Sem condições de gerenciar sozinha a crise de seu sistema bancário falido, a Espanha formalizou pedido de ajuda à Comissão Europeia no final de semana. Como resposta, o vice presidente da Comissão, Olli Rehn, afirmou que a ajuda está condicionada a um regime de supervisão intensa, equivalente a uma intervenção. A partir de agora todas as ações do Banco da Espanha e da Comissão Nacional de Valores Mobiliários estarão sujeitos à supervisão direta dos técnicos da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional). Para conseguir os 62 bilhões de euros estimados para evitar as falências do setor bancário, a Espanha terá que se submeter a um tratamento de choque muito mais intenso do que tem visto nos últimos anos. Ollin sugere que devem ser intensificados o ajuste fiscal e as reformas estruturais, que serão a garantia para o “crescimento sustentável e mais e melhores postos de trabalho”. A partir de agora, as instituições que necessitarem do aporte de capital, estarão sujeitas à liquidação, venda, absorção, fusão ou o que for decidido pela Comissão Europeia. O presidente Mariano Rajoy declarou que a nação deve se preparar para medidas difíceis.
Independentemente do conteúdo do discurso político feito pelos atores desse evento, ele expõe o ponto de implosão a que chegou a economia espanhola e a falta de comprometimento da Comissão Europeia em apresentar uma solução para a questão. Formular planos de austeridade, associados a “reformas estruturais”, pelo que mostram os exemplos históricos e os recentes, fará com que a crise se agrave, tornando a Espanha mais semelhante à Grécia do que à Alemanha. Esse plano, apesar de escorar temporariamente o sistema bancário espanhol, levará a economia a uma situação ainda mais depressiva do que a atual, que já conta com um desemprego superior a 25%. Para a Europa, esse é mais um evento na direção de tornar a crise do euro mais intensa e, talvez, mais irremediável. Do ponto de vista político, essa “ajuda” representará uma intervenção inédita na história da euroregião e tornará a Espanha refém da Comissão Européia. Historicamente ela se assemelha aos planos de intervenção do FMI, recorrentes até os anos 2000. Mas para os padrões europeus essa ação poderá ser muito mais danosa do que está sendo “precificado” pelo mercado. É pouco provável que os espanhóis aceitem abrir mão de sua própria democracia.
Como contrapartida à recessão que vai se disseminando no continente, os principais dirigentes da eurozona anunciaram um pacote de 130 bilhões de euros para incentivar a economia da região. Esse valor, equivalente a 1% do PIB, deverá ser utilizado para estimular investimentos e mercado de trabalho. Esse plano não animou os analistas, já que esse montante é pequeno e provavelmente não surtirá efeitos. Basta lembrar que as injeções de capital feitas pelos Tesouros nos bancos privados que enfrentaram dificuldades em 2008 chegaram a quase 1,5 trilhão. Essa proposta de gastos não deverá impedir a contínua desaceleração das economias da região.
De todas as inciativas que poderiam ser tomadas no calendário oferecido pelos euro dirigentes, não resta mais nenhuma no horizonte de curto prazo. Tudo indica que o que eles têm a nos oferecer é esse cardápio, um tanto amargo para quem espera uma solução efetiva para o quadro de ruptura que está formado.
Aqui no Brasil o BC divulgou o relatório Focus da semana e ele, é claro, continua mostrando queda para as expectativas de crescimento de 2012 e para a inflação. Em relação ao crescimento, o mercado espera uma taxa 2,18% para 2012, na mediana. Nossa expectativa permanece em 1,70%, como teto, com chance de vir muito mais próxima a 1,3%-1,5% já que o cenário para a economia mundial no segundo semestre vem se agravando. Abaixo o gráfico da evolução das expectativas de crescimento segundo os informantes do sistema de expectativas do Banco Central:
Tudo indica que essa semana será, uma vez mais, de deterioração das expectativas, já que os indicadores a serem divulgados deverão continuar mostrando as economias em desaceleração e os líderes globais esgotaram suas agendas sem que um plano efetivo fosse anunciado. Provavelmente teremos mais volatilidade e piora nas expectativas.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101 Email: pedrosilveira@tov.com.br
Disclaimer:
"Este informativo foi preparado pela TOV Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários e é distribuído gratuitamente, com a finalidade única de contribuir com uma ótica sobre o mercado em geral, sem possuir qualquer vínculo com pessoas ou empresas eventualmente citadas, nem delas recebendo qualquer tipo de remuneração. Mesmo nos atentando para trazer as informações com a maior precisão, elas não são por qualquer forma garantidas, isentando a TOV de qualquer responsabilidade. Os indicativos, as opiniões e as projeções que venha a ser expressas neste informativo estão sujeitos a mudanças a qualquer momento, sem necessidade de aviso ou comunicado prévio. Cabe ressaltar que de nenhuma maneira, este relatório possa ser interpretado como sugestão de compra ou de venda de quaisquer ativos e valores imobiliários. Este relatório não pode ser reproduzido, distribuído ou publicado por qualquer pessoa, para quaisquer fins."

Nenhum comentário:
Postar um comentário