O Der Spiegel, grande jornal alemão,
soltou uma matéria em sua edição eletrônica cujo título é significativo: “O fim
das ilusões alemãs”. Diz respeito ao derretimento dos mercados, que já zeraram
os ganhos da bolsa alemã e reflete o quão decepcionados estão os agentes com a
comprovação de que a sua economia caminha em um ritmo desfavorável, contaminada
pela crise europeia.
Isso contradiz totalmente
os argumentos do grupo político representado por Angela Merkel, segundo os
quais a Alemanha era o grande exemplo a ser seguido pelos países europeus, já
que os “sacrifícios” feitos pelos alemães no passado estavam sendo recompensados
agora com um crescimento sustentado, baseado na elevada produtividade. Merkel
clamava por austeridade e reformas trabalhistas, que reduzissem os custos de
produção e aumentasse a produtividade das indústrias da Zona europeia, como
forma de recuperar as débeis economias em crise. Esse foi o pacto assinado por
todos os países membros e é em torno dele que estão sendo executadas as
políticas de cortes de gastos e reformas trabalhistas, na Itália, Grécia, Espanha
e Inglaterra. A França, sob Hollande, tem evitado essa agenda e gerou um início
de polêmica com o resto do grupo.
Para comprovar que
sua agenda estava correta, Merkel e Jens Weidmann, presidente do banco central
alemão, argumentavam que o PIB do primeiro trimestre da Zona do Euro só foi
positivo por conta da Alemanha que, graças às suas exportações, havia crescido
0,5%; a maior parte dos outros países membros apresentou retração. Uma receita
baseada de austeridade livrava a Zona do Euro da recessão.
Hoje foram
divulgados os dados de encomendas à indústria e o PMI de serviços. Ambos vieram
com resultados decepcionantes: queda de 1,9% para as encomendas e Índice PMI
desacelerando para 51,8, muito próximo aos 50; abaixo disso, o setor de serviços
indica retração. Esses resultados escancaram a enorme relação de dependência entre
a economia alemã e a Zona do Euro. Boa parte do superávit alemão foi
construído, ao longo desses anos de moeda única, a partir dos déficits de seus
parceiros. A partir do momento em que esses déficits começam a ser revertidos,
a Alemanha passa a perder seu principal motor de expansão. Ao criticar as
políticas “ruins” de seus parceiros, os dirigentes alemães criticam o “modelo”
que alimentou o seu pequeno milagre. Agora vai ficando claro que a Alemanha é
grande dependente dos déficits europeus e a sua economia passa a ser vista com
mais desconfiança.
No Brasil, o banco
central decidiu pela introdução do RAET (regime de administração especial
temporário) no banco Cruzeiro do Sul, após verificar que o mesmo não apenas não
conseguiria andar por conta própria como não havia interessados em sua
aquisição. Esse regime implica no afastamento dos controladores da
administração por 180 dias e foi nomeado, em seu lugar, o Fundo Garantidor de
Crédito. Ao longo desse período, as contas do banco serão analisadas e haverá
uma tentativa de saneamento. Se for bem sucedida, essa tentativa será revertida
em venda do banco para o setor privado. Em caso negativo, o banco entra em
processo de liquidação e os prejuízos serão absorvidos pelo Setor Público, às
expensas dos contribuintes.
Na primeira olhada
já foram encontradas trezentas mil operações fantasmas, utilizadas para inchar
os ativos do banco, de sorte a compensar os prejuízos sofridos pela
instituição. Levando-se em conta o histórico do banco e das operações de
salvamento realizadas ao longo dos últimos anos, é provável que o rombo a ser
arcado é superior aos R$1,3 bilhões estimados pela autoridade monetária. A
instituição atuava fortemente no segmento de crédito consignado e passou a se
utilizar dos FIDCs, fundos privados, como instrumentos para “encostar” suas operações
e aliviar os indicadores do banco. Essa forma de agir incentivou o banco a ficar
fora dos padrões mínimos de prudência e isso já havia sido detectado em 2008,
no auge da crise internacional. De lá para cá o Banco Central e a CVM
introduziram inovações na regulação, como forma de tentar mitigar essa
fragilidade, que levou vários bancos ao colapso no momento de desaceleração da
economia e de restrição de liquidez. Tudo indica que essa ação não foi
suficiente para evitar o pior. As quebras do Panamericano, Schahin e Morada e
os enormes prejuízos sofridos nas carteiras de alguns bancos e apontadas no
primeiro trimestre desse ano, devem ser utilizados como sinal de alerta. O fato
de termos um sistema bancário altamente concentrado não o torna mais seguro
contra as crises, como tem sido defendido ultimamente. A concentração bancária tornou
nossas instituições grandes demais para quebrar. Dessa forma há um incentivo
enorme para que os seus acionistas ou executivos aventurem-se sem medo das consequências.
Esse tipo de incentivo “perverso”, moral
hazard em linguagem técnica, torna os bancos demais para quebrar uma doença
tão ruim como o mercado pulverizado em momentos de crise. À medida em que nossa
economia se desacelera, com o aumento da participação das carteiras de crédito
nos ativos bancários, a inadimplência deve dar ao setor motivos para
preocupação.
Independentes das
notícias ruins divulgadas na Europa, os mercados interromperam o pessimismo de
ontem para aguardar a reunião do G7 a ser realizada hoje à tarde. Espera-se que
sejam anunciadas medidas conjuntas para mitigar a crise da Europa. Com tanta
gente pulando fora do barco do otimismo, uma boa notícia pode ser vista como
ponto de parada para as quedas das bolsas. Mas é improvável que os dirigentes
do G7 encontrem uma saída animadora para a recessão que engoliu a economia
europeia.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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