quarta-feira, 20 de junho de 2012

Uma tranquilidade irreal.

Estamos aguardando três eventos de devem acontecer para que os mercados não derretam novamente: (1) o FED deve anunciar hoje a “rolagem” da operação de financiamento de títulos longos (chamada twist) que vence esse mês, no valor de US$ 400 bilhões ; (2) a reunião de sexta feira dos líderes da Zona do Euro, a EU-27, que deve anunciar um pacote de salvamento do euro; e  (3) o novo governo grego, composto pelos três partidos que já se compuseram em bloco, deve formalizar sua posse e o comprometimento com o euro. Todo o movimento de alta feito desde sexta feira até ontem, está na dependência desses três eventos. Se algum deles falhar, voltamos ao triste ponto de partida. Mas a sua ocorrência não garante  de toda forma, que o segundo semestre seja de recuperação global.


Hoje o FOMC deve anunciar a renovação da mega operação de financiamento de títulos do tesouro de longo prazo das carteiras dos bancos americanos, no valor de US$ 400 bilhões e que vence esse mês. Os dados recentes da economia continuam a mostrar o esgotamento dos estímulos efetuados pelo Federal Reserve, seja do lado da atividade econômica, seja no mercado trabalho. Barack Obama tem concentrado seus esforços na tentativa de convencer os europeus que os EUA precisam de medidas de estímulo na Europa para evitar uma desaceleração mais séria em sua própria economia. Essa tem sido a principal “desculpa” usada pela equipe de Obama para explicar o fraco desempenho da economia americana. A desaceleração da Europa “roubou” alguns pontos de crescimento dos EUA que seriam obtidos pela política de estímulo monetário. Agora todas as atenções dos policy markers americanos têm se centrado na salvação da economia europeia. Como ponto de sua estratégia atual para manter a economia longe da desaceleração, o FED tem que fazer essa nova operação, já que a sua não renovação levaria a um quadro de aperto monetário muito grave para o momento atual.


Vemos a estratégia americana, portanto, como limitada a rolar uma operação que já existia e “torcer” para que os europeus façam alguma coisa urgente. O poder de fogo de Obama está muito limitado pela campanha eleitoral que tem um oponente, Mitt Romney, que vê na política de estímulos um “grave erro” do democrata.


A reunião do G20 era a grande aposta do mercado na semana passada para o anúncio de medidas para estimular a economia global e conter a crise da Europa. Nada de efetivo foi anunciado. O aporte de US$ 400 bilhões ao FMI é uma promessa antiga e nada garante que a instituição utilize esses recursos de forma produtiva para estimular a economia. Vale lembrar que as condicionalidades do FMI continuam a ser duras com os devedores e acabam por comprometer ainda mais sua capacidade de recuperação.


Dos esforços dos EUA e Europa, restaram apenas uma promessa de que os europeus anunciarão um pacote estrondoso após a reunião dos ministros dado Euro na sexta feira. Os líderes europeus garantiram a Obama que as medidas serão surpreendentemente fortes para suportar a economia europeia e garantir que ela volte a crescer. Segundo informações que vazaram à imprensa, as medidas atacam três frentes: unificação fiscal dos países da Zona do Euro; suporte financeiro à Itália e Espanha e, finalmente, medidas de estímulos aos investimentos e à geração de empregos. Essa promessa parece atacar todos os grandes problemas que têm levado os eurocéticos a criticar a unificação monetária desde a sua criação há dez anos. É difícil acreditar que agora, em meio a uma crise brutal, as instituições sejam reformadas tão rapidamente a ponto de acabar de imediato com a recessão. As medidas de unificação do regime fiscal são de implementação muito complexa e terão efeito, se efetivamente propostas, em um prazo muito longo. Já os pacotes de suporte da Espanha e da Itália são viáveis mas estão emperrados nas condicionalidades impostas pelos maiores emprestadores, os alemães. Já as medidas de incentivo a investimento e emprego, são de grande impacto, mas nunca fizeram parte da agenda até aqui.


Não conseguimos ver, portanto, a promessa europeia como algo viável.


Por fim, o cenário político grego, que trouxe alguma tranquilidade aos mercados ao definir um governo majoritário liderado por partidos que se comprometeram a implantar os ajustes exigidos pela troika. Aqui, uma vez mais, trataremos com uma boa intenção de curto prazo que tem enormes chances de dar errado no médio prazo. Todo o pacote de resgate grego, vale lembrar, destina-se ao pagamento das dívidas que o país tem com os bancos europeus. Em troca disso o país continuará a amargar uma enorme queda de sua renda, aumentando ainda mais os sofrimentos da população. É possível que o mercado se contente em deixar de lado o problema grego enquanto tenta equacionar o espanhol e o italiano. Mas esse problema voltará à agenda muito em breve. O governo recém eleito, apesar de ter a maioria formal do parlamento, não deverá contar com a simpatia da população que deverá voltar às ruas. O cenário mais provável para as próximas semanas é que a Grécia volte a ser o principal evento dos mercados globais, testando, uma vez mais, a disposição real das lideranças europeias em mantê-la no bloco.


A aparente tranquilidade dos mercados esconde um momento de parada que antecede um novo ciclo de forte volatilidade.


Pedro Paulo Silveira (Economista)
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