Ontem os mercados globais reagiram
à vitória de François Hollande nas eleições francesas de maneira inesperada.
Mantiveram-se calmos apenas com a sinalização de Ângela Merkel de que a Europa continuará a trilhar os
caminhos de comprar a confiança dos mercados. Hoje, reagiram de modo adverso, depois
de constatar que na Grécia a composição política do novo governo está obstruída
por uma enorme rejeição da população a qualquer alternativa oferecida pelos
partidos políticos. Já o presidente da União Europeia convocou uma reunião dos
vinte e sete países membros para o dia 23 para tentar garantir o compromisso de
todos para o esforço europeu em torno da “austeridade fiscal”. A política
europeia tem se concentrado em comprar a confiança dos mercados através dos
cortes orçamentários. A lógica dessa política é a de que os cortes aumentam a credibilidade
das finanças nacionais, reduzindo os juros de financiamento das dívidas
soberanas, e permite a redução dos custos europeus de produção, tornando o
continente mais apto a concorrer nos mercados globais. Tomam como exemplo a Alemanha
e apostam que os custos de curto prazo serão repostos no futuro, a partir de
uma Europa mais sustentável. Essa é a proposta dos republicanos, nos EUA, e
sempre foi a proposta da imensa agora dos economistas para as crises
enfrentadas pelos emergentes nas décadas de 1980 a 2000. Austeridade e recessão
agora resultando em crescimento no futuro. Independentemente das opiniões que
se possa ter a respeito dessa estratégia, ela hoje é a condição imposta pelos
mercados e pela maioria dos países europeus a qualquer política que se realize
nacionalmente. Fugir dela tem seus custos,
que podem ser medidos pelas reações dos mercados a qualquer política nacional
adotada (as crises das dívidas europeias foram exatamente isso). Mas essa avenida
tem duas mãos: o custo de curto prazo dessas políticas é medido pelo enorme
sacrifício em termos de crescimento e desemprego, fazendo dos governos presas
frágeis da ira popular. As derrotas políticas dos governos mostram que há uma
rota de colisão entre os processos democráticos nacionais e a agenda desejada
pelos mercados. A temperatura política da Europa tende a subir enquanto o desemprego
for elevado e o ajuste fiscal não terminar. As quedas que assistimos hoje
tendem a se repetir na Europa e nos EUA, afinal a tendência, em termos de
atividade econômica, é de manutenção do quadro atual. Acreditamos que as
expectativas podem continuar ruins à medida em que as indefinições na Europa se
somarem às inevitáveis turbulências geradas pelo processo eleitoral dos EUA,
que tem os dois candidatos empatados.
No Brasil continuaremos a sentir
os efeitos desse cenário global turbulento, apesar das constantes reações do governo
Dilma, por meio da política monetária e dos programas específicos de gastos e
renúncia fiscal. Tudo indica que a soma desses dois vetores, o global e o
doméstico, continue a gerar cenários incertos. Hoje, com a divulgação do IGP-M da
FGV acima de 1% em abril, por conta de
um atacado muito alto, e com o aumento da aversão aos riscos, as taxas de juros
começaram a subir novamente; já o dólar acumulou alta de 3,5% no ano, auxiliado
pelas intervenções do governo e pelas condições gerais dos mercados globais.
Tudo indica que as expectativas podem levar a uma redução substancial do otimismo
em relação à nossa economia; ao menos é isso que o derretimento do Ibovespa
indica, sem sombra de dúvida. Apesar dos esforços do governo, o cobertor é
curto demais.
Pedro Paulo
Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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