sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sem sinais de recuperação


A semana termina sem que a maior parte das dúvidas sobre os grandes problemas europeus sejam retiradas. Ao contrário, à medida que vai ficando claro que a posição europeia é de aguardar as eleições na Grécia para depois agir, vai fazendo cair o nível de confiança dos agentes. A demora em promover os resgates sempre torna o processo mais caro e menos eficiente, tal como vimos em 2.008/2.009. No Brasil, a confusão em torno dos efeitos da crise sobre nossa economia só aumentou e expôs os limites que o governo local tem para controlar as principais variáveis econômicas domésticas.

Os dirigentes da União Europeia adotaram a política de “esperar para ver” em relação à Grécia. Com o complicado quadro político do país, é quase impossível para a Europa assumir um pacote de ajuda sem que haja, do outro lado do balcão, um governo com o qual possa negociar as condições mínimas para a sua efetivação. Esse é o pesadelo político da Europa, já que a tentativa mais recente de composição de um governo foi desastrosa. O recrudescimento da crise econômica tem deteriorado as condições de vida do grego mediano, levando a população a um estado de revolta que impede a estabilidade política com base na manutenção dos cortes de gastos públicos, vistos como requisitos fundamentais pelos líderes europeus. Esse impasse político não deve ser resolvido com as eleições de junho a menos que haja uma séria concessão de ambos os lados. Difícil saber se os gregos aceitarão a liderança de um novo governo e se os setores mais conservadores da UE recuarão em suas posições atuais. A postura recente de Angela Merkel não nos permite ver alguma alteração nesse quadro, já que ela não admite negociar qualquer coisa no âmbito da austeridade fiscal imposta aos países membros. A entrada do presidente francês, Francois Hollande, apesar de representar um contrapeso à linha de Merkal, também tem mostrado que a chanceler alemã não recuará facilmente de suas posições. 

Enquanto o imbróglio político europeu não é resolvido, os mercados continuar a reagir com mais pessimismo. Os preços dos ativos reais (ações) e dos títulos soberanos continua em queda livre, sinalizando o incremento da recessão no continente e o distanciamento de uma saída rápida para crise. As tensões sobre o sistema bancário europeu estão aumentando e é provável que o Banco Central Europeu tenha que tomar mais medidas para impedir novas quebras. O lado real da economia reage como o esperado, com queda do nível de atividade e com aumento do desemprego. Em relação à Europa as perspectivas continuam a piorar rapidamente e podemos e um cenário de forte recessão à medida que a solução política é retardada.

No Brasil, vai ficando claro que a crise global é séria e que tem, realmente, atingido nossa economia. Um dos sintomas dessa percepção é a queda do crescimento esperado do PIB para 2012 que saiu de 3,5% há algumas semanas e veio para quase 3% nessa semana, segundo relatório Focus. As causas dessa desaceleração não constituem consenso para os analistas, mas a queda do crescimento, essa sim, é algo já presente em todos os relatórios. As reações do governo continuam se mostrando contraditórias e pouco eficientes, mas indicam que no Planalto a percepção já não é mais a de crescimento de 4,5%.
Apesar da natureza ruim das medidas pró estímulo (são pontuais, beneficiam a poucos e não tem caráter definitivo) o que mais tem colocado dúvida na política econômica é a forma de atuação sobre o câmbio. Após todo o discurso oficial, que colocava a desvalorização do real como saída para a desaceleração da indústria, com a adoção de medidas de restrição à entradas de dólares no país,  estamos assistindo a uma mudança total da postura. Agora o Banco Central está atuando no mercado para segurar a cotação da moeda.

É uma reviravolta total na política em relação ao câmbio e revela, no mínimo, que o diagnóstico anterior estava totalmente errado. Quando o governo assumiu a posição de incentivar a desvalorização cambial por meio de medidas “administrativas”, ele ignorou o cenário de crise global e seus impactos sobre o Balanço de Pagamentos. Hoje o câmbio está se desvalorizando porque há saída líquida de recursos do Brasil. A atuação do BC não visa “atenuar a volatilidade” como anunciado pela autoridade. O BC está atuando para dar liquidez a essas saídas. Essa atuação é absolutamente normal em momentos como esse e as reservas internacionais de US$ 350 bilhões garantem que a demanda do setor privado será atendida sem qualquer problema. Mas os sinais contraditórios, emitidos para o mercado, podem trazer mais ruído do que seria necessário. Hoje a atuação da autoridade no câmbio é vista como “queda de braço” com o mercado quando, na verdade, é uma atuação normal para “zerar” o buraco nos saldos do mesmo.

A queda da atividade e do crescimento esperado para 2012 ajudaram as taxas de juros caírem mais um pouco e mostram que a percepção de risco em relação à nossa economia está intacta. Via de regra, quando a política econômica é vista com muita desconfiança, os prêmios sobre as taxas de juros aumentam significativamente. Não temos assistido esse evento, mesmo com o desconforto causado pelas ações recentes do governo. Tudo indica que essa saída de capitais do Brasil tenha o mesmo significado que tem para outras economias emergente: aumento da aversão aos riscos por parte dos investidores globais.

 








Pedro Paulo Silveira (Economista)
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