segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Acomodando as expectativas.




Hoje o relatório Focus, do Banco Central, informa que a mediana das expectativas para o crescimento de 2012 caiu para 1,75%. A produção industrial segundo informa o Focus vai cair 1,2% no ano. O mergulho das expectativas aconteceu, é bom que se diga, com grande defasagem de tempo. O mercado até demorou para revisar as suas estimativas para 2012, começando o ano com um crescimento perto de 3,5%. Somente agora, no final do primeiro semestre que houve forte queda, de 1,5%. Abaixo o gráfico da evolução das expectativas do crescimento de 2012:





O número está em 1,75%, e para que ele efetivamente ocorra, é necessário que os três trimestres restantes para a divulgação sejam fortes. Ocorre que esperar que a economia simplesmente se recupere, sem que nada de efetivo tenha ocorrido no ambiente que causou a desaceleração é pouco razoável. E esse é o ponto: a Europa e os EUA ainda carecem de eventos que nos permitam vislumbrar a inflexão do cenário, apesar do mercado ter antecipado isso nos preços.

A queda da produção industrial, uma das principais causas para a desaceleração de nossa economia, tem ocorrido em todo o mundo e de forma acentuada. Ela reflete a desaceleração na Europa, região que é grande consumidora desse segmento. A forte queda na renda afeta de forma direta e indireta a demanda local por produtos industrializados. E tem sido difícil para os economistas explicarem exatamente os efeitos da crise europeia sobre as suas próprias economias. Paul Krugman, vários meses atrás comemorava o fato da economia americana ter pouca dependência da demanda europeia. Dessa forma, pensava o Nobel de economia especializado em economia internacional, a desaceleração Europa não prejudicaria a dinâmica dos EUA, mais dependente de outras regiões, como América Latina e Ásia. Ele reviu essa afirmação pouco depois, com os dados decepcionantes do crescimento no primeiro semestre. Na semana passada os economistas do FED de Saint Louis divulgaram artigo mostrando a baixa dependência das exportações americanas do mercado europeu. Se uma queda nas importações europeias ocorre, elas podem ser compensadas pelo crescimento “robusto’ das importações de emergentes. “Se” a crise afeta, ela o faz por outros canais, como o de capitais ou bancário.

Mas o fato é que quando a demanda global cai, puxada pela recessão europeia, a taxa de crescimento das exportações totais cai. A ideia de que a queda de uma região pode ser compensada pela alta de outra está mais do que descartada com a constatação de que a China está com sua economia em desaceleração. No mundo “super” globalizado de hoje, a queda da Europa afeta a China e ela afeta os EUA, por exemplo. Ganha peso adicional,  o fato de ser a Europa um mercado de altíssimo poder aquisitivo e, por conta disso, fortemente comprador de produtos industrializados. A recessão europeia desacelera a produção industrial em todo o mundo. O que talvez ocorra com mais intensidade, é uma distribuição desigual dos efeitos dessa recessão no curto prazo. No longo prazo, com a grande mobilidade do comércio internacional, sofrerão menos os países que tiverem melhores preços relativos. Os EUA não parecem ser os mais bem posicionados para “levar a melhor” daqui para a frente. Países com salários mais baixos e com taxas de câmbio mais desvalorizadas, deverão sofrer menos. Mas ninguém sai ileso desse quadro. A recessão da Europa é decisiva para a produção industrial global e ninguém poderá compensá-la.

A semana começa com os agentes econômicos pensando um pouco mais a respeito da viabilidade do socorro “sonhado” nas últimas semanas. Nenhum político da União Europeia trouxe novidades nesse final de semana.

Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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