O governo anunciou o pacote de medidas para estimular os investimentos e ele se resumiu a um aumento de compras de equipamentos à indústria nacional de R$ 6,61 bilhões. Acreditamos que essa medida é insuficiente para mudar o quadro geral de queda dos investimentos já que eles totalizam, segundo apuração do IBGE no sistema de contas trimestrais, cerca de R$ 200 bilhões de reais por trimestre ou R$ 800 bilhões por ano. Esse acréscimo do governo representa cerca de 1% do investimento total. Não haverá, portanto, mudança substancial da situação dos investimentos totais.
Seguindo na análise da crise europeia, procuraremos mostrar a importância do aspecto fiscal na deterioração do quadro econômico atual e de como as políticas adotadas até aqui mais agravaram do que evitaram a recessão que está sufocando o euro.
O quadro abaixo mostra os déficits públicos de cada país desde 2.002, medidos como percentagem do PIB a cada ano:
O ano de 2.008 está hachurado para identificar o ponto de inflexão da situação fiscal europeia e do mundo. Como pode ser notado, os déficits europeus estavam relativamente bem comportados até o ano de 2.008, com exceção da Grécia, quando passaram a “explodir”, atingindo patamares elevados. Essa alta do déficit ocorreu por conta da queda da arrecadação, do aumento dos gastos com os pacotes de socorro aos sistemas bancários e com os pacotes de estímulos à demanda. É possível observar que a situação fiscal dos EUA piorou significativamente e se manteve em patamar elevado, ao redor dos 8%. Já o Brasil, que vinha com déficits moderados, teve uma leve piora e depois voltou ao seu patamar normal.
A piora do déficit está associada, em todos os países, prioritariamente, à queda do nível de atividade e à decorrente queda de arreação de tributos. Também concorreu, para os países que estão na mira dos mercados, como Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda, a explosão dos custos de financiamento de suas dívidas em decorrência da piora da percepção dos riscos por parte dos mercados. À medida que as economias se desaceleram, a arrecadação cai, aumentam os custos de financiamento e suas dívidas aumentam, em um círculo vicioso que vem sendo alimentado, em grande medida, pela insistência nas políticas depressivas impostas pela troika. O único caminho atacado pelos atuais planos foi o de tentar reduzir os custos de financiamento para tornar o déficit controlável. Mas, até aqui, essa política fracassou, já que tanto os custos como as dívidas subiram de maneira acentuada. A causa central é a queda do nível de atividade. Abaixo mostramos o tamanho das dívidas de cada país como percentual do PIB:
Olhar apenas o tamanho não nos dá a exata dimensão do problema. É necessário ver o custo de financiamento dessa dívida. O Japão, com uma dívida de 127% de seu produto anual, o PIB, tem um custo muito menor, em termos absolutos, do que vem tendo a Espanha, cuja taxa de juro está em níveis recordes. Brasil e Coreia têm dívidas bem baixas e tem conseguido sucesso desde o início da crise em mantê-las sob controle. A “mágica” dessa administração está nas taxas de crescimento de ambos que, apesar de terem se desacelerado em relação às taxas pré crise, ainda se mantém elevadas para financiar suas dívidas, de sorte a mantê-las em patamares civilizados.
Estamos, portanto, diante de um quadro que requer a interrupção desse círculo vicioso, no qual a troika asfixia as economias com restrição de gastos e os mercados aumentam os gastos via aumento dos prêmios de riscos sobre as dívidas soberanas. Não estamos diante de um problema localizado nas dívidas soberanas; ele é um problema fiscal associado a uma profunda recessão. A saída só poderia ocorrer mediante um novo pacote de estímulos das economias do euro. As soluções que o Brasil vem adotando até aqui seriam aplicáveis perfeitamente na Europa, onde os gastos públicos e privados estão despencando. Já no Brasil, as medidas não atingirão seus objetivos, já que estamos sofrendo por conta da crise global, sobre a qual não temos nenhum poder de gerenciamento.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
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