas futuras poderá implicar em uma disputa política que, em si, revela as dificuldades da união fiscal. Ninguém vai gostar de pagar a conta, ainda que todos saibam os enormes custos que ocorrerão por conta do fim do euro. A Alemanha, principal financiadora desse projeto, resiste muito à ideia de se “sacrificar pela falta de disciplina dos outros”. Mas ela é a maior beneficiária da instauração do euro (suas exportações têm como destino principal a zona do euro) e será a maior perdedora caso ele desapareça.


Apesar dos sinais de boa vontade, os dirigentes reunidos dificilmente encontrarão a solução que os mercados precisam, com urgência, para suportar a pressão sobre o euro. Essa reunião apresenta uma esperança, mas pode aumentar ainda mais a volatilidade. Para temperar a emoção, o tesouro espanhol fez uma emissão de títulos de sua dívida pagando taxas recorde, novamente. Adicionalmente, ontem à tarde, a Moody´s rebaixou as notas de crédito de 26 bancos do país.


Aqui no Brasil, o único indicador divulgado diz respeito a um assunto que vai se tornando cada vez mais secundário: a inflação. A FGV divulgou o IPC semanal e ele apresentou novamente desaceleração, ficando em 0,12%. À medida que a crise foi avançando, a importância da inflação ficou para trás e foi ganhando espaço, como não poderia deixar de ser, o crescimento econômico e o financiamento do déficit do setor externo. A queda da demanda global tem levado à queda das exportações e dos investimentos, com ambos afetando tanto a taxa de crescimento como a capacidade de financiamento do déficit externo. Se a economia continuar se agravando é muito provável que esses dois fatores, que já vêm causando mal estar nos investidores, tornem-se ainda mais decisivos. A discussão em torno do aumento da gasolina e do diesel, mal gerenciada pelo governo, acabou azedando ainda mais as expectativas em torno da Petrobrás. Nos últimos doze meses a Esso subiu 9%, enquanto o ADR da Petrobrás caiu 41%, abrindo um descolamento de 50% entre ações do mesmo setor. Esse é um indicador claro de que o mercado já vem punindo o Brasil pela adoção de suas práticas de política econômica. Independentemente dos acertos ou dos erros dessa política, a “aversão ao Brasil” pode estar na raiz da redução de nossa taxa de Investimentos. Valerá a pena acompanhar de perto a evolução desse cenário de “desencanto” com o governo Dilma Rousseff, seja pela questão do financiamento externo, seja pelo pela evolução dos Investimentos.


Nos EUA os indicadores continuam refletindo um comportamento decepcionante da economia que parece exigir, cada vez mais, novos pacotes de estímulo do Federal Reserve. Importante foi o índice de preços “Case-Schiller”, que é uma estimativa para os preços dos imóveis de vinte regiões metropolitanas do país. Após subir no mês de fevereiro, ele voltou a apresentar desaceleração em abril, ainda que tenha se mantido em terreno positivo. O indicador mostra que o setor imobiliário, centro da crise de 2008, ainda tem dificuldades para se recuperar. Abaixo o gráfico do índice, disponibilizado pela Bloomberg:
 




 
Também foi divulgado o índice de confiança do consumidor, medido pelo ‘Conference Board”, que veio em 62, abaixo do esperado (63,5) e do indicador de maio (64,9). O indicador de atividade industrial do FED de Richmond também veio abaixo do esperado e mostrando desaceleração, -3 contra uma expectativa de 5 e um indicador de 4 para maio.

Apesar dos dados ruins, o mercado ensaia uma recuperação, na esperança de boas notícias vindas da reunião dos europeus.





Pedro Paulo Silveira (Economista)
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segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Espanha pede socorro e embarca em um pesadelo.

