segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A inflação vai retomando o seu lugar.



Estamos divididos entre dois cenários: ou o mundo cai definitivamente em uma forte desaceleração - detonada pelo aprofundamento da crise europeia - ou retoma o crescimento, caso os dirigentes europeus anunciem uma saída. Os dois cenários são extremos, um admitindo uma forte queda na produção global e elevação brutal do desemprego, o outro com uma recuperação forte nos EUA e nos emergentes. Em ambos os casos, no entanto, o preço internacional das commodities será elevado. É claro que na hipótese de uma recuperação global, os preços subirão muito mais fortemente que no cenário alternativo. Mas em ambos continuaremos a ver um patamar de preços muito elevado.

O impacto desse cenário, de alta forte nos preços internacionais de commodities, sobre economia brasileira vem ocorrendo a partir da elevação do Índice de Preços ao Atacado (IPA) e pode chegar aos consumidores nas próximas semanas. Já destacamos que o potencial de contágio é elevado para os preços dos alimentos, incluindo as carnes (aves e suínos), e dos combustíveis. Levando-se em conta o peso elevado desses itens sobre a inflação, podemos considerar que teremos um índice mais elevado do que imaginávamos no início do ano, antes da quebra recorde da safra dos EUA.

Nos últimos dois anos a alta inflação foi sustentada, principalmente, pelos serviços. Abaixo o gráfico com o comportamento desse grupo, e doze meses, medido pelo IBGE:




Como pode ser notado, o grupo teve uma forte alta em 2011, batendo 9% e agora vem se desacelerando. O problema é que passam a ameaçar o índice, os alimentos e o transporte, que juntos têm 43% de peso no IPCA. Abaixo o comportamento dos transportes e alimentos:





Como pode ser observado nos gráficos, os serviços tiveram forte alta nos últimos meses, ao passo que os transportes oscilaram, a partir de 2005, abaixo de 5%. Eles tiveram um papel primordial na contenção da inflação nos últimos anos, contando a o controle estatal dos preços de combustíveis, a partir do monopólio da Petrobrás sobre o setor. Já os alimentos vieram para uma alta anual sempre acima de 5%, refletindo a forte alta dos preços internacionais de commodities, da qual o agronegócio do Brasil tem se beneficiado desde que foi iniciado o boom, em meados dos anos 2000.

Ainda que os serviços declinem – e isso ocorrerá se a economia brasileira continuar a se desacelerar – os preços dos alimentos e do transporte tendem a subir ao longo de 2012 e 2013. Seja porque os preços internacionais se manterão elevados, seja porque a taxa de câmbio continuará desvalorizada para atender às demandas de vários segmentos do empresariado nacional. O câmbio saiu de R$ 1,70 e foi até os R$ 2,03 atuais e poderá a continuar a sua trajetória de desvalorização a depender do cenário internacional. Todos esses eventos pressionam mais ainda o preços para cima e deverão contaminar os IPCAs de 2012 e 2013.

O grande enigma político é o do comportamento da Petrobrás em relação aos seus preços praticados. A contenção dos preços dos transportes abaixo dos 5% anuais só ocorreu porque a empresa foi obrigada a amargar perdas expressivas para segurar a inflação. Até hoje a empresa não tinha obtido prejuízo em seus balanços, mas foi fortemente castigada pelos investidores já que sua rentabilidade estava abaixo dos padrões internacionais, apesar de todas as descobertas de reservas de petróleo ocorridas nesses anos. Na sexta feira, ao divulgar um prejuízo de R$ 1,3 bilhões, a empresa expos os seus limites para a continuidade da política atual de preços. Ainda que seja louvável  o esforço de curto prazo do governo para conter a inflação, o controle artificial dos preços está detonando todo o potencial de investimento do setor. Essa política, diga-se de passagem, foi utilizada largamente nos anos do regime militar e no governo Sarney. Tivemos que penar quase uma década de fortes aumentos, de elevação da inflação, para que os preços novamente se realinhassem. As tarifas públicas, em geral, tiveram esse papel. Na fase atual, o petróleo e o álcool têm cumprido essa função. Mas parece que o espaço do governo nesse campo está esgotado.

A partir dos anos 2000 tivemos uma inflação acumulada de:






Como se vê, os serviços, apear de terem contribuído muito para a inflação nos últimos meses, não foram os decisivos em tantos anos. Já os transportes puxaram o índice para baixo e os alimentos, seguindo a tendência dada pelo mercado global, puxou fortemente a inflação para cima. Acreditamos que essa tendência, que é de longo prazo, vai ser ampliada para os alimentos e revertida para os transportes. A alta internacional dos preços de petróleo e a tendência de alta do Etanol, não serão mais contidas pelos balanços deficitários da Petrobrás e deverão ser repassados aos consumidores.

O quanto esses preços serão repassados e quanto, não poderemos intuir, já que essa decisão, no curto prazo, é do governo. Mas é impossível que o governo Dilma continue a tratar a gasolina da mesma maneira que ela vem sendo tratada nos últimos anos.

Estamos diante de um dos maiores choques de oferta dos últimos anos, e ele cobrará seu preço em termos de política monetária, de inflação e salários reais. A nossa sorte é que poderemos usufruir do fato de sermos grandes produtores desses bens. Aqui já se torna impossível concordar com aqueles que defendem a dúbia tese da “Maldição dos Recursos Naturais”. Passemos a considerar a tese oposta, a da “Benção dos Recursos Naturais”.

A semana começa com um elenco de dúvidas que poderá ser sanado, caso os dirigentes da Europa anunciem as medidas que tomarão. Na ausência desse anúncio , teremos mais volatilidade. De certo é que o balanço da Petrobrás nos anuncia sais inflação.






Pedro Paulo Silveira (Economista)
Fone: 55 11 3027-3101    Email: pedrosilveira@tov.com.br


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