quarta-feira, 23 de maio de 2012

À espera de um milagre?



Os mercados europeus estão assistindo a uma forte queda antes da reunião informal dos líderes da União Europeia. Essa reunião foi vista como uma possível esperança de solução da crise, no final de semana, mas sua proximidade disseminou o sentimento de que nada de novo pode ser esperado. A Agência Estado entrevistou o economista James Galbraith, da Universidade de Austin, e ele resume o que pode ser o sentimento do mercado:



NOVA YOR - O risco de o mundo mergulhar numa recessão está de volta. O alerta é do economista James K. Galbraith, professor de Economia na Universidade de Austin, no Texas. "O risco é o mesmo de 2008, de que haja corrida, de que haja pânico", disse ele, em entrevista, por telefone, à Agência Estado. Aliás, diz ele, nem chegamos a sair da crise anterior. "Ainda estamos nela."
Nesse contexto tão incerto cabe à Alemanha e ao Banco Central Europeu agirem para evitar que a zona do euro desmorone. "É preciso que a Alemanha escolha se adotará políticas diferentes para salvar o euro ou se segue no caminho atual e quebra todo o sistema."


Difícil discordar do economista quando ele diz que não saímos ainda da crise de 2.008, já que o grande problema fiscal europeu é consequência dos programas de resgate ao sistema financeiro e da forte recessão que colapsou  as receitas dos estados. Ainda estamos submersos nos problemas causados pela crise financeira de 2.008 e o abandono das políticas de estímulo, realizadas a partir de 2.009, empurrou a Europa para o buraco em que está. Além disso, não haverá saída enquanto as políticas de austeridade não forem abandonadas. A reação dos mercados hoje, com quedas de 1,5% a 2,0% e com o derretimento do euro frente ao dólar, apenas mostra que é quase certo que os líderes europeus não conseguirão abandonar suas políticas nessa reunião. A parte importante da solução do problema, que é a mudança de políticas por parte da Alemanha, parece difícil de ocorrer hoje. Se verdade, a quebra do sistema, como alerta Galbraith, pode estar mais perto.

A exposição dos bancos europeus ao evento “saída da Grécia do euro” é suficientemente grande para que a sua ocorrência confirme a nossa tese de que a Grécia é o Lehman do momento. As dívidas soberanas das outras economias mais frágeis, como Espanha, Portugal e Irlanda poderão assistir um derretimento muito forte, exigindo novos programas de resgate, que superariam em larga escala os programas feitos para a Grécia e que são objeto de forte rejeição por parte dos atuais líderes da EU. Esse comportamento, de queda da confiança dos mercados em relação aos ativos europeus, pode empurrar os políticos a um pronunciamento mais amigável a uma mudança de política, nos moldes do que ocorreu na semana passada na relação entre Merkel e Hollande. Após um período de fortes críticas  ao socialista, Merkel acabou sendo obrigada pelos mercados a sinalizar com uma postura mais solidária. Talvez isso se repita hoje, mas o mercado passa a depender do tempo e discursos podem não fazer mais efeito. Caso a União Europeia não mostre iniciativas muito concretas no caminho de implantar políticas de estímulo à economia e mudança de abordagem em relação à Grécia, o cenário de Galbraith deve ocorrer.

Nos EUA os desdobramentos da queda de preços do Facebook têm colocado desconforto até para as autoridades que começam a se mexer parta investigar o que houve. O resultado ruim da Dell e a perspectiva de contração econômica em 2013, sinalizada pelo Congressional Budget Office, aumentou ainda mais o clima  de ceticismo dos mercados em relação às perspectivas econômicas.

Hoje foram divulgadas as últimas expectativas em relação à reunião do COPOM na semana que vem. A maioria dos analistas está esperando uma queda 0,5% nessa reunião e 8% de taxa no final do ano, implicando em mais 0,5%. Há gente esperando uma Selic um pouco mais baixa, em torno de 7,50%. Mas é importante salientar que há uma diferença fundamental entre o que podemos esperar da taxa Selic na semana que vem e a do fim do ano, por mais que isso pareça trivial. A taxa da semana que vem está nas mãos do Banco Central e ele tem total liberdade para decidir se a taxa cai 0,5% ou 0,75%, sem que isso promova uma enorme confusão nos mercados, ao menos uma que possa afetar a economia. Já a taxa Selic para o fim do ano não depende das decisões tomadas em Brasília; ela decorre, hoje, do que vai acontecer na economia global e isso está, ainda, totalmente indefinido. Ou a economia mergulha em uma enorme recessão, como dissemos no início do relatório, ou a mudança de política, por parte da Europa, reverte as expectativas e é capaz de atenuar os efeitos da crise na nossa economia. O primeiro cenário nos leva a uma taxa Selic muito inferior aos 8%, já que a desaceleração da economia seria forte. Na verdade, estaríamos vivendo um cenário inédito na economia global, com uma crise talvez pior do que a vivida em 2.008. Mas seria um ambiente deflacionário, exigindo uma queda também inédita dos juros. O segundo cenário já seria mais benéfico à economia brasileira, pois implicaria em uma expectativa de recuperação global, com efeitos significativos sobre os preços de commodities e os preços de ativos reais dos países emergentes. Nesse cenário, o ambiente seria mais inflacionário e deteria a queda dos juros a um nível próximo do que estamos. De qualquer maneira, o fundamental é que a decisão sobre os juros básicos no fim de 2.008 é fortemente dependente de uma variável que está indefinida. Em função do exposto, mantemos nossa expectativa de queda de 0,5% para a próxima reunião e 8,25% para o fim do ano. Mas essa estimativa para dezembro está dependendo muito mais do que fizerem os dirigentes europeus do que o cenário indicado por qualquer modelo de estimação.




Pedro Paulo Silveira (Economista)
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