Sem condições de gerenciar sozinha a crise de seu sistema bancário falido, a Espanha formalizou pedido de ajuda à Comissão Europeia no final de semana. Como resposta, o vice presidente da Comissão, Olli Rehn, afirmou que a ajuda está condicionada a um regime de supervisão intensa, equivalente a uma intervenção. A partir de agora todas as ações do Banco da Espanha e da Comissão Nacional de Valores Mobiliários estarão sujeitos à supervisão direta dos técnicos da troika (Comissão Europeia,  Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional). Para conseguir os 62 bilhões de euros estimados para evitar as falências do setor bancário, a Espanha terá que se submeter a um tratamento de choque muito mais intenso do que tem visto nos últimos anos. Ollin sugere que devem ser intensificados o ajuste fiscal e as reformas estruturais, que serão a garantia para o “crescimento sustentável e mais e melhores postos de trabalho”. A partir de agora, as instituições que necessitarem do aporte de capital, estarão sujeitas  à liquidação, venda, absorção, fusão ou o que for decidido pela Comissão Europeia. O presidente Mariano Rajoy declarou que a nação deve se preparar para medidas difíceis.

Independentemente do conteúdo do discurso político feito pelos atores desse evento, ele expõe o  ponto de implosão a que chegou a economia espanhola e a falta de comprometimento da Comissão Europeia em apresentar uma solução para a questão. Formular planos de austeridade, associados a “reformas estruturais”,  pelo que mostram os exemplos históricos e os recentes,  fará com que a crise se agrave, tornando a Espanha mais semelhante à Grécia do que à Alemanha. Esse plano, apesar de escorar temporariamente o sistema bancário espanhol, levará a economia a uma situação ainda mais depressiva do que a atual, que já conta com um desemprego superior a 25%. Para a Europa, esse é mais um evento na direção de tornar a crise do euro mais intensa e, talvez, mais irremediável. Do ponto de vista político, essa “ajuda” representará uma intervenção inédita na história da euroregião e tornará a Espanha refém da Comissão Européia. Historicamente ela se assemelha aos planos de intervenção do FMI, recorrentes até os anos 2000. Mas para os padrões europeus essa ação poderá ser muito mais danosa do que está sendo “precificado” pelo mercado. É pouco provável que os espanhóis aceitem abrir mão de sua própria democracia.

Como contrapartida à recessão que vai se disseminando no continente, os principais dirigentes da eurozona anunciaram um pacote de 130 bilhões de euros para incentivar a economia da região. Esse valor, equivalente a 1% do PIB, deverá ser utilizado para estimular investimentos e mercado de trabalho. Esse plano não animou os analistas, já que esse montante é pequeno e provavelmente não surtirá efeitos. Basta lembrar que as injeções de capital feitas pelos Tesouros nos bancos privados que enfrentaram dificuldades em 2008 chegaram a quase 1,5 trilhão. Essa proposta de gastos não deverá impedir a contínua desaceleração das economias da região.

De todas as inciativas que poderiam ser tomadas no calendário oferecido pelos euro dirigentes, não resta mais nenhuma no horizonte de curto prazo. Tudo indica que o que eles têm a nos oferecer é esse cardápio, um tanto amargo para quem espera uma solução efetiva para o quadro de ruptura que está formado.

Aqui no Brasil o BC divulgou o relatório Focus da semana e ele, é claro, continua mostrando queda para as expectativas de crescimento de 2012 e para a inflação. Em relação ao crescimento, o mercado espera uma taxa 2,18% para 2012, na mediana. Nossa expectativa permanece em 1,70%, como teto, com chance de vir muito mais próxima a 1,3%-1,5% já que o cenário para a economia mundial no segundo semestre vem se agravando.  Abaixo o gráfico da evolução das expectativas de crescimento segundo os informantes do sistema de expectativas do Banco Central:




Tudo indica que essa semana será, uma vez mais, de deterioração das expectativas, já que os indicadores a serem divulgados deverão continuar mostrando as economias em desaceleração e os líderes globais esgotaram suas agendas sem que um plano efetivo fosse anunciado. Provavelmente teremos mais volatilidade e piora nas expectativas.





Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Enventos Econômicos da Semana

Mercados ensaiam melhora à espera do socorro à Espanha.

