quinta-feira, 3 de maio de 2012

Os mercados tentam se segurar


Enquanto o mercado brasileiro discute a redução dos juros das aplicações financeiras por conta das mudanças na poupança, o mercado dos EUA assimila as notícias ruins acerca da atividade e, na Europa, os mercados vibram, levemente, por conta de um discurso encorajador do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi. O lado real da economia continua mostrando um mundo em desaceleração e se o desemprego a ser anunciado amanhã nos EUA mostrar algo de ruim, o mercado pode ficar mais pessimista ainda.

Aqui tivemos o anúncio de dois indicadores de inflação para abril: o IPC Fipe, que veio em 0,47% e o IPC-S da FGV  em 0,52%. Ambos em patamar ainda elevado, mas incapazes de influenciar os juros, que estão presos às expectativas em torno da poupança. Importante foi a produção industrial de março que veio com uma queda de 0,5% em relação ao mês anterior e com 3% no primeiro trimestre em relação ao primeiro trimestre de 2011. A indústria apresentou forte contração nos setores de bens de capital (-5,7%) e bens duráveis (-4,7%). Haverá muita gente para justificar a queda como resultado da taxa de câmbio apreciada (o câmbio é o culpado de sempre), mas entendemos isso como reflexo da contração global, coisa muito mais séria, já que independe de qualquer medida que o BC ou o governo brasileiro possam tomar. Esse número indica que teremos um primeiro trimestre pífio para o crescimento de nossa economia e essa constatação deve levar os nossos formuladores de política a um estado  de ansiedade ainda maior do que estavam na semanas anteriores. Essa produção industrial explica, ainda que não justifique,  as pressões sobre os juros e o câmbio, lideradas pela presidente Dilma. Não é improvável que nossa expectativa de crescimento para 2.012 (2,8%) esteja mais próxima.  Ainda que o governo reduza os juros, desvalorize a taxa de câmbio e adote outras medidas de bondade fiscal (isenções e subsídios) é pouco provável que a economia brasileira escape dos efeitos da recessão europeia e do esgotamento dos impulsos internos efetuados entre 2.009/2.011 (crédito, sobretudo).


Na Europa, foi anunciada a variação das encomendas à indústria alemã e ela veio, novamente, em queda acentuada: 4% em termos reais em doze meses e 9% no primeiro trimestre contra o mesmo trimestre de 2011. No Reino Unido, o índice PMI caiu de 55,3 em março para 53,3 em abril, mostrando uma piora acentuada da indústria britânica. Lá os mercados preferiram ignorar esses dados e se encorajaram com o discurso feito pelo presidente do BCE, Mario Draghi, que continua insistindo na tese segundo a qual a combinação de fortes ajustes fiscais com forte expansão monetária é o caminho para a combalida economia europeia sair da crise. Em resumo, ele insiste na ideia de que comprar a confiança dos mercados (pela austeridade fiscal) é mais importante do que qualquer outra medida de contenção da queda da renda europeia. Os mercados gostaram e mantiveram relativo otimismo, mantendo os índices de bolsa em moderada alta. Mas vale lembrar que a política, junto com a economia, pode piorar novamente o cenário europeu. No debate de ontem Sarkozy mostrou que as chances de derrota para Hollande são enormes e isso pesará sobre a cabeça do mercado na semana que vem. Hollande não é um “comprador da simpatia dos mercados” e promete elevar a temperatura das discussões de política econômica caso vença. Ele é um ferrenho defensor do fim da política de austeridade e vai colocar em risco a estabilidade emocional dos principais gestores globais.


Nos EUA o mercado se animou com o anúncio de que os pedidos de seguro desemprego caíram em relação aos anteriores, de 388 mil para 365 mil. Mas logo depois veio o anúncio do índice de atividade não industrial (ISM non manufactoring) e os mercados viraram, para leve queda. Amanhã será anunciado a criação de vagas de abril e o número esperado é de 165 m il empregos criados em abril contra 120 mil em março. Caso esse número venha abaixo, conforme indicou o número divulgado pela ADP, ontem, o grau de decepção dos mercados será elevado, aumentando as chances de novas quedas nas bolsas. Se confirmado, o dado servirá para dar um suporte no último pregão de uma semana bem complicada.




Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br



 
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