O presidente do Banco Central Europeu
confirmou, em seu discurso de hoje, os rumores divulgados pela imprensa, de que
a autoridade monetária europeia fará compras de títulos soberanos sem limite de
valor e “esterilizadas”. Os mercados europeus ficaram eufóricos e apresentam
fortes altas. No Brasil a divulgação da Ata do Copom aumenta a expectativa de
que o ciclo de queda dos juros chegou ao fim. Nos EUA, os dados do mercado de
trabalho divulgados hoje vieram melhores do que o esperado.
O presidente do BCE, Mario Draghi, fez um
discurso ao final da reunião de política monetária confirmando os que os
jornais divulgaram ontem. O banco comprará títulos soberanos no mercado
secundário, sem limite de valor, mas sem emitir moeda, para evitar pressões
inflacionárias. Como contrapartida, os governos em dificuldades devem pedir
socorro de maneira formal aos fundos europeus de estabilização (EFSF/ESM).
Essas condicionalidades – a “esterilização” e o pedido de socorro – tornam as
coisas um poucos menos impactantes do que seria de se esperar. Ao “esterilizar”
as compras de títulos, que ficarão restritas aos bônus de 1 a 3 anos, o BCE não
emite moeda. Nesse caso ele impõe um limite aos juros pagos pelos tesouros em
dificuldades, mas deixa a liquidez do sistema europeu inalterada. O BCE não
explicou como fará a “esterilização” das compras. No Brasil a “esterilização”
das compras de dólares pelo BC são feitas com títulos do Tesouro (LFTs, NTNs,
LTNs, etc). O mesmo ocorre com países que compram agressivamente reservas
internacionais, como é o caso dos emergentes no ciclo atual. Mas no caso do
BCE, ainda não é claro como será a “esterilização”. O que está sendo ressaltado
por Draghi é que para conseguir equilibrar seus pagamentos, os governos deverão
procurar os fundos de resgate, o que implicará em aceitar as condicionalidades
para os empréstimos. Em geral as mesmas consistem em pacotes de ajustes
extremamente severos e que tendem a acentuar o quadro recessivo das economias.
A Espanha tem relutado em recorrer ao resgate porque já enfrenta uma recessão
que levou o desemprego a 25,5%. E a situação econômica da Europa continua se
deteriorando, com o PIB caindo em 0,2% no segundo trimestre após ter crescido
0% no primeiro. Infelizmente esse desenho atual do “pacote de resgate” da Europa
não nos permite uma avaliação final a respeito das perspectivas. Ele pode
trazer alguma tranquilidade no curto prazo, permitindo que os credores com
títulos de curto prazo empurrem suas dívidas ao BCE. Mas ele não altera a
difíceis condições fiscais dos países em crise e que devem continuar afundando
no segundo semestre.
Nos EUA foram divulgados os dados do
mercado de trabalho: as contratações medidas pela empresa ADP superaram as
estimativas do mercado e vieram em 201 mil e os pedidos de seguro desemprego
caíram frente os dados da semana anterior e vieram em 365 mil. Abaixo o gráfico
da Bloomberg com o comportamento das contratações, medido pela ADP e pelo
Departamento do Trabalho:
Como pode ser notado, as contratações do
setor privado se mantém em alta pelo quarto mês consecutivo e isso já é
suficiente para trazer algum otimismo ao mercado. A tendência mostrada pelos
pedidos de seguro desemprego também animaram o mercado e, como pode ser notado
no gráfico abaixo, a queda dessa semana foi expressiva se comprada às semanas anteriores:
Como resultado, os mercados confirmaram
seu ciclo de otimismo, apostando nas medidas de estímulo. É possível que esse
ambiente permaneça turbinado por mais algumas semanas. Mas é bom alertar que,
dadas as limitações impostas ao plano de resgate de Draghi, a Europa deve
continuar a demandar muita preocupação quanto às suas perspectivas.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
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