segunda-feira, 11 de junho de 2012

O pacote de resgate da Espanha.

Após toda uma semana de intensas negociações, a União Europeia anunciou um pacote de 100 bilhões de euros para resgatar o sistema bancário da Espanha. Ele foi suficiente para devolver alguma tranquilidade aos mercados globais, mas ele foi feito a contra a vontade do governo Rajoy. O governo espanhol tentou evitar o anúncio do pacote até o último instante, receoso de que ele pudesse mostrar o quão frágil é a situação do sistema bancário e o inevitável aumento da interferência europeia nos negócios domésticos espanhóis. Na prática, a Espanha viverá sob um regime de intervenção, com metas rígidas a serem cumpridas e muitas explicações a serem dadas à Troika ( União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional). As metas do pacto de estabilidade europeu se tornarão cada vez mais rígidas e isso pode agravar a situação da economia espanhola que sofre um desemprego de 25%. A intervenção europeia não é uma flexibilização da Europa, mas um passo claro em sua inflexibilidade. Apesar das altas das bolsas e do avanço do euro, a dívida espanhola voltou a cair, com o prêmio de risco subindo acima dos 500 pontos.

Além de tardio, o plano de resgate, de 100 bilhões de euros, foi feito da pior forma possível. Além de aumentar a rigidez da politica econômica da Espanha, que amarga uma contração do PIB e um desemprego de 25%, o resgate se concentra em salvar os acionistas dos bancos quebrados e seus credores. Foi feito nos mesmo moldes dos resgates anteriores e é um prêmio espetacular aos maus administradores. Os bancos que quebraram deveriam ser socorridos para evitar um colapso da economia espanhola, mas os seus acionistas deveriam pagar pelas apostas erradas que fizeram. O governo deveria intervir nos bancos, diluindo a participação acionária antiga, deveria sanear seus ativos e vende-los de novo ao setor privado. Tal como feito nos EUA, os acionistas antigos estão recebendo dinheiro de graça para recompor suas perdas, decorrentes de políticas de crédito mal direcionadas. Além disso, a Troika passará a exigir mais empenho do governo Rajoy no sentido de alcançar as metas fiscais que exigem enorme sacrifício em termos de produção e emprego. No final das contas, é a população que pagará por esse pacote que serve mais aos bancos europeus que à própria população espanhola.

Mas independentemente da distribuição de sacrifícios nesse programa, o fato é que ele prepara outro grande problema mais para a frente. Ao injetar recursos nos bancos quebrados, o governo espanhol não estará, necessariamente, disponibilizando recursos para as atividades produtivas. Ao contrário, é de se esperar que, em função de suas enormes perdas e da contração econômica, os bancos se tornem mais seletivos na concessão de novos créditos. Apesar da enorme injeção de recursos, em momentos de crise de crédito os bancos se tornam avessos aos riscos de crédito! O dinheiro ficará empossado nos bancos. O gráfico abaixo mostra o comportamento dos bancos americanos desde o início da crise de 2008. A Base Monetária é o passivo do banco central, a moeda emitida pela autoridade monetária. O M1 é o total de moeda em poder do público. A relação entre M1 e base monetária indica quanto de moeda está sendo emitida pelos bancos:




Como você pode notar, desde a crise a relação entre M1 e base monetária cara para algo como metade de seu valor histórico. Isso indica uma mudança de comportamento por parte dos bancos, que passaram a reter enormes quantidades de dinheiro em seus caixas, evitando repassá-los ao público, como forma de se protegerem de mais perdas em operações de crédito. A alternativa foi o enorme aumento dos ativos do Federal Reserve para compensar essa retração dos bancos. O FED tinha ativos de US$ 880 bilhões antes da crise e hoje tem algo como US$ 3 trilhões. Nos EUA a ação do FED conseguiu compensar a retração dos bancos e evitou uma recessão. Na Espanha, uma ação de expansão dessa maneira por parte do Banco da Espanha é impossível porque ele não consegue emitir moeda. A emissão de euros só pode ser feita pelo Banco Central Europeu. Assim, com bancos retraídos e com o BCE amarrado e com o governo central e os estados em cortes de despesas as ações apontam na direção de mais uma queda do PIB com aumento do desemprego. Ainda que tenham salvado os credores dos bancos espanhóis, a população ainda continuará a viver momentos de grande sofrimento.

O plano de resgate do sistema bancário espanhol aponta para um recrudescimento da política que tem levado a região à recessão e deve, em breve, piorar, novamente, as expectativas.

No Brasil o Focus mostra redução da expectativa de crescimento de 2,7% para 2,52%; nossa projeção caiu de 2.3% para 1,7%.

Essa semana deve ser de aumento do pessimismo em função da agenda econômica que não deve trazer dados positivos para a economia global.






Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br

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