quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A euforia internacional continua. No Brasil a inflação acelera mais uma vez.




Os últimos pregões vêm confirmando a tendência dos agentes em “comprarem” a estabilização da Europa sem que o BCE tenha conseguido algum progresso nesse sentido. Ao contrário, sinais dados pela Alemanha, têm sido no sentido de dificultar qualquer ação no curto prazo. Nos EUA cresce a tese de que a economia está melhorando, como mostram os resultados corporativos e desprezando-se os insistentes sinais de que a economia continua patinando em direção a uma desaceleração considerável. Hoje o presidente do FED de Dallas discursou e avisou que os bancos centrais estão limitados em sua capacidade de produzir mais estímulos às economias.

Na Europa continuam a pulular as notícias ruins para a economia. Além das quedas na produção industrial, agora os bancos centrais estão revisando para baixo suas expectativas para o crescimento de suas economias. Ontem o Banco da Itália reduziu a projeção de crescimento do PIB italiano para queda de 2% em 2012. Hoje o Banco da Inglaterra reduziu sua estimativa para 1%, ante o anterior de 1,7% e o Banco da França falou em recessão a partir do terceiro trimestre, com duas quedas consecutivas de -0,1% no segundo e terceiro trimestres do ano. Já a Alemanha anunciou contração na produção industrial de junho em 0,9%.  Os mercados, no entanto, continuam bem otimistas com o desenrolar da crise. As bolsas tiveram os comportamentos abaixo:





Como se vê, desde o anúncio de Mario Draghi - segundo o qual o BCE faria o possível para solucionar os problemas atuais - as bolsas subiram fortemente. Destaque para Brasil, Espanha, França e Itália. Isso foi no dia 24 de julho, dez pregões atrás. Já os dois países mais industrializados e com maior peso global, EUA e Alemanha, acumulam altas de países que estão inseridos em um ciclo de forte crescimento econômico. EUA  com alta de 11% e Alemanha com 17%.

Com esses dados é impossível desconsiderar a hipótese de que o otimismo, talvez, esteja sendo excessivo demais...

No Brasil IBGE e FGV divulgaram seus índices inflacionários e eles tendem a confirmar que a política monetária no Brasil viverá, uma vez mais, um pesadelo bem particular. Após assistirmos a desaceleração dos índices de inflação, eles voltam a subir fortemente. O IGP-M, um índice para lá de polêmico do ponto de vista conceitual, nos dá uma dica do que vem pela frente. Em apenas dez dias ele subiu 1,21%, com forte destaque para o comportamento do milho (18%), café (6%) e soja (10%). O IPA (atacado) agrícola subiu 4,39% entre 20 e 30 de julho. E ainda tivemos uma forte colaboração dos preços de minério de ferro (-2,5%)e bovinos (-1,3%). Como falamos em nosso relatório de segunda, essa alta reflete a quebra da safra dos EUA e vai se agravar. Ela ainda não atingiu os consumidores (o IPC veio em 0,08%), mas vai atingir.

Já o IPCA do IBGE, índice utilizado pelo BC, a história ainda é outra. A inflação medida em julho subiu 0,43%, depois de ficar em 0,08% em junho. O destaque de peso foi o tomate: alta de 11,5% no mês, no que foi seguido pela cenoura, o alho, o feijão preto, o mulatinho e as hortaliças. O grupo alimentação, com peso de 23% no IPCA veio com 0,93%. Habitação subiu 0,51%, pressionado pelos aluguéis e os serviços pessoais tiveram a forte contribuição do aumento dos empregados domésticos (1,37%). Os combustíveis contribuíram negativamente para o índice (-0,65%), fazendo com que o grupo transportes ficasse em -0,03%.

Evidentemente o tomate, a cenoura, os feijões, o alho e as hortaliças voltarão a cair ao longo do ano, fazendo pressão para que o grupo alimentação caia novamente. Mas todos os outros itens, como comentado segunda feira, começarão a exercer forte pressão altista. O forte choque de oferta de grãos vai atingir os preços dos alimentos em breve. A contribuição baixista do grupo transportes vai cessar e inverter o sinal: os combustíveis, inclusive o álcool, devem subir. A inflação começará a andar mais rápido, pressionada pelos preços internacionais de grãos e petróleo, pela desvalorização do real frente ao dólar e pelo esgotamento da capacidade do governo em jogar prejuízos na Petrobrás.  Abaixo um quadro onde podem ser vistos os valores acumulados no ano nos principais grupos:





A pressão que os preços internacionais exercerão sobre nossa inflação será grande, independente da situação do crescimento global. Esse choque de preços continuará até 2014 e continuará a puxar a inflação para cima. Diante disso, e da enorme euforia dos mercados globais, não causará surpresa se as estimativas de inflação começaram a subir e, junto com elas, a taxa Selic para o fim do ano.










Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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