Com as cotações recentes, a Bovespa pode
fechar com alta de 2,6% na semana e o S&P500 em +0,7%. As quedas de hoje
vieram na esteira das divulgações de dados de atividade na Ásia, com destaque
para a desaceleração das exportações e importações da China. Esse dado, um
dentre vários, confirma que as dinâmicas economias emergentes do continente
estão sendo contaminadas pela recessão europeia e pela desaceleração dos EUA.
Em linha com isso, a França divulgou que a sua produção industrial recuou 0,6%
no segundo trimestre e o emprego industrial no Brasil, segundo o IBGE, caiu
0,2% em junho, acumulando queda de 1,2% no ano. Na semana, como um todo, não
houve nenhuma notícia positiva acerca dos estímulos a serem executados pelos
bancos centrais e as economias continuaram a mostrar desaceleração. Mesmo assim
as bolsas fecham em alta semanal. O que motiva esse otimismo?
Várias instituições globais estão
recomendando fortemente a compra de ações. A tese é a de que os EUA já exibem
sinais de recuperação, liderada pelo setor imobiliário e que os resultados
corporativos confirmam que a saúde das empresas americanas está em ordem.
Some-se a esse cenário promissor, a enorme liquidez internacional, que conta
com juros muito baixos até 2014. No final da análise, está aquela ideia de que
tudo que cai tem que subir, algum dia. Claro que essas instituições globais têm
tamanho suficiente para forçar as altas das bolsas (e de commodities) por algum tempo. Essa alta, inclusive, poderia ajudar
a melhorar o estado de confiança e induzir à retomada dos investimentos
globais. Mas tudo indica que o componente principal desse movimento é a
especulação acerca do “provável” estímulo que estaria sendo articulado
globalmente pelos bancos centrais. De fato, se essa política for implementada
de forma coordenada, assistiremos a um salto formidável das expectativas.
Ocorre que todos os sinais emitidos por todos os importantes agentes desse
evento global desautorizam a esperança em uma ação tão cedo. Ao contrário,
se houve algo importante nessa semana, foi a formalização por parte do BCE de
que ele retirou seu otimismo quanto à possibilidade de implementar mais algumas
medidas de aumento da liquidez.
Se essa semana teve algo de importante,
foi o de “carimbar” a recente alta global das bolsas como um evento altamente
especulativo.
Supondo que as instituições globais, que
estão otimistas quanto à recuperação estejam certas, quando os pacotes saírem, podemos ver mais altas fortes nas bolsas. Esse
potencial de alta, up side, em grande
medida já foi antecipado a partir do discurso de Mário Draghi em 24 de julho. O
potencial de mais altas pode estar sendo super estimado. Por outro lado, se os
pacotes não saírem, o potencial de queda das bolsas globais é difícil de ser
estimado. O down side de um abandono
oficial dos bancos centrais é um número que poucos conseguem estabelecer. Se a relação
entre o up side e o down side não é tangível, então os
riscos assumidos pelos agentes também não são. Podemos supor, a partir disso,
que o movimento atual de alta, embute um componente especulativo potencialmente
tóxico para o futuro. As mesmas instituições que nos levaram ao colapso de
2007/2008, podem estar nos encaminhando para algo não tão bom nesse futuro
próximo: estão usando o dinheiro barato que arrecadaram para estimular suas
economias, em apostas altamente especulativas nos ativos globais.
A tese que colocamos na mesa hoje – e que
é defendida por vários economistas há algum tempo – é que os grandes bancos
globais estão altamente líquidos, após os fantásticos pacotes de benefícios
recebidos de seus tesouros e bancos centrais,
e estão usando essa liquidez para construir outro castelo de cartas.
O primeiro deles foi o das dívidas soberanas
da Europa. Após a crise, com muito dinheiro em caixa, os bancos substituíram os
ativos de crédito (imobiliário, cartão de crédito, automóveis, etc) pelas
dívidas dos países europeus (como Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, etc) que
pagavam bons retornos. A chegada da crise da dívida europeia levou os bancos a
amargarem enormes perdas patrimoniais e foram elas que dispararam os pacotes de
estabilização que ocorreram de 2010 até agora. Estabilizar as dívidas era
necessário para salvar os bancos, novamente.
Agora, com o fim do “namoro” com as
dívidas soberanas, os bancos estão “comprando” a recuperação global com apostas
fortes nas bolsas.
Como no caso das estripulias do setor
imobiliário (que estouraram em2007/8) e das dívidas europeias, esse tipo de
comportamento, descolado dos fundamentos econômicos pode estar expondo, mais
uma vez, a economia global a um problema que agravará, um pouco mais, o complicado
estado de confiança do agentes globais. Definitivamente, se os bancos centrais
não aumentarem a liquidez, poderemos assistir a mais um evento global nada
emocionante; novamente, os bancos globais estão brincando com fogo.
Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11
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