A reunião da cúpula
europeia terminou com a aprovação de algumas decisões que jogam um banho de
água fria na crise, mas apontam para o agravamento dela em alguns meses. Ela
repete, de certa forma, a estratégia que vem sendo adotada desde o ano passado
e que consiste em injetar dinheiro nos sistemas bancários e no financiamento
das dívidas soberanas e aumentar o rigor na condução das políticas fiscais. Os
mercados reagiram com vigor ao pacote e estão em alta exuberante, tal como
fizeram nos anúncios do início desse ano. Mas o conjunto de medidas está longe
de ter sucesso e, na ausência de novas políticas, jogará a Europa em uma depressão
ainda mais grave do que seria de se esperar.
Voltando ao ponto de
partida de janeiro, o plano da Europa para evitar o colapso da Espanha e da Itália
tem o mesmo diagnóstico: a crise é financeira e dando aos bancos capital para
sua sustentação eles voltarão a financiar o crescimento de suas economias. O
mesmo vale para as dívidas soberanas, cujos custos explodiram nos últimos anos:
o BCE compra esses títulos e evita que os custos continuem subindo, permitindo
aos tesouros nacionais taxas de financiamento compatíveis com sua capacidade fiscal.
Insistimos que essa estratégia adia o problema e é incapaz de reverter a
tendência depressiva que empurra a região para trás. O BCE injetou 1,1 trilhão
de euros no sistema bancário em duas operações entre dezembro/2011 e janeiro
desse ano e, ainda assim, a região apresentou crescimento negativo no semestre
com aumento significativo do desemprego. A insistência nessa política pode
tranquilizar, em alguns pregões, os mercados. A bolsa espanhola está subindo
4%, a sua dívida se valorizou e o risco caiu de 550 para 480. Mas as condições
econômicas ainda estão sujeitas à piora contínua, já que essa nova injeção de
capital, de 500 bilhões, não deverá se transformar em gastos. Piorando mais a
situação, esse dinheiro só será liberado ao final do ano.
Como apoio às
economias, também foi aprovado um pacote de 130 bilhões de euros para
incentivar os investimentos na região. Mas esse valor é pequeno diante das
necessidades e as contrapartidas são, em grande medidas, um obstáculo para o
crescimento.
Ficou firmada,
também, a intenção de união bancária e fiscal da região, da formulação
coordenadas de reformas para o aumento da produtividade das economias locais e
o aumento do controle democrático às políticas adotas no âmbito da Comunidade e
na União Europeias. Essa era a proposta de Itália, França e Espanha, levadas à
reunião do início da semana com a Alemanha e que foi adotada com pouco
entusiasmo pela Chanceler Angela Merkel. Em outubro o Conselho da União
Europeia, a Comissão Europeia e o BCE devem apresenta rum plano concreto para implantação
dessas quatro propostas.
Apesar de ocorrer em
um clima de menor divisão, as decisões foram discutidas à exaustão, com a
Alemanha desempenhando o papel mais conservador e levando as decisões ao
critério de que cada ação deveria ter uma contrapartida, em geral de aperto
fiscal.
Assim os mercados
reagiram positivamente à reunião, valorizando o euro e sustentando fortes altas
de ações. Como a liquidez imediata do sistema não aumentará, tal como o
ocorrido com as operações LTRO do início do ano, esse movimento deve ser mais
moderado do que foi entre novembro e maio, com o índice EURO STOXX 50 subindo 28%. Esperamos mais
moderação nessa alta e um ciclo de otimismo mais curto, já que os indicadores
econômicos da região continuarão a denunciar a forte desaceleração da economia.
Nos EUA foram divulgados os dados de
consumo e renda pessoais de maio que, apesar de virem dentro das expectativas,
mostram a economia dos EUA em ritmo muito lento. A renda manteve eu ritmo de crescimento
de abril, mas o consumo caiu de 0,3% para 0%.
Ao terminar a semana com um pouco mais de
otimismo, os mercados interrompem um ciclo de sete pregões de queda que levaram
a uma perda de 7,5% no Ibovespa. Mesmo com a alta de hoje, o índice ainda se
encontra negativo no ano em quase 5%. Acompanhando as moedas globais, o real
está se apreciando em relação ao dólar em 2%. As commodities também estão num dia de euforia, após quedas vigorosas
e algumas, como o petróleo, sobem quase 5%.
É possível que tenhamos mais alguns
pregões de recuperação, mas esse ambiente só será consolidado se os riscos de
depressão na Europa forem afastados. A cúpula que se encerra hoje não avançou
nessa tarefa.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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