A Europa está em queda pelo terceiro dia consecutivo e,
dessa vez, o gatilho foi a divulgação do
PIB da Zona do Euro, que veio em queda de 0,3%, conforme o esperado. Todas as
contas mostraram encolhimento, inclusive as exportações, o que mostra, em
grande medida, a tendência à queda do comércio global. Mesmo dentro das
expectativas, o dado fez com que as bolsas mergulhassem e que o Euro se
desvalorizasse um pouco mais. A média das quedas é ao redor de 1,2% e espelha o
temor de que a recessão se torne uma depressão. Os últimos três meses do ano
passado, que compreendem o PIB divulgado hoje, não se beneficiaram da primeira
operação de liquidez do tipo LTRO do BCE, que só foi feita no final do mês de dezembro,
no montante de quase 500 bilhões de euros. Mesmo com as duas operações LTRO,
que somaram 1 trilhão de euros, o primeiro trimestre desse ano também será de
contração, já que todos os agentes domésticos estão contraindo seus gastos (investimentos
em queda, governos cortando gastos e famílias poupando em meio ao desemprego).
A estratégia do bloco vai se mostrando limitada para conter os efeitos
deletérios da recessão: os cortes de gastos associados à expansão de liquidez
do BCE são ineficientes para conter a queda do PIB europeu.
No Brasil o IBGE divulgou o PIB do quarto trimestre, que
veio em 0,3%, totalizando 2,7% de crescimento em 2011, muito abaixo do desejado
pelo governo. O destaque é a indústria, que apresentou queda de 0,5% no período
e foi a principal contribuição para o PIB fraco. Governo e a maior parte dos
analistas vão indicar como “culpado” por esse desempenho a taxa de câmbio
valorizada. Talvez isso seja importante para nosso posicionamento global,
talvez seja uma importante arma diplomática, mas é muito mais importante que
nossos governantes e formuladores de política não acreditem nesse argumento. O
que vem jogando nossa indústria para baixo, com queda nas exportações e aumento
das importações de manufaturados é a QUEDA
DO COMÉRCIO GLOBAL , induzida pela
recessão da Europa. Esse é o preço que a economia global tem a pagar pelos 16
milhões de desempregados na Europa e 15 milhões nos EUA. A China já vem
demonstrando preocupação com a queda de suas exportações de manufaturados e
sinalizou isso na redução de sua meta de crescimento de 2012. Mas aqui no
Brasil temos ignorado os efeitos devastadores dessa recessão sobre a nossa
própria economia. A estratégia de atacar o “Tsunami” da liquidez internacional,
adotado pela nossa presidente, tem importância para defender nossa produção
local, mas é alarmante como solução global. A Grande Depressão dos anos 1930
foi aprofundada pela enorme competição entre os países. Nessa crise, iniciada
em 2008, começamos bem com o G-20 de 2009, no qual os países se comprometeram
no âmbito das políticas econômicas: salvar bancos, liberar o comércio global,
juros baixos e moedas estáveis. Essa nova fase da crise fez com que a
cooperação do passado fosse desmantelada e substituída por políticas
competitivas e desordenadas. A liquidez bombeada pelos Bancos Centrais é uma
SOLUÇÃO para a crise global e não um problema adicional: ela evita que as
quedas do PIB sejam maiores e, portanto, contribuem para manter a nossa própria
economia. Se não houvesse essa liquidez, a nossa indústria estaria ainda pior!
O câmbio é apenas uma consequência de algo mais atemorizante: a recessão
profunda que consome os países do bloco
europeu.
A posição brasileira é a mesma que vem sendo adotada
individualmente por cada economia: buscar resolver o “seu” problema
desconsiderando as relações intrínsecas de cada um com o comércio e as finanças
globais. Esse caminho, desordenado e competitivo é a maior força que pode nos
arrastar para um segundo mergulho na recessão global.
Pedro Paulo Silveira
Economista
"Este
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