sexta-feira, 18 de maio de 2012

Grécia, o Lehman Brothers da Europa.


Após toda a turbulência dos mercados nessa semana, os discursos em relação à permanência da Grécia na moeda europeia estão começando a mudar, tornando-se mais amigáveis. De fato, houve um risco enorme de ‘expulsão’ do país, o que o levaria à moratória de suas dívidas e ao colapso de sua frágil economia, podendo repetir o caso do banco de investimentos Lehman Brothers em 2008. No Brasil, a percepção de contágio da crise aumenta com a divulgação do Índice de  Atividades do Banco Central, que mostrou contração em março. Com o calendário sem nenhum dado a ser divulgado nos EUA, devemos assistir a um pregão mais morno após a queda de ontem, que levou o Ibovespa a cair 3,3%; no ano, o índice cravou queda de 4,7%.


Os dirigentes europeus estão recuando de suas posições iniciais de intolerância e passaram a adotar um tom mais conciliador, ao menos em seus discursos. Se levarmos em conta o que vinham dizendo até a semana passada, a postura majoritária da Comissão Europeia levava a uma saída da Grécia da moeda em pouco tempo. Alguns pregões e muita confusão depois, a impressão que fica é que a maioria se convenceu que esse país não é tão descartável assim. O comportamento das dívidas soberanas na semana indicou que o contágio é provável e extremamente perigoso, não apenas para a Europa, mas para toda a economia global. Merkel, vinha adotando uma postura muito parecida com a de Henry Paulson em 2.008. Vale lembrar que a posição europeia majoritária tratava o equacionamento das dívidas soberanas a partir do resgate do sistema bancário, que estava fortemente posicionado nesses títulos, e no pesado aperto fiscal dos países devedores. O abalado sistema bancário europeu, que foi ao colapso na crise de 2008, precisou ser novamente resgatado e, depois disso, jogou-se o peso do ajuste nos programas recessivos dos tesouros europeus. O resultado, mais que previsível, foi o agravamento da crise, já que a situação fiscal da Europa só piora com o aprofundamento da recessão. Tal como a estratégia Paulson, a estratégia Merkel  resgatava o sistema bancário e ignorava os riscos sobre a economia real. Quando Paulson jogou o Lehamn Brothers ao mar, com a desculpa de que salvá-lo iria incentivar os as práticas ruins do mercado bancário, ele ateou fogo no palheiro, e os bilhões que ele pretendia economizar custaram alguns trilhões à economia global. O mesmo tipo de conduta vinha sendo adotado pela Europa em relação à Grécia e essa política conta com muita simpatia dos mercados financeiros. Mas os resultados práticos foram desastrosos e tendem a agravar o estado frágil da economia global. É tentador comparar a estratégia Merkel à estratégia de Henry Paulson e a saída da Grécia da moeda europeia à falência do Lehman Brothers. Em reunião realizada ontem, contando com a presença de dos principais dirigentes, a cúpula europeia mudou o tom de desprezo em relação ao drama grego e se declarou defensora irredutível da permanência do país no bloco monetário. Nesse final de semana haverá, nos EUA, uma reunião do G8 e é possível que Obama ajude a enterrar, de vez, a maluca estratégia de Merkel de apagar incêndios com gasolina.


No Brasil, a divulgação do Índice de Atividade Econômica do Banco Central , mostrou contração de 0,35% na economia em março na comparação com fevereiro. Esse indicador é muito eficiente em antecipar a atividade medida pelo PIB do IBGE e podemos considerar, portanto, que a crise global já estava afetando a economia brasileira no final do primeiro trimestre desse ano. Manteremos nossa projeção de crescimento em 2,8%  para 2012, mas esse número poderá ser revisado para baixo se o PIB do primeiro trimestre confirmar uma desaceleração mais forte. Poderemos, daqui para frente, descartar a idéia de que a crise europeia tem impacto limitado em nosso país. A Europa, como bem saliente Martin Wolf no Valor Econômico de hoje, é a segunda maior economia do planeta e todos os eventos importantes daquela região acabam tendo reflexos por aqui. Por mais que o governo  tente evitar um contágio de grandes proporções, o máximo que ele pode fazer é atenua-lo e com custos embutidos.  Do ponto de vista prático a desaceleração econômica do Brasil é inevitável e já está ocorrendo. O movimento de alta dos preços dos ativos no início do ano, baseados no aumento da liquidez global proporcionada pelos bancos centrais já sofreu forte correção; a Bovespa já acumula queda de quase 5% e o dólar subiu em relação ao real. Se o quadro continuar a se agravar, como é de se esperar, devemos assistir a mais uma correção de preços ao longo das próximas semanas. O otimismo do início do ano, de fato, era exagerado.




Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br

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