Ontem, após o encerramento do pregão, a agência de classificação de riscos Moody’s anunciou o corte das notas de quinze bancos globais. Esse corte já era esperado desde fevereiro quando, em relatório, a agência notificou o mercado que estava fazendo uma revisão em suas notas. Curiosamente os mercados reagiram comprando as ações desses bancos, fazendo com que todas elas subissem. As justificativas para esse comportamento “contraditório” variam desde a explicação de que esperava-se um rebaixamento maior até a de que as avaliações d as agências de riscos estão em total descrédito após tantos erros cometidos.

Os bancos que tiveram rebaixamento foram, segundo o Valor, foram os abaixo. Ao lado, as respectivas oscilações em suas bolsas:



Bank of America em uma escala, para Baa2 +1,7%
Barclays em duas escalas, para A3 +0,69%
Citigroup em duas escalas, para Baa2 +1,26%
Credit Suisse em três escalas, para A2 +2,58%
Goldman Sachs em duas escalas, para A3 +0,59%
HSBC em uma escala, para Aa3  +1,45%
J.P. Morgan em duas escalas, para A2  +1,89%
Royal Bank of Scotland em uma escala, para Baa1 +3,07%
Morgan Stanley em duas escalas, para A3 +0,35%
BNP Paribas
em duas escalas, para A2 +2,35%
Credit Agricole
em duas escalas, para A2   +1,80%
Deutsche Bank
em duas escalas, para A2  +1,59%
Royal Bank of Canada
de Aa1 para Aa3 +0,06%
Société Générale
de A1 para A2  +2,96%
UBS de
Aa3 para A2
  3,33%

Difícil saber qual das razões é a que vale para esse comportamento, o fato é que os bancos estão com exposições elevadas em todos os ativos que sofrem bastante com a crise atual e essa alta pode ser encarada como um evento que também é impulsionada pela expectativa em torno do resgate da Espanha. A bolsa espanhola apresenta alta de mais de 2% e isso é reflexo do provável pedido de resgate que o governo Rajoy encaminhará ao BCE e à Comunidade Europeia na segunda feira. Tudo indica que esse pacote, ao redor dos 100 bilhões de euros, será suficiente para dar suporte aos bancos do país que necessitam, segundo estudos recentes, de algo como 60 bilhões. O índice S&P Banks, que mede a variação do valor de mercados dos principais bancos com ações negociadas nos EUA apresenta uma queda em doze meses de 11,5% e de 20% em cinco anos. Leve-se em conta que esse mesmo índice subiu 4% em 2012. A perda de valor dos bancos, ocorrida na crise de 2008, ainda os deixou com uma desvalorização de 20% em relação ao seu valor de mercado antes da crise. Vale lembrar que boa parte dos bancos recebeu fortes aportes de seus Tesouros, que somaram, ao longo de toda a crise, mais de US$1,4 trilhões.

A despeito dessa estranha reação dos mercados ao anúncio da Moody´s, os dados econômicos da Europa foram mais uma vez ruins. A Alemanha reportou que as condições da economia continuam piorando o que levou a uma queda no índice de confiança medido pelo instituto IFO. Na Itália, o índice de confiança também mostrou retração, em sintonia com a piora das condições econômicas.

Os mercados de commodities e moedas acompanharam essa tendência positiva das bolsas dos EUA,. O petróleo está com alta de mais de 1% e o gráfico abaixo, da CNNFN mostra o seu comportamento em um ano:

 


