Os mercados europeus estão
assistindo a uma forte queda antes da reunião informal dos líderes da União
Europeia. Essa reunião foi vista como uma possível esperança de solução da
crise, no final de semana, mas sua proximidade disseminou o sentimento de que nada
de novo pode ser esperado. A Agência Estado entrevistou o economista James
Galbraith, da Universidade de Austin, e ele resume o que pode ser o sentimento
do mercado:
NOVA YOR
- O risco de o mundo mergulhar numa recessão está de volta. O alerta é do economista
James K. Galbraith, professor de Economia na Universidade de Austin, no Texas.
"O risco é o mesmo de 2008, de que haja corrida, de que haja pânico",
disse ele, em entrevista, por telefone, à Agência Estado. Aliás, diz ele, nem
chegamos a sair da crise anterior. "Ainda estamos nela."
Nesse
contexto tão incerto cabe à Alemanha e ao Banco Central Europeu agirem para
evitar que a zona do euro desmorone. "É preciso que a Alemanha escolha se
adotará políticas diferentes para salvar o euro ou se segue no caminho atual e
quebra todo o sistema."
Difícil discordar do economista quando
ele diz que não saímos ainda da crise de 2.008, já que o grande problema fiscal
europeu é consequência dos programas de resgate ao sistema financeiro e da
forte recessão que colapsou as receitas
dos estados. Ainda estamos submersos nos problemas causados pela crise
financeira de 2.008 e o abandono das políticas de estímulo, realizadas a partir
de 2.009, empurrou a Europa para o buraco em que está. Além disso, não haverá
saída enquanto as políticas de austeridade não forem abandonadas. A reação dos
mercados hoje, com quedas de 1,5% a 2,0% e com o derretimento do euro frente ao
dólar, apenas mostra que é quase certo que os líderes europeus não conseguirão
abandonar suas políticas nessa reunião. A parte importante da solução do
problema, que é a mudança de políticas por parte da Alemanha, parece difícil de
ocorrer hoje. Se verdade, a quebra do sistema, como alerta Galbraith, pode
estar mais perto.
A exposição dos bancos europeus ao evento
“saída da Grécia do euro” é suficientemente grande para que a sua ocorrência
confirme a nossa tese de que a Grécia é o Lehman do momento. As dívidas
soberanas das outras economias mais frágeis, como Espanha, Portugal e Irlanda
poderão assistir um derretimento muito forte, exigindo novos programas de
resgate, que superariam em larga escala os programas feitos para a Grécia e que
são objeto de forte rejeição por parte dos atuais líderes da EU. Esse
comportamento, de queda da confiança dos mercados em relação aos ativos
europeus, pode empurrar os políticos a um pronunciamento mais amigável a uma
mudança de política, nos moldes do que ocorreu na semana passada na relação
entre Merkel e Hollande. Após um período de fortes críticas ao socialista, Merkel acabou sendo obrigada
pelos mercados a sinalizar com uma postura mais solidária. Talvez isso se
repita hoje, mas o mercado passa a depender do tempo e discursos podem não
fazer mais efeito. Caso a União Europeia não mostre iniciativas muito concretas
no caminho de implantar políticas de estímulo à economia e mudança de abordagem
em relação à Grécia, o cenário de Galbraith deve ocorrer.
Nos EUA os desdobramentos da queda de
preços do Facebook têm colocado desconforto até para as autoridades que começam
a se mexer parta investigar o que houve. O resultado ruim da Dell e a
perspectiva de contração econômica em 2013, sinalizada pelo Congressional Budget Office, aumentou
ainda mais o clima de ceticismo dos
mercados em relação às perspectivas econômicas.
Hoje foram divulgadas as últimas
expectativas em relação à reunião do COPOM na semana que vem. A maioria dos
analistas está esperando uma queda 0,5% nessa reunião e 8% de taxa no final do
ano, implicando em mais 0,5%. Há gente esperando uma Selic um pouco mais baixa,
em torno de 7,50%. Mas é importante salientar que há uma diferença fundamental
entre o que podemos esperar da taxa Selic na semana que vem e a do fim do ano,
por mais que isso pareça trivial. A taxa da semana que vem está nas mãos do
Banco Central e ele tem total liberdade para decidir se a taxa cai 0,5% ou
0,75%, sem que isso promova uma enorme confusão nos mercados, ao menos uma que
possa afetar a economia. Já a taxa Selic para o fim do ano não depende das
decisões tomadas em Brasília; ela decorre, hoje, do que vai acontecer na
economia global e isso está, ainda, totalmente indefinido. Ou a economia
mergulha em uma enorme recessão, como dissemos no início do relatório, ou a
mudança de política, por parte da Europa, reverte as expectativas e é capaz de
atenuar os efeitos da crise na nossa economia. O primeiro cenário nos leva a
uma taxa Selic muito inferior aos 8%, já que a desaceleração da economia seria
forte. Na verdade, estaríamos vivendo um cenário inédito na economia global,
com uma crise talvez pior do que a vivida em 2.008. Mas seria um ambiente
deflacionário, exigindo uma queda também inédita dos juros. O segundo cenário já
seria mais benéfico à economia brasileira, pois implicaria em uma expectativa
de recuperação global, com efeitos significativos sobre os preços de commodities e os preços de ativos reais dos
países emergentes. Nesse cenário, o ambiente seria mais inflacionário e deteria
a queda dos juros a um nível próximo do que estamos. De qualquer maneira, o
fundamental é que a decisão sobre os juros básicos no fim de 2.008 é fortemente
dependente de uma variável que está indefinida. Em função do exposto, mantemos
nossa expectativa de queda de 0,5% para a próxima reunião e 8,25% para o fim do
ano. Mas essa estimativa para dezembro está dependendo muito mais do que
fizerem os dirigentes europeus do que o cenário indicado por qualquer modelo de
estimação.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
3027-3101 Email: pedrosilveira@tov.com.br
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"Este
informativo foi preparado pela TOV Corretora de Câmbio, Títulos e Valores
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