Os mercados globais
vivem uma sexta de muitos dados econômicos na maior parte dos países. Os dados
divulgados, todos muito importantes, apontam para o mesmo caminho: a
economia global está se desacelerando em sincronia. As políticas adotadas
na Europa e nos EUA mostraram-se erradas, ou insuficientes, e foram capazes de
arrastar as economias emergentes consigo. Após a Índia, que teve sua
expectativa de crescimento reduzida para pouco mais de 5% nesse ano, a China
mostra sinais claros de desaceleração mais forte do que o esperado. Não à toa,
os mercados estão derretendo nas principais praças globais.
Na Europa, a bolsa alemã
despenca três pontos percentuais, mostrando que a economia líder do continente
encontra-se diante de um sério problema. Ao liderar a política econômica atual,
baseada na compra da confiança dos mercados (resgate aos bancos e aperto
fiscal), encaminhou a Zona para um desemprego de 17,4 milhões de pessoas. E
esse número não considera as pessoas que desistiram de procurar emprego ou
estão empregadas de forma inadequada. Esse número supera os 25 milhões de
habitantes. A escolha de política mostra-se desastrosa e aponta um cenário
ainda mais complicado, de aumento do desemprego, recessão e turbulência
política. A Espanha, principal alvo da desconfiança global, assiste ao risco
país1 bater um novo recorde, com 547 p0ntos ou 5,47% de prêmio sobre
o título do tesouro alemão. A velocidade com que a deterioração atinge as expectativas
globais é uma função direta da total incapacidade das lideranças europeias
acenarem com um plano de salvamento das economias que efetivamente mostre uma
saída para a recessão.
Para a China foi anunciado
o índice PMI calculado pelo banco HSBC e ele veio em 48,4 em maior contra 49,3
em abril. Um número abaixo do 50 indica atividade industrial em queda e essa
foi a sétima queda do PMI chinês. A economia mais dinâmica do planeta mostra
como foi afetada pela desaceleração global, independente de sua taxa de juros,
de câmbio, do valor dos salários ou de sua carga tributária. Ela está ameaçada
pela falta de demanda global, que já vem reduzindo o ritmo de sua economia
desde o ano passado.
Nos EUA foi
divulgado o número de trabalhadores contratados no mês de maior e ele veio com
pífios 69 mil trabalhadores, ante uma expectativa de mercado ao redor de 150
mil. O número de abril também foi fortemente revisado para baixo, de 115 mil
para 77 mil. Essa dinâmica do mercado de trabalho mostra que a escolha de política
nos EUA também precisa ser revista e aqui encontramos, novamente, problemas. A
falta de unidade política, por conta do processo eleitoral, não vai permitir ao
governo Obama retomar os pacotes de estímulos antes das eleições. A
desaceleração da economia global deve continuar a empurrar a maior economia do
planeta para uma taxa de crescimento cada vez mais baixa e, talvez, para uma
contração, se nada for feito.
Aqui no Brasil o
IBGE anunciou o PIB do primeiro trimestre do ano e ele veio em 0,2%. Agora fica
impossível imaginar um crescimento superior a 3% para esse ano. Fazendo um
exercício simples, se o crescimento do segundo trimestre mantiver o mesmo ritmo
do primeiro e ficar em 0,2% e o terceiro e o quarto trimestres crescerem a uma
taxa anual de 4,5%, ou 1,13%, então o PIB do ano de 2012 fecharia com 1,5% de crescimento.
Mas, com um cenário global de recrudescimento das condições, é difícil imaginar
uma recuperação tão forte assim. A forma como nosso PIB vem se desacelerando,
desde o ano passado, indica que foi a desaceleração dos Investimentos que
comandou o atual estágio de estagnação econômica, encerrando o período de
recuperação iniciado no segundo trimestre de 2009 e que se sustentou fortemente
até o segundo de 2011. O gráfico abaixo mostra a evolução dos Investimentos:
As iniciativas do governo, no sentido de
tentar estimular a economia brasileira, são compreensíveis, já que é parte do
mandato político da presidente. Mas os resultados prováveis são limitados, posto
que a origem dessa desaceleração está na economia global e, provavelmente, não veremos
uma reversão do quadro tão cedo. Ao contrário, se acelerarmos muito a economia
local, o que é bem difícil, podemos aumentar ainda mais nosso déficit de transações
correntes, criando uma situação que pode ser percebida como indesejável pelos
agentes econômicos. Se isso ocorresse, os investimentos encontrariam ainda mais
limites para crescer no momento de recuperação.
A economia global lançou nessa “Super
Sexta” de dados econômicos a percepção de que o duplo mergulho já está
encomendado. Se os dirigentes globais não agirem rapidamente, o pior pode realmente
acontecer.
1 - Medido pela diferença entre o rendimento do título espanhol de dez anos e o de mesmo vencimento do tesouro alemão.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
3027-3101 Email: pedrosilveira@tov.com.br

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