E esse gráfico do petróleo nos conta uma histórica clara de como tem sido o ano para os agentes do mercado global. Após os vários pacotes de liquidez que inundaram as economias com o que foi chamado aqui no Brasil de Tsunami monetário, todos os ativos tiveram forte apreciação, saindo de patamares muito baixos. Isso valeu para os mercados acionários e para o de commodities também. O petróleo saiu de um deprimido preço de US$ 80 o barril em setembro e superou os US$ 100 por vários meses. A discussão em torno da economia global deixou de ser a de preocupações com recessões e começou a se pautar com temores inflacionários decorrentes das políticas de expansão monetária. O mês de maio foi o da queda na realidade: as políticas de estímulo não estavam sendo suficientes para dar suporte à economia global e sua conjugação com políticas de austeridade na Europa simplesmente reforçou a tendência à recessão naquela região. Todos os ativos derreteram e o petróleo, cujo preço depende profundamente do nível de atividade global, despencou quase ¼ no período. Também despencaram as expectativas de crescimento global, dos EUA, da China, da Europa, da Alemanha e, como não poderia deixar de ser, do Brasil.

A semana vai terminando com esperanças depositadas nos pacotes para Itália e Espanha e uma futura ação de relaxamento monetário do Federal Reserve. Os dados presentes, no entanto, mostraram que as condições globais estão se deteriorando.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Agenda forte com viés contracionista

Divulgados os dados da pesquisa PMI (índice de gerente de compra) da indústria da China, Europa, Alemanha e EUA, confirma-se que a atividade industrial está em retração nesses países. Para China, Zona do Euro e Alemanha, o índice vem abaixo de 50, indicando retração e desacelerando-se. Para os EUA, ainda um pouco acima de 50, ele vem em desaceleração forte. Já no Brasil houve duas notícias positivas: inflação bem menor, medida pelo IPCA-15 do IBGE, e mercado de trabalho ainda aquecido, com ligeira queda da taxa de desemprego nas seis capitais onde a pesquisa é feita, ainda que a renda urbana tenha mostrado uma pequena retração em termos reais.


Começando pelas boas notícias, o IBGE divulgou dois dados animadores que indicam que o mercado de trabalho ainda não se alterou e função da desaceleração da economia (ao menos nas seis capitais da pesquisa) e a inflação caiu significativamente por conta, sobretudo, da redução do IPI, da queda dos combustíveis e do comportamento morno dos serviços. Alimentos subiram fortemente em função do clima e sentiremos, mês que vem, os impactos da alta dos combustíveis, já anunciada pela Petrobrás. Afora esse dois indicadores, que mostram que o BC está indo na direção certa em termos da taxa básica, não há  mis notícias que consigam compensar o clima ruim da economia global.


As pesquisas feitas junto aos gerentes de compras da indústria mostraram contração em boa parte das economias industrializadas e desaceleração significativa nos EUA. O gráfico abaixo resume o quadro:




Um número abaixo de 50 indica contração na indústria e podemos ver que a China está num patamar de contração. A indústria chinesa vem sendo afetada pela queda das exportações, provando o trivial: a crise global afeta todos os países. A Alemanha, o motor da Europa e esperança para sua estabilização também exibe claramente os sintomas de fadiga e escancara, uma vez mais, a sua própria dependência em relação ao comércio europeu, em declínio por conta da forte recessão. Os discursos de Merkel em relação aos seus parceiros encontram nessa evidência irrefutável que alemães dependem tanto dos europeus quanto eles dependem dos alemães. A reunião de amanhã, do EU-27 precisa concretizar um plano de resgate da região já que a própria Alemanha, com os dados apresentados até agora deverá apresentar um PIB negativo no segundo trimestre.

Nos EUA todos os indicadores anunciados hoje, exceto os indicadores antecedentes, vão na mesma direção: a atividade econômica do país está se desacelerando. Saíram dados do PMI, da indústria, do mercado de trabalho, de indicadores antecedentes e do mercado imobiliário. Todos indicam desaceleração da economia no mês de cada pesquisa. Abaixo os gráficos de vendas de imóveis usados (existing home sales) e do índice de atividade do FED da Filadélfia,  fornecidos pela Bloomberg:






Os indicadores antecedentes apresentaram alta de 0,3%, surpreendendo positivamente os analistas, mas os indicadores acima, somados ao número de pedidos de seguro desemprego, que subiu novamente, para 387 mil, deixou claro que a maior economia do planeta está se ressentindo da desaceleração global. O tímido anúncio de Ben Bernanke de que o Federal Reserve está pronto para tomar mais iniciativas para estimular a economia não é capaz de eliminar o ceticismo quanto à sua efetividade. Como temos colocado insistentemente, o ano eleitoral nos EUA impede ações mais eficientes e as esperanças dos policy markers dos EUA estão voltadas para a Europa.

