quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A crise europeia e o burrinho pedrês.



O uso de alegorias para se referir a um tema teórico é, no mais das vezes, tão reducionista que acaba por levar ao fracasso de sua missão. Antes de esclarecer -pela simplificação - ele acaba por confundir e, algumas vezes, levar ao engano. A política é célebre em produzir casos de alegorias, todos os dias, nos discursos de nossos dirigentes. O ex presidente Lula usou à exaustão a alegoria do futebol para explicar sua concepção de política econômica e, antes dele, o ex presidente Fernando Henrique se fartou com esse recurso retórico através da medicina. Ora um formulador de política era um goleiro, um zagueiro ou um técnico de futebol e a economia, um campeonato a ser conquistado. Ora ele era encarnado em um clínico geral que trataria a economia, sua paciente, doente, com remédios ou coisa que o valha. Recentemente Barak Obama desferiu um golpe e tanto nos republicanos ao chamar Mitt Romney de “Romney-Hood”, para “provar” que sua proposta de política fiscal era a de um Robin Hood às avessas, tributando os mais pobres para subsidiar os mais ricos.

Mas se a situação europeia merece uma alegoria, talvez ela devesse ser remetida ao conto de Guimarães Rosa que todos lemos em nossa formação colegial, o “Burrinho Pedrês”, do livro Sagarana. A saga do velho burrinho Sete Ouros e a tropa de boiadeiros cabe perfeitamente para explicar o desenvolvimento da crise europeia, seja pelo sofrimento que impõe ao povo europeu, seja pela forma que seus dirigentes têm conduzido a questão. O velho burrinho é, com certeza, em sua velhice e seu saber profundos, o povo europeu que sucumbe diariamente à torturante incapacidade dos dirigentes políticos e formuladores de política econômica em propor uma solução eficiente para retirar a Europa do abismo. Se hoje, depois de assegurar que iria tomar decisões firmes para garantir a situação do euro, o BCE emite um relatório dizendo que a solução só depende da vontade dos países em fazer reformas estruturais, então ele se assemelha aos boiadeiros que conduziram a tropa ao desastre monumental narrado por Rosa. É tentador comparar Angela Merkel ao Major Saulo, o presidente do banco central alemão, Jens Weidmann a João Nanico e o presidente do BCE, Mario Draghi, a Francolim. Os homens, no conto, com todo o seu poder e autoridade, condenaram-se à tragédia, contrariando o saber pedestre do velho burrico. Os dirigentes europeus têm insistido em levar seu burrico, o velho povo europeu, por caminhos sabidamente desastrosos e ignoram, de forma petulante até, todas as evidências de seu fracasso.

Tudo isso, contrariando o estilo normal do Comentário, para comentar que o BCE acabou de anunciar mais um passo decisivo na direção oposta a que era esperada: o BCE não tem nenhuma ação pronta para sustentar as dívidas soberanas. Ao contrário, ele jogou de volta no colo de cada país, a responsabilidade pelo ajuste e com uma receita mortal para as esperanças de recuperação econômica global. O BCE, em coro com Merkel, Weidmann e vários políticos do Grupo Europeu, retira o dinheiro da mesa e sugere aos países que façam ajustes fiscais (aumento de impostos e tarifas públicas, cortes de gastos e redução de salários do funcionalismo) e reformas trabalhistas (para, supostamente, aumentar a competitividade europeia). O que o BCE está dizendo, de forma elegante, é que ele jogou cada país à sua própria sorte.

É difícil saber, por ora, porque o BCE sinalizou com isso em seu boletim bimensal. Mario Draghi, o Super Mario, havia prometido uma ação firme no dia 24de julho. De lá para cá a confiança dos mercados subiu e pôs as bolsas para cima, com altas de 15% em alguns casos, como colocamos no relatório de ontem. Se isso for, realmente, a política que o BCE tem a oferecer, então os preços estão fora de seu lugar e exigem uma forte correção. Pela atitude do mercado, que desprezou o sinal dado pelo Boletim Bimensal do BCE, todos esperam pela ação do BCE. Mas ela não veio e não há um sinal sequer de que ela virá.

No conto, pela estupidez dos tropeiros, morrem oito vaqueiros. No caso da crise europeia, estamos no limite de uma situação que, potencialmente, pode se confirmar como o maior desastre econômico desde 2007/2008. Mantemos nosso ceticismo em relação ao nível de preços atual.







Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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