terça-feira, 19 de junho de 2012

A Espanha como bola da vez.




Ontem a dívida espanhola apresentou a sua maior desvalorização desde a sua adesão ao euro. O rendimento exigido pelos agentes ultrapassou os 7% e o prêmio sobre os bônus do tesouro alemão chegou a 590. A ausência de acordo para a forma do pacote de resgate do sistema bancário espanhol, por parte da Comissão Europeia, vai piorando gradativamente a percepção de risco em relação ao país, cujos indicadores econômicos se deterioram a cada mês. No G20 a expectativa é a de que a Europa resolva rápido o que fazer em relação a esse tema, mas os sinais emitidos pelos membros da troika e o governo Rajoy são conflitantes. Hoje os títulos mais curtos estavam em desvalorização, confirmando a tendência de deterioração do quadro espanhol.

As bolsas, desde sexta feira têm se mantido em valorização à espera de um anúncio de pacotes de resgate a partir da reunião do G20. Os sinais efetivos, no entanto, são de que os tais pacotes ainda não foram costurados com metade da reunião concluída. Apesar dos discursos otimistas de Obama e Merkel, no sentido de chamar a ação para o resgate do sistema bancário global e da formação de um fundo para os países emergentes do g20, a questão de fundo, a pressão contracionista exercida pelas políticas fiscais europeias, não foi tocada até agora. Exceto pelos isolados apelos de Francois Hollande, presidente da França, a cúpula do G20 tem se concentrado em manter o trabalho de salvamento dos bancos como foco da ação de sustentação da economia global. Pelo comportamento do mercado, essa pode ser uma solução de curto prazo para evitar o derretimento das expectativas.

Os dados econômicos que têm sido anunciados continuam a mostrar a deterioração da situação econômica global, contrariando, em grande medida, a estratégia adotada pelos líderes do G20. O salvamento do sistema bancário, vale alertar novamente, é uma condição necessária para a recuperação da economia global, mas não é a condição suficiente. Os países desenvolvidos vivem um problema de déficit de demanda, agravado pelo aperto fiscal e pelas condições dos mercados de trabalho. Ainda que os mercados se sustentem no curto prazo, motivados pelos possíveis pacotes de resgate financeiros, o peso da recessão poderá nos levar ao cenário mais radical até o fim do ano. Na Alemanha foi divulgada a pesquisa ZEW, que segundo a Bloomberg era esperado em 2,5, resultou em -16,9. Esse índice mede, junto aos empresários, o estado de confiança sobre o estado da economia e vem demonstrando uma deterioração razoável do ânimo empresarial da maior e, até agora, mais dinâmica economia da Zona do Euro. Nos EUA, foi divulgado um dado desanimador para o mercado imobiliário que é o número de início de construção de residências. O esperado pela pesquisa Bloomberg era algo como 720 mil residências  e o resultado veio em 708 mil, registrando queda de 4,8% em relação a abril. Abaixo o gráfico da Bloomberg do Housing Starts:




Esse dado não indica, necessariamente, um novo ciclo de queda do mercado imobiliário. Mas ele referenda a hipótese de que sua recuperação não está ocorrendo da maneira desejada, mesmo depois de um profundo ajuste nos balanços das famílias, que reduziram substancialmente seu endividamento. Ele mostra que esse ciclo de ajuste dos balanços familiares ainda tem um caminho a percorrer e impede uma recuperação mais sólida do ainda combalido mercado imobiliário.

As bolsas estão sustentando seus patamares enquanto o G20 não resolve que tipo de medidas vai anunciar. No ano, o comportamento dos mercados acionários até que é positivo, mostrando, à exceção da Espanha, calma em relação à perspectiva de recessão global. Abaixo o gráfico com os retornos anuais das principais bolsas:



Em nossa avaliação, os mercados ainda não precificaram um cenário mais grave de recessão global e estão evitando essa precificação por conta da crença dupla de que um plano de liquidez está para sair na Europa e, saindo, ele será suficiente para dar suporte à economia global.

Continuamos a acreditar, conforme Comentário Diário de sexta feira, que o anúncio de um pacote financeiro de grandes proporções pode impulsionar as bolsas no curto prazo.
 



Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br



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