Depois de estendido o IOF
para empréstimos externos de até 5 anos, o real não interrompeu mais a sua
trajetória de desvalorização frente ao dólar. Depois de operar abaixo de R$
1,70, o dólar parece ter como piso os R$ 1,80. Além disso, o governo tem se
mostrado disposto a introduzir mais medidas para proteger nossa indústria, que
tem se mostrado frágil diante da concorrência externa. O culpado de sempre é
o câmbio valorizado.
Gostaríamos de fazer, basicamente, duas perguntas acerca
do câmbio e da política cambial: (1) em quanto
o câmbio está valorizado? e (2) é
possível levar o câmbio ao suposto câmbio de equilíbrio?
Essas perguntas esboçam o
tema de discussões que estão presentes na teoria e na política econômicas desde
que o capitalismo foi instituído como a economia global, no século
XVIII. E as respostas a elas estão longe de constituírem consenso, aproximando-se
muito mais às preferências políticas, do que às hipóteses científicas. Com a transformação
do comércio internacional em comércio capitalista, a instituição de taxas de
câmbio bilaterais, entre a moeda de um país em relação a de outro país, se
tornou pré-condição para realização das trocas e do crescimento econômico
global. E um dos fatos notadamente conhecidos em relação a esse tema, é que a
determinação da taxa de câmbio “correta” é uma ilusão. Isso porque a norma para
o comércio global é a da instabilidade e não o equilíbrio. Abaixo, uma citação
de J.M.Keynes acerca do equilíbrio dos balanços de pagamentos:
“O problema de manter o
equilíbrio dos balanços de pagamentos entre os países nunca foi resolvido,
desde que foram instituídos diferentes
meios para as trocas, como a moeda ou dívidas. Durante o período no qual
o mundo moderno existiu e no qual as autarquias medievais foram sendo
substituídas gradualmente pela divisão internacional do trabalho e pela
exploração de novas fontes de matérias primas pelos empreendimentos
ultramarinos, a falha para resolver esse
problema tem sido a maior causa do empobrecimento e do descontentamento social
e, até mesmo, das guerras e revoluções.”
A falha para resolver esse
problema tem sido a maior causa para o empobrecimento...
Keynes escrevia um
esboço para a sua proposta para o Sistema Financeiro Internacional, em plena
Segunda Grande Guerra, tentando encontrar um desenho no qual esses
desequilíbrios fossem mitigados e evitassem os enormes custos das crises de
balanço de pagamentos. Antes de se perguntar qual o melhor desenho, Keynes se
preocupou em responder quais eram as causas básicas para o desequilíbrio dos
balanços de pagamentos. Em sua pesquisa a resposta foi taxativa: os países têm,
entre si, diferentes estágios de desenvolvimento econômico. Assim, alguns deles
encontram-se em estágio de forte produção industrial, ao passo que outros estão
em estágio de industrialização. Essas diferenças causam, grosso modo, os
superávits de uns e os déficits de outros. As taxas de câmbio são os preços que
resultam desses movimentos do comércio e, cada vez mais importantes, dos fluxos
financeiros entre os países. Portanto, a questão da taxa de câmbio é séria e,
infelizmente, tratada sem que exista um câmbio “correto”, "absoluto", já que as economias estão sempre em movimento.
Existem várias taxas de câmbio possíveis e cada uma delas reflete um arranjo
político específico, um saldo de balanço de pagamentos específico, um saldo de
reservas internacionais específico e, importante para nossa discussão, uma
distribuição de renda específica.
Quando essa discussão é
proposta em nossa sociedade, boa parte das considerações acima são desprezadas
e a desvalorização da taxa de câmbio aparece como um remédio que salvará nossa
indústria e que trará benefícios a todos os brasileiros. Mas essa
desvalorização, que só causa o bem para todos os brasileiros, está longe de ser
verdadeira: como toda ação de política econômica, ela tem benefícios e custos,
que serão distribuídos de forma desigual pelos agentes da sociedade. Haverá os
que ganham e os que pagam a conta. Dito isso, vamos à primeira pergunta:
(1 (1)
Em
quanto o real está valorizado?
Como dito acima, há um
câmbio para cada situação de equilíbrio. Se algum agente econômico diz que o
câmbio está fora do lugar, ‘valorizado’,
está sugerindo que o atual equilíbrio é ruim e que deseja outro equilíbrio.
Aqui no Brasil estão se referindo ao fato de que a indústria brasileira não
cresce ao mesmo ritmo que o PIB, perdendo espaço para as mercadorias importadas
e deixando de exportar porque o câmbio valorizado encarece nossas exportações
em dólares. Então deve haver uma taxa de câmbio que torne os bens importados
tão caros como os nacionais e, simultaneamente, torne nossos produtos
exportados tão baratos como os dos nossos concorrentes vendidos nos mercados globais.
Pouca gente tem se aventurado em dizer o quanto nossa moeda está valorizada e
em quanto deveríamos desvalorizá-la. Alguns analistas, utilizando-se de modelos
estatísticos simplificados, sugeriram algo como R$ 2,40 para nossa moeda em
relação ao dólar. Isso resultaria em uma desvalorização de 41% em relação aos
R$ 1,70 do ano passado e 33% em relação aos atuais R$ 1,80.
