quarta-feira, 9 de maio de 2012

O derretimento continua...


O IBGE divulgou hoje o IPCA de abril e ele veio em 0,65% no mês de abril contra uma expectativa de 0,58%. Ainda que esse dado esteja dentro do desvio padrão das estimativas, ela joga uma pouco mais de dúvida em relação às perspectivas para a economia brasileira. No Comentário de ontem usamos o termo “cobertor curto” para descrever a dificuldade dos formuladores de políticas econômicas de acomodar todas as demandas internas e externas em seus cardápios de prioridades. A aceleração da inflação brasileira, antes mesmo de sentirmos plenamente os efeitos da redução dos juros, dos estímulos fiscais efetuados pelo governo e da alta do dólar, vai ensejar muitas dúvidas quanto à capacidade de nossa economia absorver tantos choques e políticas, sem causar danos colaterais. À medida que os efeitos dos juros baixos, dos gastos governamentais e da desvalorização do câmbio se disseminarem sobre nossa economia é possível que os agentes reajam considerando expectativas inflacionárias mais elevadas, fazendo com que os juros longos subam,  anulando parte dos efeitos da redução da taxa Selic. Talvez mais grave, os agentes podem aprofundar as suas incertezas quanto às perspectivas para a nossa economia, reduzindo ainda mais a declinante taxa de investimentos, levando a nossa taxa de crescimento mais para baixo em 2012 e 2013. Esse cenário, se ocorrer, está em linha com o que já vem ocorrendo no resto do mundo e aponta, no Brasil, para uma economia com mais inflação e menos crescimento. Voltamos a insistir na tese de que a desvalorização cambial associada a políticas monetária e fiscal expansionistas  resulta em mais inflação, com resultados muito incertos em relação ao crescimento, sobretudo quando a economia se encontra em pleno emprego (mercado de trabalho aquecido). No cenário atual, com a taxa de crescimento global em desaceleração, é possível que as expectativas venham a convergir para esse cenário, aumentando ainda mais as incertezas dos agentes e reduzindo o apetite ao risco.  A continuar assim, a atual discussão em torno dos juros (redução da taxa básica e dos juros finais dos empréstimos) perderá todo significado. Boa parte das variáveis consideradas em agosto, no início do ciclo de redução da Selic, sofreu alterações e outras passaram a jogar com maior peso. Aumenta, em nossa opinião, a probabilidade de nos depararmos com uma desaceleração mais forte no Brasil.


Na Europa cresce o desencanto dos mercados com as soluções para a crise, arranjadas no primeiro trimestre. Apesar dos bilhões de euros injetados nos sistemas bancários nacionais, a forte recessão está balançando a estabilidade política em uma trajetória cujo fim é imprevisível. Nos próximos meses, dada a inclinação dos países hegemônicos a continuar com a estratégia de aperto fiscal, a recessão deve se aprofundar na Europa, aumentando o descontentamento popular em relação aos seus líderes. O mercado depende profundamente de uma saída política para essa crise, ainda que acredite que apenas o plano de aperto fiscal associado à expansão monetária possa deter a depressão. O derretimento das bolsas, das dívidas e do euro, no pregão de hoje, reflete esse estado de confiança em deterioração. Há nesse movimento uma tendência de queda em espiral, já que não é possível ver nas propostas majoritárias da Comunidade Europeia uma alternativa plausível para interromper a tendência de retroalimentação das crises políticas e econômicas.


Sem dados econômicos importantes a serem divulgados, é de se esperar que o mercado  dos EUA incorpore o pessimismo europeu. A maior economia do mundo já mostrou que não é tão independente da Europa como muitos acreditavam, a confusão tende a aumentar.




Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br




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