terça-feira, 8 de maio de 2012

Um cobertor curto para os mercados globais

Ontem os mercados globais reagiram à vitória de François Hollande nas eleições francesas de maneira inesperada. Mantiveram-se calmos apenas com a sinalização de Ângela Merkel  de que a Europa continuará a trilhar os caminhos de comprar a confiança dos mercados. Hoje, reagiram de modo adverso, depois de constatar que na Grécia a composição política do novo governo está obstruída por uma enorme rejeição da população a qualquer alternativa oferecida pelos partidos políticos. Já o presidente da União Europeia convocou uma reunião dos vinte e sete países membros para o dia 23 para tentar garantir o compromisso de todos para o esforço europeu em torno da “austeridade fiscal”. A política europeia tem se concentrado em comprar a confiança dos mercados através dos cortes orçamentários. A lógica dessa política é a de que os cortes aumentam a credibilidade das finanças nacionais, reduzindo os juros de financiamento das dívidas soberanas, e permite a redução dos custos europeus de produção, tornando o continente mais apto a concorrer nos mercados globais. Tomam como exemplo a Alemanha e apostam que os custos de curto prazo serão repostos no futuro, a partir de uma Europa mais sustentável. Essa é a proposta dos republicanos, nos EUA, e sempre foi a proposta da imensa agora dos economistas para as crises enfrentadas pelos emergentes nas décadas de 1980 a 2000. Austeridade e recessão agora resultando em crescimento no futuro. Independentemente das opiniões que se possa ter a respeito dessa estratégia, ela hoje é a condição imposta pelos mercados e pela maioria dos países europeus a qualquer política que se realize nacionalmente.  Fugir dela tem seus custos, que podem ser medidos pelas reações dos mercados a qualquer política nacional adotada (as crises das dívidas europeias foram exatamente isso). Mas essa avenida tem duas mãos: o custo de curto prazo dessas políticas é medido pelo enorme sacrifício em termos de crescimento e desemprego, fazendo dos governos presas frágeis da ira popular. As derrotas políticas dos governos mostram que há uma rota de colisão entre os processos democráticos nacionais e a agenda desejada pelos mercados. A temperatura política da Europa tende a subir enquanto o desemprego for elevado e o ajuste fiscal não terminar. As quedas que assistimos hoje tendem a se repetir na Europa e nos EUA, afinal a tendência, em termos de atividade econômica, é de manutenção do quadro atual. Acreditamos que as expectativas podem continuar ruins à medida em que as indefinições na Europa se somarem às inevitáveis turbulências geradas pelo processo eleitoral dos EUA, que tem os dois candidatos empatados.

No Brasil continuaremos a sentir os efeitos desse cenário global turbulento, apesar das constantes reações do governo Dilma, por meio da política monetária e dos programas específicos de gastos e renúncia fiscal. Tudo indica que a soma desses dois vetores, o global e o doméstico, continue a gerar cenários incertos. Hoje, com a divulgação do IGP-M da FGV  acima de 1% em abril, por conta de um atacado muito alto, e com o aumento da aversão aos riscos, as taxas de juros começaram a subir novamente; já o dólar acumulou alta de 3,5% no ano, auxiliado pelas intervenções do governo e pelas condições gerais dos mercados globais. Tudo indica que as expectativas podem levar a uma redução substancial do otimismo em relação à nossa economia; ao menos é isso que o derretimento do Ibovespa indica, sem sombra de dúvida. Apesar dos esforços do governo, o cobertor é curto demais.



Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br



 
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