O ministro Guido Mantega repeliu a projeção do Credit Suisse de crescimento da economia brasileira em torno de 1,5%. Nossa projeção é muito parecida, oscilando entre 1,5% e 1,8%, com viés de baixa em função do alto risco de desaceleração global no segundo semestre. O nosso cenário incorpora uma recuperação na margem a cada trimestre do ano, o que vai ficando difícil de se sustentar com o constante agravamento do cenário econômico global. Talvez o ministro baseie suas esperanças nas políticas recém adotadas de estímulos pontuais, desonerações e redução dos juros básicos. Mas a contaminação da crise sobre os investimentos é muito mais séria do que ele parece acreditar. Em grande medida, o Brasil tem reagido à crise global como a China e todos os países tem reagido, com queda nas exportações. O Brasil agrava um pouco mais seu crescimento pela queda dos investimentos, que vinham dando a grande dinâmica do último ciclo de crescimento. Tudo indica que o cenário mais provável é o apontado pelo Credit Suisse, já que não vemos, no horizonte de curto prazo, capacidade global de reação.

Hoje os mercados devem digerir os dados ruins da economia global e continuar aguardando um “milagre” na reunião dos ministros da Zona do Euro amanhã.



Pedro Paulo Silveira (Economista)
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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Uma tranquilidade irreal.

Estamos aguardando três eventos de devem acontecer para que os mercados não derretam novamente: (1) o FED deve anunciar hoje a “rolagem” da operação de financiamento de títulos longos (chamada twist) que vence esse mês, no valor de US$ 400 bilhões ; (2) a reunião de sexta feira dos líderes da Zona do Euro, a EU-27, que deve anunciar um pacote de salvamento do euro; e  (3) o novo governo grego, composto pelos três partidos que já se compuseram em bloco, deve formalizar sua posse e o comprometimento com o euro. Todo o movimento de alta feito desde sexta feira até ontem, está na dependência desses três eventos. Se algum deles falhar, voltamos ao triste ponto de partida. Mas a sua ocorrência não garante  de toda forma, que o segundo semestre seja de recuperação global.


Hoje o FOMC deve anunciar a renovação da mega operação de financiamento de títulos do tesouro de longo prazo das carteiras dos bancos americanos, no valor de US$ 400 bilhões e que vence esse mês. Os dados recentes da economia continuam a mostrar o esgotamento dos estímulos efetuados pelo Federal Reserve, seja do lado da atividade econômica, seja no mercado trabalho. Barack Obama tem concentrado seus esforços na tentativa de convencer os europeus que os EUA precisam de medidas de estímulo na Europa para evitar uma desaceleração mais séria em sua própria economia. Essa tem sido a principal “desculpa” usada pela equipe de Obama para explicar o fraco desempenho da economia americana. A desaceleração da Europa “roubou” alguns pontos de crescimento dos EUA que seriam obtidos pela política de estímulo monetário. Agora todas as atenções dos policy markers americanos têm se centrado na salvação da economia europeia. Como ponto de sua estratégia atual para manter a economia longe da desaceleração, o FED tem que fazer essa nova operação, já que a sua não renovação levaria a um quadro de aperto monetário muito grave para o momento atual.


Vemos a estratégia americana, portanto, como limitada a rolar uma operação que já existia e “torcer” para que os europeus façam alguma coisa urgente. O poder de fogo de Obama está muito limitado pela campanha eleitoral que tem um oponente, Mitt Romney, que vê na política de estímulos um “grave erro” do democrata.


