terça-feira, 20 de março de 2012

Realização interrompe o otimismo

 
Hoje os mercados globais estão em realização, com quedas acentuadas na Europa, EUA e Brasil. O motivo para a realização, que contraria nossas expectativas para a semana de otimismo, estão baseadas na notícia de que a BHP está vendendo menos minério para a China, que está produzindo menos aço. Na esteira desse movimento, os juros voltaram a cair, depois das altas de ontem, mas o dólar acentuou sua alta em relação ao real.

A China vem reduzindo seu crescimento, acompanhando a tendência global, mas essa queda é atenuada pela expansão da demanda doméstica, que mantém o dinamismo dos últimos dez anos, baseado na incorporação de vastos contingentes populacionais à economia urbana. Mas o crescimento total da economia chinesa também dependia do crescimento dos mercados globais, fonte de demanda de uma parcela significativa de sua produção. O quadro abaixo mostra o crescimento chinês, brasileiro e global de 2010 e 2011 e as projeções do FMI para 2012 e 2013:




Há uma redução de 2,2% no crescimento chinês de 2010 para cá e isso resulta basicamente da queda de 2,0% do crescimento global. Foi esse o cenário montado pelo governo chinês ao anunciar a redução da meta de crescimento de 8% para 7,5% três semanas atrás. O esforço chinês se concentrará no fortalecimento da demanda doméstica para compensar a falta de crescimento global. O que o presidente da BHP disse, apenas ressalta o que já esperado pela grande maioria dos analistas internacionais: o crescimento da China estará baseado, cada vez mais, em uma demanda relativamente menor de matérias primas básicas, já que o nível de urbanização e industrialização está cada vez maior. Esse cenário prospectivo já era de conhecimento de todos e não podemos creditar a ele as quedas substanciais que os mercados globais estão promovendo em suas bolsas e nos preços das commodities. Tudo indica que estamos em um dia de realização e não em uma forte correção de trajetória do otimismo que tem imperado nos mercados globais. O crescimento da China é um evento crucial, de fato, para as perspectivas globais, mas as projeções de crescimento reduzidas já estavam feitas desde janeiro. 

Nos EUA, o dado econômico do dia foi divulgado pelo U.S. Census Bureau e diz respeito ao início de novas construções residenciais do setor privado. Elas vieram um pouco abaixo do esperado mas indicam estabilização em um patamar superior ao da crise de 2008-2009 e da queda de 2011. O gráfico abaixo mostra o volume de novas construções, tomadas mensalmente e anualizadas:




Note que antes da crise o volume mensal de novas residências era ao redor de dois milhões de residências/ano; com a crise o mercado encolheu dois terços. Os esforços estão sendo feitos para estabilizar o mercado nesse patamar atual e, depois, fazê-lo retornar aos padrões pré bolha imobiliária, que eram de 1,5 milhões de residências/ano. O mercado imobiliário dos EUA é um retrato do atual estágio da crise: parece que o pior já passou, mas temos um longo caminho para recuperar os patamares anteriores à crise.

Um dia de realização que não tem base em novas informações.


Pedro Paulo Silveira
Economista






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