segunda-feira, 14 de maio de 2012

A crise europeia se agrava


As bolsas da Europa estão caindo cerca de 2%, já que os agentes não digeriram muito bem a falta de acordo para composição do governo grego. Além disso, a divulgação da produção industrial de março trouxe dados piores que o esperado; a produção de março na Zona do Euro caiu 0,3 no mês de março e 2,2% nos doze meses de março de 2011 a março de 2012. Adicionalmente, a situação política da primeira ministra Angela Merkel ficou mais frágil  com a derrota de partido na eleição eleitoral da Renania (estado mais populoso do país) para a aliança do SPD (social democrata) com o PV. No Brasil a bolsa abriu em queda, o dólar está com alta e os juros caíram novamente. Os mercados estão colocando nos preços os possíveis impactos da recessão na Europa, que implicam em redução na atividade da economia brasileira e no aumento da aversão aos riscos. A bolsa dos EUA sinaliza queda em seus futuros.

Na semana passada alguns funcionário graduados dos organismos europeus, particularmente da Comissão Europeia, avisavam que a possível saída da Grécia da Zona do Euro seria bem suportada e não ameaçaria a continuidade da moeda. É quase certo que eles estejam com toda razão, mas isso jamais implicaria que a saída do país seria livre de custos para a região. A Grécia abandonar o euro implicaria em calote na sua dívida externa e isso teria implicações pouco transparentes para o sistema bancário. Ademais, essa saída poderia sinalizar o caminho para outros países que estão sob forte pressão, com Portugal, Espanha e Irlanda. Mas não é só o temor a respeito da Grécia que levou o mercado ao derretimento hoje; a divulgação da produção industrial de março mostrou queda de 0,3% contra a expectativa de alta de 0,4%. No acumulado de doze meses, a queda foi de 2,2%, contra expectativa de -1,4%.  Os agentes começam a ver a recessão europeia como uma realidade bastante palpável e isso contraria as expectativas geradas em torno da estratégia atual do BCE e da Comissão Europeia de austeridade fiscal associada à expansão monetária. Se os países não crescem, a arrecadação d e impostos tende a cair, piorando o já debilitado quadro fiscal, aumentando as dúvidas em relação à sustentabilidade das dívidas soberanas. Esse cenário sombrio, de pioria exponencial das condições de crescimento e, portanto, fiscais dos países da Europa, vai se fortalecendo como mais provável e vai aumentado as dúvidas em relação à capacidade que os líderes majoritário do bloco têm de gerenciar essa super crise. A recente derrota de Sarkozy na França sinaliza o que pode, potencialmente, acontecer aos políticos europeus que não encontram respostas para o crescente descontentamento popular. Angela Merkel e seu partido sofreram uma derrota importante nas eleições realizadas nesse final de semana no maior estado alemão, a Renania. A aliança entre os social democratas do SPD com os verdes do PV ganhou as eleições com 51% dos votos. Essa derrota enfraqueceu Merkel e colocou em questão se os atuais políticos que lideram o bloco continuarão no poder por muito tempo. Um mercado que já não sabe ao certo se todos os atuais membros do bloco continuarão a ser membros nos próximos anos, passa a ter dúvidas muito profundas em relação a quem comandará a crise nos próximos meses. A Europa vive um processo no qual o econômico contamina o político que volta a contaminar o econômico. Esse círculo vicioso, cuja ruptura que depende de um grau de coordenação política muito grande, parece estar longe de ser dominado. Hoje haverá uma reunião entre o presidente do BCE, Mario Draghi, o presidente da Comunidade Europeia,   João Manuel Barroso e o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Junker. Eles discutirão a situação na
Grécia e na Espanha. Mas não devemos esperar alguma coisa de produtivo dessa reunião, afinal as propostas de solução geralmente apresentadas por Draghi mais agravam do que remediam as explosivas crises desses dois países.

No Brasil, como resultado da enorme confusão global , a bolsa está em queda forte e  o dólar está firme rumo aos R$ 2,00, podendo chegar a essa cotação ainda hoje. Esse quadro, de agravamento da recessão europeia com reflexos em toda a economia global, deixa em segundo plano os riscos inflacionários decorrentes da política econômica atual, baseada nas contínua expansão dos gastos, afrouxamento monetário e desemprego baixo. A diminuição da demanda global continuará a impactar a economia brasileira, reduzindo a demanda total por manufaturados e pressionando o desemprego para cima, o que compensa em parte as pressões decorrentes da política expansionista. Mas o que permanece nesse cenário, é o aumento das incertezas em relação às perspectivas da economia brasileira. O menor crescimento em 2012, poderá piorar as condições econômicas que sustentam os ativos bancários no Brasil. Com o forte aumento dos ativos de crédito, decorrente dos anos de crescimento elevado e redução dos juros,  os impactos da desaceleração econômica ficam cada vez mais elevados. É possível que a redução dos juros, associada à atividade agressiva dos bancos oficiais na aquisição desses ativos (que tendem a ficar piores à medida que a crise se aprofunda) atue como uma ação defensiva em relação à uma crise sistêmica no sistema bancário nacional. Mas se a economia se desacelerar de maneira agressiva no Brasil, com significativo aumento do desemprego, a qualidade dos ativos de crédito pode piorar, nos fazendo relembrar os piores momentos da crise de 2008/2009. Como já coloquei várias vezes, o cobertor é curto, também para o governo brasileiro.


Com a falta de dados nos EUA, os mercados devem ficar digerindo a crise europeia  que tem amanhã um capítulo importante com a divulgação do PIB do primeiro trimestre do ano. O mercado espera uma retração de 0,2% para a Zona como um todo e crescimento de 0,1% na Alemanha. A confusão deve continuar.
















Pedro Paulo Silveira (Economista)
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