Hoje o relatório Focus, do Banco Central,
informa que a mediana das expectativas para o crescimento de 2012 caiu para
1,75%. A produção industrial segundo informa o Focus vai cair 1,2% no ano. O
mergulho das expectativas aconteceu, é bom que se diga, com grande defasagem de
tempo. O mercado até demorou para revisar as suas estimativas para 2012,
começando o ano com um crescimento perto de 3,5%. Somente agora, no final do
primeiro semestre que houve forte queda, de 1,5%. Abaixo o gráfico da evolução
das expectativas do crescimento de 2012:
O número está em 1,75%, e para que ele
efetivamente ocorra, é necessário que os três trimestres restantes para a
divulgação sejam fortes. Ocorre que esperar que a economia simplesmente se
recupere, sem que nada de efetivo tenha ocorrido no ambiente que causou a desaceleração
é pouco razoável. E esse é o ponto: a Europa e os EUA ainda carecem de eventos
que nos permitam vislumbrar a inflexão do cenário, apesar do mercado ter
antecipado isso nos preços.
A queda da produção industrial, uma das principais
causas para a desaceleração de nossa economia, tem ocorrido em todo o mundo e
de forma acentuada. Ela reflete a desaceleração na Europa, região que é grande
consumidora desse segmento. A forte queda na renda afeta de forma direta e
indireta a demanda local por produtos industrializados. E tem sido difícil para
os economistas explicarem exatamente os efeitos da crise europeia sobre as suas
próprias economias. Paul Krugman, vários meses atrás comemorava o fato da economia
americana ter pouca dependência da demanda europeia. Dessa forma, pensava o Nobel
de economia especializado em economia internacional, a desaceleração Europa não
prejudicaria a dinâmica dos EUA, mais dependente de outras regiões, como
América Latina e Ásia. Ele reviu essa afirmação pouco depois, com os dados
decepcionantes do crescimento no primeiro semestre. Na semana passada os
economistas do FED de Saint Louis divulgaram artigo mostrando a baixa
dependência das exportações americanas do mercado europeu. Se uma queda nas
importações europeias ocorre, elas podem ser compensadas pelo crescimento “robusto’
das importações de emergentes. “Se” a crise afeta, ela o faz por outros canais,
como o de capitais ou bancário.
Mas o fato é que quando a demanda global
cai, puxada pela recessão europeia, a taxa de crescimento das exportações totais
cai. A ideia de que a queda de uma região pode ser compensada pela alta de
outra está mais do que descartada com a constatação de que a China está com sua
economia em desaceleração. No mundo “super” globalizado de hoje, a queda da
Europa afeta a China e ela afeta os EUA, por exemplo. Ganha peso
adicional, o fato de ser a Europa um
mercado de altíssimo poder aquisitivo e, por conta disso, fortemente comprador
de produtos industrializados. A recessão europeia desacelera a produção
industrial em todo o mundo. O que talvez ocorra com mais intensidade, é uma
distribuição desigual dos efeitos dessa recessão no curto prazo. No longo
prazo, com a grande mobilidade do comércio internacional, sofrerão menos os
países que tiverem melhores preços relativos. Os EUA não parecem ser os mais
bem posicionados para “levar a melhor” daqui para a frente. Países com salários
mais baixos e com taxas de câmbio mais desvalorizadas, deverão sofrer menos.
Mas ninguém sai ileso desse quadro. A recessão da Europa é decisiva para a
produção industrial global e ninguém poderá compensá-la.
A semana começa com os agentes econômicos
pensando um pouco mais a respeito da viabilidade do socorro “sonhado” nas
últimas semanas. Nenhum político da União Europeia trouxe novidades nesse final
de semana.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
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