A reunião do G20 era a grande aposta do mercado na semana passada para o anúncio de medidas para estimular a economia global e conter a crise da Europa. Nada de efetivo foi anunciado. O aporte de US$ 400 bilhões ao FMI é uma promessa antiga e nada garante que a instituição utilize esses recursos de forma produtiva para estimular a economia. Vale lembrar que as condicionalidades do FMI continuam a ser duras com os devedores e acabam por comprometer ainda mais sua capacidade de recuperação.


Dos esforços dos EUA e Europa, restaram apenas uma promessa de que os europeus anunciarão um pacote estrondoso após a reunião dos ministros dado Euro na sexta feira. Os líderes europeus garantiram a Obama que as medidas serão surpreendentemente fortes para suportar a economia europeia e garantir que ela volte a crescer. Segundo informações que vazaram à imprensa, as medidas atacam três frentes: unificação fiscal dos países da Zona do Euro; suporte financeiro à Itália e Espanha e, finalmente, medidas de estímulos aos investimentos e à geração de empregos. Essa promessa parece atacar todos os grandes problemas que têm levado os eurocéticos a criticar a unificação monetária desde a sua criação há dez anos. É difícil acreditar que agora, em meio a uma crise brutal, as instituições sejam reformadas tão rapidamente a ponto de acabar de imediato com a recessão. As medidas de unificação do regime fiscal são de implementação muito complexa e terão efeito, se efetivamente propostas, em um prazo muito longo. Já os pacotes de suporte da Espanha e da Itália são viáveis mas estão emperrados nas condicionalidades impostas pelos maiores emprestadores, os alemães. Já as medidas de incentivo a investimento e emprego, são de grande impacto, mas nunca fizeram parte da agenda até aqui.


Não conseguimos ver, portanto, a promessa europeia como algo viável.


Por fim, o cenário político grego, que trouxe alguma tranquilidade aos mercados ao definir um governo majoritário liderado por partidos que se comprometeram a implantar os ajustes exigidos pela troika. Aqui, uma vez mais, trataremos com uma boa intenção de curto prazo que tem enormes chances de dar errado no médio prazo. Todo o pacote de resgate grego, vale lembrar, destina-se ao pagamento das dívidas que o país tem com os bancos europeus. Em troca disso o país continuará a amargar uma enorme queda de sua renda, aumentando ainda mais os sofrimentos da população. É possível que o mercado se contente em deixar de lado o problema grego enquanto tenta equacionar o espanhol e o italiano. Mas esse problema voltará à agenda muito em breve. O governo recém eleito, apesar de ter a maioria formal do parlamento, não deverá contar com a simpatia da população que deverá voltar às ruas. O cenário mais provável para as próximas semanas é que a Grécia volte a ser o principal evento dos mercados globais, testando, uma vez mais, a disposição real das lideranças europeias em mantê-la no bloco.


A aparente tranquilidade dos mercados esconde um momento de parada que antecede um novo ciclo de forte volatilidade.


Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


Disclaimer:
"Este informativo foi preparado pela TOV Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários e é distribuído gratuitamente, com a finalidade única de contribuir com uma ótica sobre o mercado em geral, sem possuir qualquer vínculo com pessoas ou empresas eventualmente citadas, nem delas recebendo qualquer tipo de remuneração. Mesmo nos atentando para trazer as informações com a maior precisão, elas não são por qualquer forma garantidas, isentando a TOV de qualquer responsabilidade. Os indicativos, as opiniões e as projeções que venha a ser expressas neste informativo estão sujeitos a mudanças a qualquer momento, sem necessidade de aviso ou comunicado prévio. Cabe ressaltar que de nenhuma maneira, este relatório possa ser interpretado como sugestão de compra ou de venda de quaisquer ativos e valores imobiliários. Este relatório não pode ser reproduzido, distribuído ou publicado por qualquer pessoa, para quaisquer fins."

terça-feira, 19 de junho de 2012

A Espanha como bola da vez.




