sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os bancos globais estimulam a especulação.


Com as cotações recentes, a Bovespa pode fechar com alta de 2,6% na semana e o S&P500 em +0,7%. As quedas de hoje vieram na esteira das divulgações de dados de atividade na Ásia, com destaque para a desaceleração das exportações e importações da China. Esse dado, um dentre vários, confirma que as dinâmicas economias emergentes do continente estão sendo contaminadas pela recessão europeia e pela desaceleração dos EUA. Em linha com isso, a França divulgou que a sua produção industrial recuou 0,6% no segundo trimestre e o emprego industrial no Brasil, segundo o IBGE, caiu 0,2% em junho, acumulando queda de 1,2% no ano. Na semana, como um todo, não houve nenhuma notícia positiva acerca dos estímulos a serem executados pelos bancos centrais e as economias continuaram a mostrar desaceleração. Mesmo assim as bolsas fecham em alta semanal. O que motiva esse otimismo?

Várias instituições globais estão recomendando fortemente a compra de ações. A tese é a de que os EUA já exibem sinais de recuperação, liderada pelo setor imobiliário e que os resultados corporativos confirmam que a saúde das empresas americanas está em ordem. Some-se a esse cenário promissor, a enorme liquidez internacional, que conta com juros muito baixos até 2014. No final da análise, está aquela ideia de que tudo que cai tem que subir, algum dia. Claro que essas instituições globais têm tamanho suficiente para forçar as altas das bolsas (e de commodities) por algum tempo. Essa alta, inclusive, poderia ajudar a melhorar o estado de confiança e induzir à retomada dos investimentos globais. Mas tudo indica que o componente principal desse movimento é a especulação acerca do “provável” estímulo que estaria sendo articulado globalmente pelos bancos centrais. De fato, se essa política for implementada de forma coordenada, assistiremos a um salto formidável das expectativas. Ocorre que todos os sinais emitidos por todos os importantes agentes desse evento global desautorizam a esperança em uma ação tão cedo. Ao contrário, se houve algo importante nessa semana, foi a formalização por parte do BCE de que ele retirou seu otimismo quanto à possibilidade de implementar mais algumas medidas de aumento da liquidez.

Se essa semana teve algo de importante, foi o de “carimbar” a recente alta global das bolsas como um evento altamente especulativo.

Supondo que as instituições globais, que estão otimistas quanto à recuperação estejam certas, quando os pacotes saírem,  podemos ver mais altas fortes nas bolsas. Esse potencial de alta, up side, em grande medida já foi antecipado a partir do discurso de Mário Draghi em 24 de julho. O potencial de mais altas pode estar sendo super estimado. Por outro lado, se os pacotes não saírem, o potencial de queda das bolsas globais é difícil de ser estimado. O down side de um abandono oficial dos bancos centrais é um número que poucos conseguem estabelecer. Se a relação entre o up side e o down side não é tangível, então os riscos assumidos pelos agentes também não são. Podemos supor, a partir disso, que o movimento atual de alta, embute um componente especulativo potencialmente tóxico para o futuro. As mesmas instituições que nos levaram ao colapso de 2007/2008, podem estar nos encaminhando para algo não tão bom nesse futuro próximo: estão usando o dinheiro barato que arrecadaram para estimular suas economias, em apostas altamente especulativas nos ativos globais.

A tese que colocamos na mesa hoje – e que é defendida por vários economistas há algum tempo – é que os grandes bancos globais estão altamente líquidos, após os fantásticos pacotes de benefícios recebidos de seus tesouros e bancos centrais,  e estão usando essa liquidez para construir outro castelo de cartas.

O primeiro deles foi o das dívidas soberanas da Europa. Após a crise, com muito dinheiro em caixa, os bancos substituíram os ativos de crédito (imobiliário, cartão de crédito, automóveis, etc) pelas dívidas dos países europeus (como Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, etc) que pagavam bons retornos. A chegada da crise da dívida europeia levou os bancos a amargarem enormes perdas patrimoniais e foram elas que dispararam os pacotes de estabilização que ocorreram de 2010 até agora. Estabilizar as dívidas era necessário para salvar os bancos, novamente.

Agora, com o fim do “namoro” com as dívidas soberanas, os bancos estão “comprando” a recuperação global com apostas fortes nas bolsas.

Como no caso das estripulias do setor imobiliário (que estouraram em2007/8) e das dívidas europeias, esse tipo de comportamento, descolado dos fundamentos econômicos pode estar expondo, mais uma vez, a economia global a um problema que agravará, um pouco mais, o complicado estado de confiança do agentes globais. Definitivamente, se os bancos centrais não aumentarem a liquidez, poderemos assistir a mais um evento global nada emocionante; novamente, os bancos globais estão brincando com fogo.


Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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