A essa nova taxa de
câmbio, os preços dos bens importados subiriam fortemente, inibindo seu consumo
por parte dos brasileiros e, simultaneamente, tornaria os preços em dólares dos
bens exportados pelo Brasil, mais baratos no exterior, estimulando sua demanda.
É assim que os modelos de balanço de pagamentos enxergam os ajustes a partir de
desvalorizações cambiais e isso foi feito no Brasil diversas vezes. Nos anos
1980, por ocasião do aumento explosivo dos preços do petróleo; nos anos 1990,
primeiro sob Collor, depois sob Fernando Henrique Cardoso e nos anos 2.000, por
ocasião da primeira vitória de Lula para a presidência. Antes disso, em todas
as décadas nosso pais registrou fortes desvalorizações cambiais , já que em todas elas apresentávamos crises de balanço de
pagamentos, desde nossa independência. Somos, portanto, conhecedores dessa
política há mais de um século!
Daí que muitos de nossos
analistas, economistas, empresários, políticos e formuladores de política
econômica tenham tamanha simpatia pelo remédio da desvalorização. Desvalorizar aumenta
as exportações e reduz a importações. Vamos à segunda pergunta:
(2 (2) É possível levar o câmbio ao suposto
câmbio de equilíbrio?
Precisamos, segundo a tese
do câmbio a R$ 2,40, fazer uma desvalorização de 41% em nossa moeda. Ao fazer
isso, os preços do que importamos e do que exportamos vão subir na mesma
proporção. Esses bens que exportamos e importamos são chamados tradeables ou bens comercializáveis. Pelo
PIB trimestral divulgado pelo IBGE, os bens comercializáveis representaram 25%,
ou um quarto, dos bens produzidos em 2011. Dessa forma, em média, um quarto dos
bens consumidos pelos brasileiros terá um aumento de preços da ordem de 41%, o
que representa, em média, uma queda de 10% no poder de compra dos brasileiros.
Ressaltando:
uma desvalorização dessa magnitude levará a uma queda de 10% na renda do brasileiro.
É
possível que os brasileiros estejam a favor desse sacrifício para o bem da
indústria nacional, mas é necessário avisá-los que eles estão sendo convocados
a fazer esse sacrifício.
Mas os brasileiros
aceitarão esse sacrifício? A resposta é clara: DEPENDE. Essa queda na renda se
fará sentir pela queda real dos salários, por meio da inflação. Os trabalhadores
sempre relutam em aceitar a falta de correção de seus salários e isso é bem
claro para todos nós. Essas quedas na renda real só são possíveis quando o desemprego
é elevado! Situação totalmente adversa à que vemos hoje no Brasil: o mercado de
trabalho está totalmente aquecido. O que nos leva a pensar que boa parte da
desvalorização que se faça no real, virará inflação, convocando novas
desvalorizaçãoes. Assim, se o governo planeja levar o real para R$ 2,4,
pensando que aí está o seu equilíbrio, provavelmente ele terá que desvalorizar
mais e mais, dependendo da taxa de desemprego. Quanto menor o desemprego, maior
a taxa nominal do câmbio de equilíbrio e, simultaneamente, maior a inflação do
país.
E essa é uma parte do
problema: é preciso pensar se o mercado global está tão disposto a comprar
produtos brasileiros, mesmo que oferaçamos um desconto nos preços em dólares,
decorrente da desvalorização de nossa moeda. O mercado global está em
desaquecimento: há cerca de 30 milhões de desempregados e as perspectivas de
melhora estão muito longe! O quadro abaixo ilustra a situação atual da economia
global:
Da mesma forma que a baixa
taxa de desemprego no Brasil reduz os efeitos da desvalorização cambial sobre o
ajuste do balanço de pagamentos, a alta taxa de desemprego global atua no mesmo
sentido.
Com um mundo que está reduzindo suas compras, a competição global está
aumentando. A taxa de câmbio requerida para colocar a nossa indústria em “equilíbrio”
é, provavelmente, maior do que a planejada inicialmente. O que nos leva às
questões anteriores: qual o sacrífico que é requerido para que tal equilíbrio
seja atingido?
É necessário pontuar que o
tal “equilíbrio” saudável para a nossa indústria irá requerer queda do emprego,
nível maior de inflação e queda na renda. De certa forma, isso equivale a
repetirmos o que fizemos nos anos 1980: exportar nosso consumo para o resto do
mundo. Pena que alguém tente isso com uma economia doméstica tão dinâmica (nos
anos 1980 já estávamos vivendo o ocaso do milagre) e com um mundo muito pior
para nossas exportações (à época o mundo industrializado não estava em tamanha
recessão).
Tudo indica que essa
política nos levará a mais inflação, mesmo que o valor pensado pelo governo não seja o de R$
2,40 para o real. Estranhamente, a saúde de nossa indústria traria custos equivalentes para os brasileiros aos que muitos europeus estão tendo em suas recessões.
Pedro Paulo Silveira
Economista
"Este
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