terça-feira, 6 de março de 2012

A recessão está aí, na Europa


A Europa está em queda pelo terceiro dia consecutivo e, dessa vez,  o gatilho foi a divulgação do PIB da Zona do Euro, que veio em queda de 0,3%, conforme o esperado. Todas as contas mostraram encolhimento, inclusive as exportações, o que mostra, em grande medida, a tendência à queda do comércio global. Mesmo dentro das expectativas, o dado fez com que as bolsas mergulhassem e que o Euro se desvalorizasse um pouco mais. A média das quedas é ao redor de 1,2% e espelha o temor de que a recessão se torne uma depressão. Os últimos três meses do ano passado, que compreendem o PIB divulgado hoje, não se beneficiaram da primeira operação de liquidez do tipo LTRO do BCE, que só foi feita no final do mês de dezembro, no montante de quase 500 bilhões de euros. Mesmo com as duas operações LTRO, que somaram 1 trilhão de euros, o primeiro trimestre desse ano também será de contração, já que todos os agentes domésticos estão contraindo seus gastos (investimentos em queda, governos cortando gastos e famílias poupando em meio ao desemprego). A estratégia do bloco vai se mostrando limitada para conter os efeitos deletérios da recessão: os cortes de gastos associados à expansão de liquidez do BCE são ineficientes para conter a queda do PIB europeu.

No Brasil o IBGE divulgou o PIB do quarto trimestre, que veio em 0,3%, totalizando 2,7% de crescimento em 2011, muito abaixo do desejado pelo governo. O destaque é a indústria, que apresentou queda de 0,5% no período e foi a principal contribuição para o PIB fraco. Governo e a maior parte dos analistas vão indicar como “culpado” por esse desempenho a taxa de câmbio valorizada. Talvez isso seja importante para nosso posicionamento global, talvez seja uma importante arma diplomática, mas é muito mais importante que nossos governantes e formuladores de política não acreditem nesse argumento. O que vem jogando nossa indústria para baixo, com queda nas exportações e aumento das importações  de manufaturados é a QUEDA DO COMÉRCIO GLOBAL       , induzida pela recessão da Europa. Esse é o preço que a economia global tem a pagar pelos 16 milhões de desempregados na Europa e 15 milhões nos EUA. A China já vem demonstrando preocupação com a queda de suas exportações de manufaturados e sinalizou isso na redução de sua meta de crescimento de 2012. Mas aqui no Brasil temos ignorado os efeitos devastadores dessa recessão sobre a nossa própria economia. A estratégia de atacar o “Tsunami” da liquidez internacional, adotado pela nossa presidente, tem importância para defender nossa produção local, mas é alarmante como solução global. A Grande Depressão dos anos 1930 foi aprofundada pela enorme competição entre os países. Nessa crise, iniciada em 2008, começamos bem com o G-20 de 2009, no qual os países se comprometeram no âmbito das políticas econômicas: salvar bancos, liberar o comércio global, juros baixos e moedas estáveis. Essa nova fase da crise fez com que a cooperação do passado fosse desmantelada e substituída por políticas competitivas e desordenadas. A liquidez bombeada pelos Bancos Centrais é uma SOLUÇÃO para a crise global e não um problema adicional: ela evita que as quedas do PIB sejam maiores e, portanto, contribuem para manter a nossa própria economia. Se não houvesse essa liquidez, a nossa indústria estaria ainda pior! O câmbio é apenas uma consequência de algo mais atemorizante: a recessão profunda que consome os  países do bloco europeu.  

A posição brasileira é a mesma que vem sendo adotada individualmente por cada economia: buscar resolver o “seu” problema desconsiderando as relações intrínsecas de cada um com o comércio e as finanças globais. Esse caminho, desordenado e competitivo é a maior força que pode nos arrastar para um segundo mergulho na recessão global.


Pedro Paulo Silveira
Economista






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