terça-feira, 3 de julho de 2012

Otimismo no mundo e indústria ladeira abaixo no Brasil.


 
Desde sexta os mercados globais não param de melhorar por conta do acordo europeu para salvamento de sua moeda e, mais recente, pela crença de que o Banco Central Europeu irá fazer um novo relaxamento para dar suporte às medidas anunciadas na semana passada. Diga-se de passagem, é essa crença que tem sustentado os mercados. Não apenas as bolsas, mas os mercados de moedas e títulos têm apresentado melhora substancial. Abaixo o gráfico com as altas das principais bolsas, de sexta até hoje:




Apesar de não representar uma saída para a situação global, o pacote entusiasmou os mercados e acabou por melhorar o ambiente no curto prazo. É possível que esse movimento, que já ocorreu por ocasião do anúncio das operações LTRO do BCE em dezembro, dure mais alguns pregões. A desvalorização dos ativos globais, tudo indica, encontrou um ponto de parada.

Para dar uma ajuda ao otimismo, o principal dado econômico de hoje veio superando as expectativas. As encomendas à indústria, nos EUA, tiveram alta de 0,7% após caírem 0,6% em abril, superando as expectativas de alta de 0,1%. Na Espanha o ministério do trabalho anunciou uma criação de emprego recorde para o mês de junho, em decorrência da forte demanda para a estação de verão no país. Abaixo, gráfico da Bloomberg sobre os pedidos à indústria:




Abaixo gráfico do jornal El País sobre o total de desempregados, que apontou forte redução no mês de junho:




Mas se o mundo está inebriado com a perspectiva, duvidosa, de melhora das condições no curto prazo, aqui no Brasil o IBGE divulgou um resultado da produção industrial que marca, definitivamente, a nossa economia como parte do problema global, apesar de todas as medidas que o governo esteja tomando. A produção industrial de maio caiu 0,9% segundo a pesquisa industrial mensal, acumulando uma queda de 3,4% no ano. Todos os setores vem apresentando queda e a indústria vai colaborar decisivamente, junto com o setor externo, na performance do PIB de 2012 próxima à nossa projeção de 1,3% - 1,7%. O gráfico abaixo mostra o comportamento da indústria, desde 2007, passando pela crise de 2008:





Como pode ser observado, a indústria caiu 21% na crise de 2008, entre setembro e dezembro. Recuperou-se em quinze meses, após uma alta de 25%, entre dezembro de 2008 e maio de 2010. O maior valor da série foi obtido em maio de 2011 e dali caiu 6% ao nível de produção observado hoje.

 O que mais chama a atenção é que apesar de ter conseguido uma forte recuperação, a queda de 2008 foi muito violenta. Além disso, a recuperação não conseguiu se sustentar por muito tempo. Hoje o nível da produção industrial é o mesmo de janeiro de 2008. Olhando a produção industrial por categorias, vemos que o principal tombo foi o de bens de capital:




A produção de bens de capital reflete o comportamento dos Investimentos, que temos acompanhado de perto e que julgamos ser os principais responsáveis pela aceleração/desaceleração da economia. É fácil notar que a forte queda de 2008 foi seguida por uma recuperação que se esgotou e que se transformou em queda. Apesar do repique de 2012, ela voltou a ciar fortemente. Já o consumo, apontado por alguns como o grande vilão da crise, tem um comportamento mais moderado, tanto na queda como nas altas recentes.

Dessa forma a queda da produção industrial confirma um diagnóstico para a nossa desaceleração que contesta os diagnósticos feitos meses atrás por vários analistas, do governo inclusive:

·         A desaceleração ocorre por conta da queda dos investimentos;
·         Ela não se detém com as medidas pontuais que o governo possa tomar para mitiga-la;
·         A crise global, que tem seu âmago na Europa, é a causa fundamental para a desaceleração dos Investimentos.

Ainda faremos uma nova avaliação para saber se nossa projeção para o PIB de 2012 se mantém com essa produção industrial de maio. Mas é quase certo que o PIB do segundo trimestre não tem motivo algum para ser melhor que o do primeiro. Um ambiente de incertezas é o que reduz efetivamente os Investimentos, mais do que qualquer coisa que possa ser apontada por algum analista. O cenário atual tem mostrado o crescimento das incertezas, que acaba se refletindo no aumento da volatilidade dos indicares. Esse aumento da volatilidade, por sua vez, volta a gerar ainda mais incertezas. É dessa forma que o Estado de Confiança dos empresários vai sendo minado e se transforma em redução das decisões de Investimento. O crescimento do Brasil em 2012 ainda está com sua estimativa sem definição dado o ambiente de elevadas incertezas.



 
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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