Ontem a dívida espanhola apresentou a sua maior desvalorização desde a sua adesão ao euro. O rendimento exigido pelos agentes ultrapassou os 7% e o prêmio sobre os bônus do tesouro alemão chegou a 590. A ausência de acordo para a forma do pacote de resgate do sistema bancário espanhol, por parte da Comissão Europeia, vai piorando gradativamente a percepção de risco em relação ao país, cujos indicadores econômicos se deterioram a cada mês. No G20 a expectativa é a de que a Europa resolva rápido o que fazer em relação a esse tema, mas os sinais emitidos pelos membros da troika e o governo Rajoy são conflitantes. Hoje os títulos mais curtos estavam em desvalorização, confirmando a tendência de deterioração do quadro espanhol.

As bolsas, desde sexta feira têm se mantido em valorização à espera de um anúncio de pacotes de resgate a partir da reunião do G20. Os sinais efetivos, no entanto, são de que os tais pacotes ainda não foram costurados com metade da reunião concluída. Apesar dos discursos otimistas de Obama e Merkel, no sentido de chamar a ação para o resgate do sistema bancário global e da formação de um fundo para os países emergentes do g20, a questão de fundo, a pressão contracionista exercida pelas políticas fiscais europeias, não foi tocada até agora. Exceto pelos isolados apelos de Francois Hollande, presidente da França, a cúpula do G20 tem se concentrado em manter o trabalho de salvamento dos bancos como foco da ação de sustentação da economia global. Pelo comportamento do mercado, essa pode ser uma solução de curto prazo para evitar o derretimento das expectativas.

Os dados econômicos que têm sido anunciados continuam a mostrar a deterioração da situação econômica global, contrariando, em grande medida, a estratégia adotada pelos líderes do G20. O salvamento do sistema bancário, vale alertar novamente, é uma condição necessária para a recuperação da economia global, mas não é a condição suficiente. Os países desenvolvidos vivem um problema de déficit de demanda, agravado pelo aperto fiscal e pelas condições dos mercados de trabalho. Ainda que os mercados se sustentem no curto prazo, motivados pelos possíveis pacotes de resgate financeiros, o peso da recessão poderá nos levar ao cenário mais radical até o fim do ano. Na Alemanha foi divulgada a pesquisa ZEW, que segundo a Bloomberg era esperado em 2,5, resultou em -16,9. Esse índice mede, junto aos empresários, o estado de confiança sobre o estado da economia e vem demonstrando uma deterioração razoável do ânimo empresarial da maior e, até agora, mais dinâmica economia da Zona do Euro. Nos EUA, foi divulgado um dado desanimador para o mercado imobiliário que é o número de início de construção de residências. O esperado pela pesquisa Bloomberg era algo como 720 mil residências  e o resultado veio em 708 mil, registrando queda de 4,8% em relação a abril. Abaixo o gráfico da Bloomberg do Housing Starts:




Esse dado não indica, necessariamente, um novo ciclo de queda do mercado imobiliário. Mas ele referenda a hipótese de que sua recuperação não está ocorrendo da maneira desejada, mesmo depois de um profundo ajuste nos balanços das famílias, que reduziram substancialmente seu endividamento. Ele mostra que esse ciclo de ajuste dos balanços familiares ainda tem um caminho a percorrer e impede uma recuperação mais sólida do ainda combalido mercado imobiliário.

As bolsas estão sustentando seus patamares enquanto o G20 não resolve que tipo de medidas vai anunciar. No ano, o comportamento dos mercados acionários até que é positivo, mostrando, à exceção da Espanha, calma em relação à perspectiva de recessão global. Abaixo o gráfico com os retornos anuais das principais bolsas:



Em nossa avaliação, os mercados ainda não precificaram um cenário mais grave de recessão global e estão evitando essa precificação por conta da crença dupla de que um plano de liquidez está para sair na Europa e, saindo, ele será suficiente para dar suporte à economia global.

Continuamos a acreditar, conforme Comentário Diário de sexta feira, que o anúncio de um pacote financeiro de grandes proporções pode impulsionar as bolsas no curto prazo.
 



Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br



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