Dentro de um cenário
absolutamente previsível, a Espanha mostra alto grau de deterioração das
condições financeiras do sistema bancário e, com isso, piora a percepção em
relação ao risco do tesouro do país para o resto do mundo. A diferença entre a
remuneração dos títulos do tesouro espanhol e a do alemão chegou ao recorde de
540 pontos, ou 5,4% a.a para os bônus de dez anos. O IBEX, índice da bolsa de
Madrid, cravou 30% de queda no ano e 42% em doze meses. A situação tende a se
agravar já que o Banco Central europeu não sinalizou positivamente para um
pacote de ajuda à Espanha, que precisa urgentemente resgatar seu sistema
bancário. Nos os dados econômicos decepcionaram, mostrando uma economia muito
mais fraca do que as expectativas do mercado. No Brasil, após a decisão do
Copom de reduzir em 0,5% a taxa básica, tivemos
divulgação da produção industrial de abril que mostrou a indústria em
queda pelo segundo mês consecutivo.
A Espanha caminha
rapidamente para uma situação semelhante à da Grécia. A falência do Bankia
exige que o governo faça um aporte de 19 bilhões de euros para o que o sistema
bancário fique de pé. No entanto, o governo não tem dinheiro para isso, ao
menos se levarmos em conta os compromissos assumidos com a União Europeia. Para
piorar as coisas, o Banco da Espanha anunciou que a saída líquida de capitais do
país foi de 66 bilhões de euros em março,
acumulando 99 bilhões no ano. Essa enorme saída de capitais nos dá uma medida
da pressão que o banco central vem sofrendo para manter a economia funcionando.
Os bancos privados espanhóis sofreram um saque de depósitos em abril de 31
bilhões de euros. É pouco provável que o país tenha assistido uma diminuição
dessa saída em abril e maio e, portanto, é difícil imaginar uma saída para o
país sem que a União Europeia faça, de forma urgente, um pacote de socorro ao
país. Hoje a agência de risco Fitch rebaixou os ratings das províncias de Andaluzia,
Astúrias, Canárias, Cantábria, Catalunha, Murcia, Madrid e do País Basco. A evolução
da crise espanhola tem tudo para assumir proporções muito graves, já que a
capacidade de gerenciamento dos líderes europeus, mostrada com a Grécia, é
muito pequena.
Soma-se ao cenário
europeu a divulgação de dados econômicos que mostram que a economia dos EUA vem
perdendo, de forma consistente, o dinamismo mostrado nos últimos meses do ano
passado. Acabou definitivamente o impulso dado pelos programas de estímulos
levados a cabo pelo governo Obama e pelo Federal
Reserve. Daqui para frente a economia dos EUA precisaria de novos pacotes,
ou de um impulso externo, para que o mercado de trabalho e a atividade
econômica em geral, voltassem a mostrar recuperação. Mas a corrida eleitoral
entre Obama e Mitt Romney dificulta qualquer ação que precisa envolver o
Congresso dos EUA. O impulso externo que a economia americana pode assistir daqui
para a frente é negativo, já que estamos vendo confirmado um cenário de
desaceleração global. Com isso os mercados de ações devem cair mais, levando,
por sua vez, a uma piora das expectativas empresariais. Mesmo com juros em
níveis historicamente mínimos, é difícil imaginar uma recuperação econômica
global. Dentro desse cenário é fácil explicar porque os índices divulgados hoje
vieram tão fracos. As contratações do mercado de trabalho, medidas pela empresa
ADP foram inferiores às esperadas pelo mercado. Eram esperadas 133 mil vagas e
ocorreram 113 mil. Esse indicador é importante para antecipar o número oficial
de vagas criadas e calculadas pelo Departamento do Trabalho que devem ser
divulgadas amanhã. Também foi divulgado índice PMI de Chicago, que mede a
atividade da região. Veio em 52,7 ante o esperado 56,1, indicando a terceira
queda consecutiva. Para jogar mais água fria ainda, o Departamento do Comércio
revisou para baixo a sua estimativa de crescimento do PIB do primeiro
trimestre, de 2,2% para 1,9%.
Aqui no Brasil o
Copom reduziu os juros em 0,5%, dentro das expectativas dos agentes. Para
confirmar o quadro não animador, o IBGE divulgou a produção industrial de
abril. Ela caiu 0,2% no mês, 2,9% em doze meses e 2,8%. Reafirmamos nossa
expectativa em relação à perspectiva da economia brasileira: mesmo com a
redução dos juros, estamos a caminho de um crescimento bem modesto, por conta da
desaceleração global. A piora das condições gerais da economia tem levado à
queda sistemática dos investimentos. Mesmo com as contínuas ações do governo
para mitigar os riscos da desaceleração, é pouco provável que uma ação local
consiga superar os efeitos negativos da crise global. Amanhã será divulgado o
PIB do primeiro trimestre e ele será crucial para confirmarmos essa hipótese.
O mundo continua sem
sinais do lado político que nos permitam melhorar o cenário para os próximos
meses.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
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