A semana termina sem que a
maior parte das dúvidas sobre os grandes problemas europeus sejam retiradas. Ao
contrário, à medida que vai ficando claro que a posição europeia é de aguardar
as eleições na Grécia para depois agir, vai fazendo cair o nível de confiança
dos agentes. A demora em promover os resgates sempre torna o processo mais caro
e menos eficiente, tal como vimos em 2.008/2.009. No Brasil, a confusão em
torno dos efeitos da crise sobre nossa economia só aumentou e expôs os limites
que o governo local tem para controlar as principais variáveis econômicas domésticas.
Os dirigentes da União Europeia
adotaram a política de “esperar para ver” em relação à Grécia. Com o complicado quadro político do país, é quase
impossível para a Europa assumir um pacote de ajuda sem que haja, do outro lado
do balcão, um governo com o qual possa negociar as condições mínimas para a sua
efetivação. Esse é o pesadelo político da Europa, já que a tentativa mais
recente de composição de um governo foi desastrosa. O recrudescimento da crise
econômica tem deteriorado as condições de vida do grego mediano, levando a
população a um estado de revolta que impede a estabilidade política com base na
manutenção dos cortes de gastos públicos, vistos como requisitos fundamentais
pelos líderes europeus. Esse impasse político não deve ser resolvido com as
eleições de junho a menos que haja uma séria concessão de ambos os lados.
Difícil saber se os gregos aceitarão a liderança de um novo governo e se os
setores mais conservadores da UE recuarão em suas posições atuais. A postura recente
de Angela Merkel não nos permite ver alguma alteração nesse quadro, já que ela
não admite negociar qualquer coisa no âmbito da austeridade fiscal imposta aos
países membros. A entrada do presidente francês, Francois Hollande, apesar de
representar um contrapeso à linha de Merkal, também tem mostrado que a
chanceler alemã não recuará facilmente de suas posições.
Enquanto o imbróglio político
europeu não é resolvido, os mercados continuar a reagir com mais pessimismo. Os
preços dos ativos reais (ações) e dos títulos soberanos continua em queda
livre, sinalizando o incremento da recessão no continente e o distanciamento de
uma saída rápida para crise. As tensões sobre o sistema bancário europeu estão
aumentando e é provável que o Banco Central Europeu tenha que tomar mais
medidas para impedir novas quebras. O lado real da economia reage como o
esperado, com queda do nível de atividade e com aumento do desemprego. Em
relação à Europa as perspectivas continuam a piorar rapidamente e podemos e um
cenário de forte recessão à medida que a solução política é retardada.
No Brasil, vai ficando claro
que a crise global é séria e que tem, realmente, atingido nossa economia. Um dos
sintomas dessa percepção é a queda do crescimento esperado do PIB para 2012 que
saiu de 3,5% há algumas semanas e veio para quase 3% nessa semana, segundo
relatório Focus. As causas dessa desaceleração não constituem consenso para os
analistas, mas a queda do crescimento, essa sim, é algo já presente em todos os
relatórios. As reações do governo continuam se mostrando contraditórias e pouco
eficientes, mas indicam que no Planalto a percepção já não é mais a de
crescimento de 4,5%.
Apesar da natureza ruim das
medidas pró estímulo (são pontuais, beneficiam a poucos e não tem caráter
definitivo) o que mais tem colocado dúvida na política econômica é a forma de
atuação sobre o câmbio. Após todo o discurso oficial, que colocava a desvalorização
do real como saída para a desaceleração da indústria, com a adoção de medidas
de restrição à entradas de dólares no país,
estamos assistindo a uma mudança total da postura. Agora o Banco Central
está atuando no mercado para segurar a cotação da moeda.
É uma reviravolta total na política
em relação ao câmbio e revela, no mínimo, que o diagnóstico anterior estava
totalmente errado. Quando o governo assumiu a posição de incentivar a
desvalorização cambial por meio de medidas “administrativas”, ele ignorou o
cenário de crise global e seus impactos sobre o Balanço de Pagamentos. Hoje o câmbio
está se desvalorizando porque há saída líquida de recursos do Brasil. A atuação
do BC não visa “atenuar a volatilidade” como anunciado pela autoridade. O BC
está atuando para dar liquidez a essas saídas. Essa atuação é absolutamente
normal em momentos como esse e as reservas internacionais de US$ 350 bilhões garantem
que a demanda do setor privado será atendida sem qualquer problema. Mas os
sinais contraditórios, emitidos para o mercado, podem trazer mais ruído do que
seria necessário. Hoje a atuação da autoridade no câmbio é vista como “queda de
braço” com o mercado quando, na verdade, é uma atuação normal para “zerar” o
buraco nos saldos do mesmo.
A queda da atividade e do crescimento
esperado para 2012 ajudaram as taxas de juros caírem mais um pouco e mostram
que a percepção de risco em relação à nossa economia está intacta. Via de
regra, quando a política econômica é vista com muita desconfiança, os prêmios sobre
as taxas de juros aumentam significativamente. Não temos assistido esse evento,
mesmo com o desconforto causado pelas ações recentes do governo. Tudo indica
que essa saída de capitais do Brasil tenha o mesmo significado que tem para
outras economias emergente: aumento da aversão aos riscos por parte dos
investidores globais.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
3027-3101 Email: pedrosilveira@tov.com.br
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