quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Produção industrial do Brasil cai 3,8% em 2012.




O IBGE divulgou hoje  resultado da produção industrial de junho e ela veio em 0,2%. As estimativas dos analistas ouvidos pela Bloomberg eram de uma alta de 0,8%. Essa alta modesta encerra um ciclo de três quedas consecutivas da indústria brasileira que, no ano, acumula queda de 3,2%. Uma queda para um BRIC que passa a ter um comportamento de país da Zona do Euro. Se levarmos em conta o índice acumulado do IBGE, a produção industrial brasileira está no mesmo nível de novembro de 2007, depois de atravessar uma forte alta e derreter em 2008, frente à crise global. De 2009 a 2010 a indústria subiu fortemente e, a partir de então, vem caindo sistematicamente. Abaixo o gráfico do comportamento da indústria, a partir do índice mensal da Pesquisa Mensal da Indústria, do IBGE:






Do pico, de maio de 2011, até agora, a indústria caiu 5,5%, com destaque para o setor de bens de capital que encolheu 12% nesse ano e 5,5% nos últimos doze meses (observar a área destacada do gráfico).  O comportamento do setor de bens de capital reflete o encolhimento dos Investimentos, que após o forte ciclo de alta, vêm apresentando quedas nas pesquisas do PIB Trimestral. Outra categoria da produção industrial que teve forte contração no ano, é a de bens de consumo duráveis, que apresentou retração de 9,4% no ano, em grande medida forçada pela queda da produção automobilística.
A importância de indicador é que ele dispara toda uma leva de discussões acerca da política econômica a ser adotada. Ela incentiva o diagnóstico segundo o qual a produção industrial brasileira pode estar sendo afetada pela taxa de câmbio, que está valorizada em relação a outras moedas; pela carga tributária excessiva; pelos elevados salários pagos no Brasil e, finalmente, pelos elevados custos trabalhistas. Esse diagnóstico pode estar longe de ser correto (e de fato ele carece de comprovação empírica!), mas o importante é que ele incentiva pressões fortes para que o governo continue a praticar políticas de “estímulo” a setores pontuais da indústria. Além de não servirem efetivamente para segurar a queda da produção industrial, essas ações podem corroer um pouco a credibilidade da política econômica brasileira que já vem em desgaste há alguns meses. Cabe ressaltar que em um mundo globalizado como o nosso, o aumento da participação do setor externo em nossa economia, que foi o “motor” do enorme crescimento visto nos últimos anos, é responsável agora pela nossa “pequena crise” que levou a indústria à queda nesse ano. Se queremos os benefícios da expansão global, quando ela ocorre, temos que arcar com os custos da desaceleração global, que também ocorre. A “pequena crise” da indústria brasileira é inevitável e é um sintoma previsível da crise global.

Nos os dados divulgados são mistos, alguns reforçando o otimismo quanto a um surto de recuperação, outros reforçando a ideia de uma aceleração. Esse tipo de cenário é um pesadelo para Ben Bernanke que hoje se reúne novamente para encerrar o Comitê de Política Monetária e sinalizar algo para os mercados. Há um consenso no mercado que o FED esperará um pouco mais antes de se decidir sobre a implantação do Quantitative Easing 3 (Q3). O Comitê aguardará o desenrolar da crise europeia e a evolução da dinâmica da própria economia dos EUA. Dos dados que vieram positivos destaca-se o número de contratações de pessoal no mês de junho, divulgado pela ADP. O gráfico abaixo, da Bloomberg, mostra a evolução das contratações mensais:







Ao surpreender o mercado positivamente (eram esperadas 120 mil vagas e foram efetivamente criadas 163 mil) esse indicador pode antecipar a pesquisa do Escritório de Pesquisa do Trabalho (BLS) que mede o desemprego. Na sexta feira o BLS divulgará a pesquisa de junho e o mercado espera a criação de 110 mil vagas. O mercado de trabalho é um dos pontos mais sensíveis do momento atual nos EUA, já que não tem ocorrido uma evolução positiva do mercado de trabalho, a ponto de recolocar todas as pessoa que estão entrando no mercado e aquelas que foram retiradas no período mais agudo da crise de 2007/2008. Esse dado da ADP fortalece, ao menos temporariamente, os argumentos de quem não vê motivos para uma nova ação do FED para estimular a economia.

Também foram divulgados os números de pedidos de novas hipotecas, e ele veio com alta de 0,2%, retraindo-se em relação à alta anterior de 0,9%. A pesquisa PMI-Indústria veio ruim, indicando queda em relação à do mês de maio, com 51,4, contra 52,5. Esse número, abaixo de 40, indica retração; é o quarto mês consecutivo de queda do indicador em direção ao 50. Os gastos na construção vieram com alta inferior ao esperado pelo mercado, com 0,4% ante 0,5%. Já a pesquisa ISM-Indústria veio ligeiramente abaixo das expectativas, com 48,9 contra 50,1. É um número fraco, tanto pelo seu patamar, como pela sua tendência. O gráfico abaixo mostra essa queda contínua do índice:







Esse gráfico mostra que a indústria americana também está se desacelerando, provavelmente impactada pela desaceleração global e pelo esgotamento dos efeitos dos pacotes de estímulo dados pelo FED (Q1, Q2 e operações Twist).

Na Europa os indicadores PMI vieram apontando a contínua retração da indústria da Zona do Euro, com um número de 44. O PMI da Alemanha veio com 43. Eles mostram a importância do pacote que está sendo costurado por Angela Merkel e o Mário Draghi.

A resposta do mercado a todas essas informações é o ritmo de espera. Consolidou-se o sentimento de que o FED nada fará hoje, dando apenas sinais em seu comunicado. Aumenta a necessidade de uma ação rápida por parte da Comunidade Europeia para anunciar o pacote de resgate da Espanha e da Itália. No Brasil, continuamos a receber as confirmações de que estamos em desaceleração contínua.


 


Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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