Divulgados os dados da pesquisa PMI (índice de gerente de compra) da indústria da China, Europa, Alemanha e EUA, confirma-se que a atividade industrial está em retração nesses países. Para China, Zona do Euro e Alemanha, o índice vem abaixo de 50, indicando retração e desacelerando-se. Para os EUA, ainda um pouco acima de 50, ele vem em desaceleração forte. Já no Brasil houve duas notícias positivas: inflação bem menor, medida pelo IPCA-15 do IBGE, e mercado de trabalho ainda aquecido, com ligeira queda da taxa de desemprego nas seis capitais onde a pesquisa é feita, ainda que a renda urbana tenha mostrado uma pequena retração em termos reais.
Começando pelas boas notícias, o IBGE divulgou dois dados animadores que indicam que o mercado de trabalho ainda não se alterou e função da desaceleração da economia (ao menos nas seis capitais da pesquisa) e a inflação caiu significativamente por conta, sobretudo, da redução do IPI, da queda dos combustíveis e do comportamento morno dos serviços. Alimentos subiram fortemente em função do clima e sentiremos, mês que vem, os impactos da alta dos combustíveis, já anunciada pela Petrobrás. Afora esse dois indicadores, que mostram que o BC está indo na direção certa em termos da taxa básica, não há mis notícias que consigam compensar o clima ruim da economia global.
As pesquisas feitas junto aos gerentes de compras da indústria mostraram contração em boa parte das economias industrializadas e desaceleração significativa nos EUA. O gráfico abaixo resume o quadro:
Um número abaixo de 50 indica contração na indústria e podemos ver que a China está num patamar de contração. A indústria chinesa vem sendo afetada pela queda das exportações, provando o trivial: a crise global afeta todos os países. A Alemanha, o motor da Europa e esperança para sua estabilização também exibe claramente os sintomas de fadiga e escancara, uma vez mais, a sua própria dependência em relação ao comércio europeu, em declínio por conta da forte recessão. Os discursos de Merkel em relação aos seus parceiros encontram nessa evidência irrefutável que alemães dependem tanto dos europeus quanto eles dependem dos alemães. A reunião de amanhã, do EU-27 precisa concretizar um plano de resgate da região já que a própria Alemanha, com os dados apresentados até agora deverá apresentar um PIB negativo no segundo trimestre.
Nos EUA todos os indicadores anunciados hoje, exceto os indicadores antecedentes, vão na mesma direção: a atividade econômica do país está se desacelerando. Saíram dados do PMI, da indústria, do mercado de trabalho, de indicadores antecedentes e do mercado imobiliário. Todos indicam desaceleração da economia no mês de cada pesquisa. Abaixo os gráficos de vendas de imóveis usados (existing home sales) e do índice de atividade do FED da Filadélfia, fornecidos pela Bloomberg:
Os indicadores antecedentes apresentaram alta de 0,3%, surpreendendo positivamente os analistas, mas os indicadores acima, somados ao número de pedidos de seguro desemprego, que subiu novamente, para 387 mil, deixou claro que a maior economia do planeta está se ressentindo da desaceleração global. O tímido anúncio de Ben Bernanke de que o Federal Reserve está pronto para tomar mais iniciativas para estimular a economia não é capaz de eliminar o ceticismo quanto à sua efetividade. Como temos colocado insistentemente, o ano eleitoral nos EUA impede ações mais eficientes e as esperanças dos policy markers dos EUA estão voltadas para a Europa.
O ministro Guido Mantega repeliu a projeção do Credit Suisse de crescimento da economia brasileira em torno de 1,5%. Nossa projeção é muito parecida, oscilando entre 1,5% e 1,8%, com viés de baixa em função do alto risco de desaceleração global no segundo semestre. O nosso cenário incorpora uma recuperação na margem a cada trimestre do ano, o que vai ficando difícil de se sustentar com o constante agravamento do cenário econômico global. Talvez o ministro baseie suas esperanças nas políticas recém adotadas de estímulos pontuais, desonerações e redução dos juros básicos. Mas a contaminação da crise sobre os investimentos é muito mais séria do que ele parece acreditar. Em grande medida, o Brasil tem reagido à crise global como a China e todos os países tem reagido, com queda nas exportações. O Brasil agrava um pouco mais seu crescimento pela queda dos investimentos, que vinham dando a grande dinâmica do último ciclo de crescimento. Tudo indica que o cenário mais provável é o apontado pelo Credit Suisse, já que não vemos, no horizonte de curto prazo, capacidade global de reação.
Hoje os mercados devem digerir os dados ruins da economia global e continuar aguardando um “milagre” na reunião dos ministros da Zona do Euro amanhã.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
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