O IBGE divulgou hoje resultado da produção industrial de junho e
ela veio em 0,2%. As estimativas dos analistas ouvidos pela Bloomberg eram de
uma alta de 0,8%. Essa alta modesta encerra um ciclo de três quedas
consecutivas da indústria brasileira que, no ano, acumula queda de 3,2%. Uma
queda para um BRIC que passa a ter um comportamento de país da Zona do Euro. Se
levarmos em conta o índice acumulado do IBGE, a produção industrial brasileira
está no mesmo nível de novembro de 2007, depois de atravessar uma forte alta e
derreter em 2008, frente à crise global. De 2009 a 2010 a indústria subiu fortemente
e, a partir de então, vem caindo sistematicamente. Abaixo o gráfico do comportamento
da indústria, a partir do índice mensal da Pesquisa Mensal da Indústria, do
IBGE:
Do pico, de maio de 2011, até agora, a
indústria caiu 5,5%, com destaque para o setor de bens de capital que encolheu
12% nesse ano e 5,5% nos últimos doze meses (observar a área destacada do
gráfico). O comportamento do setor de
bens de capital reflete o encolhimento dos Investimentos, que após o forte
ciclo de alta, vêm apresentando quedas nas pesquisas do PIB Trimestral. Outra categoria
da produção industrial que teve forte contração no ano, é a de bens de consumo
duráveis, que apresentou retração de 9,4% no ano, em grande medida forçada pela
queda da produção automobilística.
A importância de indicador é que ele
dispara toda uma leva de discussões acerca da política econômica a ser adotada.
Ela incentiva o diagnóstico segundo o qual a produção industrial brasileira
pode estar sendo afetada pela taxa de câmbio, que está valorizada em relação a
outras moedas; pela carga tributária excessiva; pelos elevados salários pagos
no Brasil e, finalmente, pelos elevados custos trabalhistas. Esse diagnóstico
pode estar longe de ser correto (e de fato ele carece de comprovação
empírica!), mas o importante é que ele incentiva pressões fortes para que o
governo continue a praticar políticas de “estímulo” a setores pontuais da indústria.
Além de não servirem efetivamente para segurar a queda da produção industrial,
essas ações podem corroer um pouco a credibilidade da política econômica brasileira
que já vem em desgaste há alguns meses. Cabe ressaltar que em um mundo
globalizado como o nosso, o aumento da participação do setor externo em nossa
economia, que foi o “motor” do enorme crescimento visto nos últimos anos, é
responsável agora pela nossa “pequena crise” que levou a indústria à queda
nesse ano. Se queremos os benefícios da expansão global, quando ela ocorre,
temos que arcar com os custos da desaceleração global, que também ocorre. A “pequena
crise” da indústria brasileira é inevitável e é um sintoma previsível da crise
global.
Nos os dados divulgados são mistos,
alguns reforçando o otimismo quanto a um surto de recuperação, outros reforçando
a ideia de uma aceleração. Esse tipo de cenário é um pesadelo para Ben Bernanke
que hoje se reúne novamente para encerrar o Comitê de Política Monetária e
sinalizar algo para os mercados. Há um consenso no mercado que o FED esperará
um pouco mais antes de se decidir sobre a implantação do Quantitative Easing 3 (Q3). O Comitê aguardará o desenrolar da crise
europeia e a evolução da dinâmica da própria economia dos EUA. Dos dados que
vieram positivos destaca-se o número de contratações de pessoal no mês de
junho, divulgado pela ADP. O gráfico abaixo, da Bloomberg, mostra a evolução
das contratações mensais:
Ao surpreender o mercado positivamente
(eram esperadas 120 mil vagas e foram efetivamente criadas 163 mil) esse
indicador pode antecipar a pesquisa do Escritório de Pesquisa do Trabalho (BLS)
que mede o desemprego. Na sexta feira o BLS divulgará a pesquisa de junho e o
mercado espera a criação de 110 mil vagas. O mercado de trabalho é um dos
pontos mais sensíveis do momento atual nos EUA, já que não tem ocorrido uma evolução
positiva do mercado de trabalho, a ponto de recolocar todas as pessoa que estão
entrando no mercado e aquelas que foram retiradas no período mais agudo da
crise de 2007/2008. Esse dado da ADP fortalece, ao menos temporariamente, os
argumentos de quem não vê motivos para uma nova ação do FED para estimular a
economia.
Também foram divulgados os números de
pedidos de novas hipotecas, e ele veio com alta de 0,2%, retraindo-se em
relação à alta anterior de 0,9%. A pesquisa PMI-Indústria veio ruim, indicando
queda em relação à do mês de maio, com 51,4, contra 52,5. Esse número, abaixo
de 40, indica retração; é o quarto mês consecutivo de queda do indicador em
direção ao 50. Os gastos na construção vieram com alta inferior ao esperado
pelo mercado, com 0,4% ante 0,5%. Já a pesquisa ISM-Indústria veio ligeiramente
abaixo das expectativas, com 48,9 contra 50,1. É um número fraco, tanto pelo
seu patamar, como pela sua tendência. O gráfico abaixo mostra essa queda
contínua do índice:
Esse gráfico mostra que a indústria
americana também está se desacelerando, provavelmente impactada pela desaceleração
global e pelo esgotamento dos efeitos dos pacotes de estímulo dados pelo FED
(Q1, Q2 e operações Twist).
Na Europa os indicadores PMI vieram
apontando a contínua retração da indústria da Zona do Euro, com um número de
44. O PMI da Alemanha veio com 43. Eles mostram a importância do pacote que
está sendo costurado por Angela Merkel e o Mário Draghi.
A resposta do mercado a todas essas informações
é o ritmo de espera. Consolidou-se o sentimento de que o FED nada fará hoje,
dando apenas sinais em seu comunicado. Aumenta a necessidade de uma ação rápida
por parte da Comunidade Europeia para anunciar o pacote de resgate da Espanha e
da Itália. No Brasil, continuamos a receber as confirmações de que estamos em
desaceleração contínua.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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