O IBGE divulgou hoje o IPCA de
abril e ele veio em 0,65% no mês de abril contra uma expectativa de 0,58%.
Ainda que esse dado esteja dentro do desvio padrão das estimativas, ela joga
uma pouco mais de dúvida em relação às perspectivas para a economia brasileira.
No Comentário de ontem usamos o termo “cobertor curto” para descrever a dificuldade
dos formuladores de políticas econômicas de acomodar todas as demandas internas
e externas em seus cardápios de prioridades. A aceleração da inflação
brasileira, antes mesmo de sentirmos plenamente os efeitos da redução dos
juros, dos estímulos fiscais efetuados pelo governo e da alta do dólar, vai
ensejar muitas dúvidas quanto à capacidade de nossa economia absorver tantos
choques e políticas, sem causar danos colaterais. À medida que os efeitos dos
juros baixos, dos gastos governamentais e da desvalorização do câmbio se
disseminarem sobre nossa economia é possível que os agentes reajam considerando
expectativas inflacionárias mais elevadas, fazendo com que os juros longos
subam, anulando parte dos efeitos da
redução da taxa Selic. Talvez mais grave, os agentes podem aprofundar as suas
incertezas quanto às perspectivas para a nossa economia, reduzindo ainda mais a
declinante taxa de investimentos, levando a nossa taxa de crescimento mais para
baixo em 2012 e 2013. Esse cenário, se ocorrer, está em linha com o que já vem
ocorrendo no resto do mundo e aponta, no Brasil, para uma economia com mais
inflação e menos crescimento. Voltamos a insistir na tese de que a
desvalorização cambial associada a políticas monetária e fiscal expansionistas resulta em mais inflação, com resultados muito
incertos em relação ao crescimento, sobretudo quando a economia se encontra
em pleno emprego (mercado de trabalho aquecido). No cenário atual, com a taxa
de crescimento global em desaceleração, é possível que as expectativas venham a
convergir para esse cenário, aumentando ainda mais as incertezas dos agentes e
reduzindo o apetite ao risco. A
continuar assim, a atual discussão em torno dos juros (redução da taxa básica e
dos juros finais dos empréstimos) perderá todo significado. Boa parte das
variáveis consideradas em agosto, no início do ciclo de redução da Selic,
sofreu alterações e outras passaram a jogar com maior peso. Aumenta, em nossa
opinião, a probabilidade de nos depararmos com uma desaceleração mais forte no
Brasil.
Na Europa cresce o desencanto
dos mercados com as soluções para a crise, arranjadas no primeiro trimestre.
Apesar dos bilhões de euros injetados nos sistemas bancários nacionais, a forte
recessão está balançando a estabilidade política em uma trajetória cujo fim é imprevisível.
Nos próximos meses, dada a inclinação dos países hegemônicos a continuar com a estratégia
de aperto fiscal, a recessão deve se aprofundar na Europa, aumentando o
descontentamento popular em relação aos seus líderes. O mercado depende profundamente
de uma saída política para essa crise, ainda que acredite que apenas o plano de
aperto fiscal associado à expansão monetária possa deter a depressão. O
derretimento das bolsas, das dívidas e do euro, no pregão de hoje, reflete esse
estado de confiança em deterioração. Há nesse movimento uma tendência de queda
em espiral, já que não é possível ver nas propostas majoritárias da Comunidade Europeia
uma alternativa plausível para interromper a tendência de retroalimentação das
crises políticas e econômicas.
Sem dados econômicos importantes
a serem divulgados, é de se esperar que o mercado dos EUA incorpore o pessimismo europeu. A
maior economia do mundo já mostrou que não é tão independente da Europa como
muitos acreditavam, a confusão tende a aumentar.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
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