terça-feira, 26 de junho de 2012

Na Europa, uma nova proposta para “salvar” o euro; no Brasil, o desencanto do investidor com o governo Dilma continua.




Dando continuidade à aparentemente infindável novela da agonia do euro, os presidentes de França, Espanha, Itália e Alemanha se reúnem hoje para apresentar um rascunho de proposta a ser apresentado à reunião da cúpula da União Europeia que se reúne na quinta e sexta feira para discutir, pela vigésima vez, literalmente, a crise de sua moeda. Depois que Chipre pediu resgate e que os mercados globais derreteram, os dirigentes desses quatro países viram boa motivação para voltar à mesa de trabalho na tentativa de materializar uma saída para a crise.


Desde que o euro foi proposto, quase três décadas atrás, houve uma série de discussões sobre a possibilidade teórica de formação de um bloco econômico com moeda única que sobrevivesse às fragilidades inerentes a esse tipo de arranjo e aos regimes democráticos que sustentavam a proposta política. O único acordo a que chegaram teóricos e políticos, foi o estabelecimento de metas fiscais para os países do bloco, que deveriam ser atingidas gradativamente e, após isso, não poderiam ser removidas. As propostas mais radicais apontavam na direção da unificação dos regimes fiscais, com o estabelecimento de um  tesouro único que financiasse a moeda. A meio caminho, as metas fiscais, sem tesouro único, sobreviveram até que a crise de 2008 varresse os sistemas bancários europeus e impusesse uma enorme deterioração das condições fiscais de cada participante da euro região. Todo o imbróglio a que estamos vendo pode ser reduzido à questão fiscal: quem arca com o ajuste dos tesouros locais que foram empurrados ao colapso a partir da crise.


Ainda que os diagnósticos possam ser diferentes, a crise fiscal é o ponto central da crise do euro. Ela tem origem na recessão imposta pela crise financeira global e nos programas de resgate ao sistema bancário. Mas a saída dela, como temos afirmado constantemente nesse relatório, poderá salvar o euro ou enterrá-lo definitivamente. A ideia de construção de um tesouro único é atraente mas não há como saber se ela será viabilizada a tempo de salvar a Espanha e a Itália do colapso. O mais correto, tudo indica, seria o acerto de uma enorme emissão monetária do euro, de sorte a aliviar as condições recessivas da região, e a construção de um programa de implantação de tal tesouro que se baseasse nas receitas decorrentes da recuperação econômica futura. A questão é que a distribuição dessas contribuições presentes e receitas futuras poderá implicar em uma disputa política que, em si, revela as dificuldades da união fiscal. Ninguém vai gostar de pagar a conta, ainda que todos saibam os enormes custos que ocorrerão por conta do fim do euro. A Alemanha, principal financiadora desse projeto, resiste muito à ideia de se “sacrificar pela falta de disciplina dos outros”. Mas ela é a maior beneficiária da instauração do euro (suas exportações têm como destino principal a zona do euro) e será a maior perdedora caso ele desapareça.


Apesar dos sinais de boa vontade, os dirigentes reunidos dificilmente encontrarão a solução que os mercados precisam, com urgência, para suportar a pressão sobre o euro. Essa reunião apresenta uma esperança, mas pode aumentar ainda mais a volatilidade. Para temperar a emoção, o tesouro espanhol fez uma emissão de títulos de sua dívida pagando taxas recorde, novamente. Adicionalmente, ontem à tarde, a Moody´s rebaixou as notas de crédito de 26 bancos do país.


Aqui no Brasil, o único indicador divulgado diz respeito a um assunto que vai se tornando cada vez mais secundário: a inflação. A FGV divulgou o IPC semanal e ele apresentou novamente desaceleração, ficando em 0,12%. À medida que a crise foi avançando, a importância da inflação ficou para trás e foi ganhando espaço, como não poderia deixar de ser, o crescimento econômico e o financiamento do déficit do setor externo. A queda da demanda global tem levado à queda das exportações e dos investimentos, com ambos afetando tanto a taxa de crescimento como a capacidade de financiamento do déficit externo. Se a economia continuar se agravando é muito provável que esses dois fatores, que já vêm causando mal estar nos investidores, tornem-se ainda mais decisivos. A discussão em torno do aumento da gasolina e do diesel, mal gerenciada pelo governo, acabou azedando ainda mais as expectativas em torno da Petrobrás. Nos últimos doze meses a Esso subiu 9%, enquanto o ADR da Petrobrás caiu 41%, abrindo um descolamento de 50% entre ações do mesmo setor. Esse é um indicador claro de que o mercado já vem punindo o Brasil pela adoção de suas práticas de política econômica. Independentemente dos acertos ou dos erros dessa política, a “aversão ao Brasil” pode estar na raiz da redução de nossa taxa de Investimentos. Valerá a pena acompanhar de perto a evolução desse cenário de “desencanto” com o governo Dilma Rousseff, seja pela questão do financiamento externo, seja pelo pela evolução dos Investimentos.


Nos EUA os indicadores continuam refletindo um comportamento decepcionante da economia que parece exigir, cada vez mais, novos pacotes de estímulo do Federal Reserve. Importante foi o índice de preços “Case-Schiller”, que é uma estimativa para os preços dos imóveis de vinte regiões metropolitanas do país. Após subir no mês de fevereiro, ele voltou a apresentar desaceleração em abril, ainda que tenha se mantido em terreno positivo. O indicador mostra que o setor imobiliário, centro da crise de 2008, ainda tem dificuldades para se recuperar. Abaixo o gráfico do índice, disponibilizado pela Bloomberg:
 




 
Também foi divulgado o índice de confiança do consumidor, medido pelo ‘Conference Board”, que veio em 62, abaixo do esperado (63,5) e do indicador de maio (64,9). O indicador de atividade industrial do FED de Richmond também veio abaixo do esperado e mostrando desaceleração, -3 contra uma expectativa de 5 e um indicador de 4 para maio.

Apesar dos dados ruins, o mercado ensaia uma recuperação, na esperança de boas notícias vindas da reunião dos europeus.





Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br

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