A avalanche de dados ruins parece não
terminar. Hoje os dados de PMI - pesquisa que avalia as condições da economia,
feita por uma consultoria privada - saíram confirmando a piora contínua das
condições da economia europeia. Elas não
pouparam, inclusive, a Alemanha. Um número abaixo de 50 indica contração da atividade,
e o conjunto da zona do euro está em contração, com o índice em 46,4. Na Alemanha
o índice bateu 43,3 para a indústria e 47,3 para o composto (serviços e
indústria). O indicador prévio do PMI chinês foi divulgado na madrugada e veio
um pouco melhor que o anterior, subindo de 48,2 para 49,5, mas ainda abaixo dos
50. Para ajudar o cenário pessimista, a Moodys, agência de classificação de
riscos, rebaixou a perspectiva de notas para a Alemanha, Holanda e Luxemburgo.
Na Espanha, a Cataluña se juntou à província de Valencia e pediu socorro ao
fundo de resgate do governo central, indicando que está à beira da insolvência.
Os títulos da Espanha e da Itália continuam a cair fortemente, com o espanhol
batendo 7,6% para o bônus de dez anos.
Nos EUA, o PMI veio em 51,8, ante a uma
expectativa de 52,8 e abaixo dos 52,9 obtidos em maio. O indicador caminha
consistentemente para a contração, confirmando a tendência de todas as outras
medidas, que mostram que o EUA estão precisando de mais estímulos para evitar a
recessão.
Ainda que que as notícias sejam inquestionavelmente
ruins, hoje o mercado se concentrará, novamente, nos resultados corporativos. A
Apple divulgará o seu resultado, esperado em US$ 10,40 por ação e Du Pont em US$
1,47. Das grandes, Loockheed Martin surpreendeu para cima, vindo com US$ 2,77
ante o esperado de US$ 1,91 e Whirpool com US$ 1,55 ante US$ 1,64.
No Brasil, após a decepção com o lucro do
Bradesco, ontem, o mercado viu com otimismo a queda de 3% do lucro do Itaú
Unibanco e o papel sobe quase 4%. É importante ressaltar, uma vez mais, que a
forte alta do estoque de operações de crédito nos ativos dos bancos, e que hoje
chegam a 50% do PIB brasileiro, passa a atuar, agora, como um peso nas
condições econômicas. O aumento da inadimplência, resultante da desaceleração
da economia e do próprio aumento do estoque de crédito, reduz o apetite dos
bancos por novas operações e, assim, o aumento do estoque do crédito vai
diminuindo de velocidade, induzindo a uma desaceleração da taxa de crescimento
do consumo, sobretudo dos bens duráveis. Se a desaceleração da economia for
pior, levando a uma deterioração do mercado de trabalho, o crédito às pessoas
físicas piora exponencialmente e, junto com ele, piora os balanços dos bancos.
Se as empresas não conseguem reagir à desaceleração, elas mesmas passam a se
tornar inadimplentes, piorando, uma vez mais, as condições dos ativos
bancários. Esse ciclo, vicioso, tende a acontecer em todos os processos de desaceleração,
sendo piores na proporção direta da queda do nível de atividade, da taxa de
desemprego e da participação do crédito nos ativos dos bancos. É possível que a
piora da economia brasileira, arrastada pela crise global, tenha como fator de
aceleração esse ciclo, que foi positivo nos anos de expansão.
Tudo indica que caminhamos para uma
situação de “profecia auto realizada”, no qual as condições ruins das economias
europeias levam o mercado a piorá-las até o ponto em que há uma ruptura, como
foi o caso da Grécia. A piora dos indicadores econômicos e das condições de
mercado das dívidas soberanas, associados à ausência de governança global para
essa crise, tornam a “profecia” quase inevitável. Hoje, no entanto, o mercado parou para
respirar.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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