Apesar das boas notícias econômicas e da enorme injeção de
dinheiro feita pelo Banco Central Europeu, os mercados estão em baixa. O
Ibovespa chegou a atingir 66.661 pontos mas cedeu 700 pontos na esteira das
quedas globais. O que tornou os mercados mais amargos foi o discurso de Ben Bernanke,
visto pelos mercados como um sinal ruim para a recuperação econômica global.
A Alemanha divulgou a taxa de desemprego de fevereiro, que
veio em linha com as expectativas, 6,8%, deixando a taxa inalterada em
relação a janeiro. Além disso, o banco central europeu realizou a operação de
financiamento de três anos aos bancos comerciais europeus e o resultado foi de
530 bilhões de euros, para mais de 800 bancos. Em dezembro, a primeira operação
dessa natureza de 489 bilhões. Com essa injeção de mais de 1 trilhão de euros
nos bancos comerciais, o Banco Central Europeu tinha duas metas e a primeira
era a de estabilizar os preços dos títulos das dívidas soberanas dos países
europeus, que vinham implodindo em função da crise de credibilidade. Na
verdade o BCE contornou as restrições impostas por vários países da euro região
para resgatar países em dificuldades capitaneados pela Alemanha. Com
essa modalidade de financiamento, o BCE retirou uma enorme quantidade de
títulos soberanos do mercado que, a partir de agora, ficarão na carteira da
autoridade monetária. Sem essa medida, os bancos poderiam entrar em um movimento
desordenado de vendas maciças e isso faria com que os preços desses títulos
implodissem e, com eles, os próprios bancos comerciais. Mesmo sem um “pacote”
europeu de resgate, tudo indica que as dívidas soberanas estarão um pouco mais
seguras pelos próximos três anos. Mas vale lembrar que essa medida alternativa
não resolve o problema fiscal que ainda se mantem nos países europeus: a grave
crise recessiva tem piorado significativamente a capacidade fiscal dos governos e,
provavelmente, uma boa parte dos países não conseguirá cumprir as metas fiscais
impostas para 2012. A segunda meta era a de impulsionar o crédito bancário
para famílias e empresas. Com a crise, a
capacidade financeira dos bancos, das famílias e das empresas entrou em
colapso, fazendo com que boa parte do sistema bancário necessitasse aportes de capital
para poder continuar operando. O sistema passou por uma grande desalavancagem,
que nada mais é do que a redução dos estoques de crédito que os bancos tinham
em seus ativos. Ao injetar esse trilhão o BCE espera sinceramente que os bancos
emprestem para famílias e empresas. Mas isso parece realmente ser aquilo que economistas
chamam de empurrar o cavalo com uma corda! Com essa recessão, nem empresas e,
tampouco as famílias, estão tomando crédito. O desemprego europeu atinge cerca de
16 milhões de pessoas e isso conta muito para que os bancos, já pressionados
pelos enormes prejuízos sofridos na grande crise, abram seus cofres para o
público. O que está acontecendo, de fato, é que os bancos recebem esse dinheiro
e não o repassam para a economia real diretamente, fazendo com que o crédito fique
racionado, empossado no próprio
sistema bancário. Esse tipo de comportamento dos bancos é muito difícil de ser
revertido e expõe o verdadeiro limite dessa estratégia desesperada do BCE de
contenção da depressão europeia. O que se pode esperar dessa injeção de
liquidez, além da estabilização temporária das dívidas soberanas, é a alta de
alguns preços (petróleo, ouro, títulos dos países emergentes, bolsas globais) e
muita confusão nos mercados de moedas, com o aumento da volatilidade dos fluxos
internacionais. Posto dessa maneira, o financiamento do BCE, que tenta substituir
os pacotes fiscais de resgate, negados pelos líderes da euro região, podem
aumentar a instabilidade e não diminuí-la, sem o benefício de reduzir de forma
significativa o desemprego e a recessão.
E foi com isso em mente que Bernanke expôs as suas preocupações
ao Congresso dos EUA em seu depoimento de hoje. Ele ressaltou que a trajetória
de recuperação dos EUA se mantem, mas, como seria de se esperar, de forma
lenta, muito lenta. Ele descartou a necessidade de um novo pacote de medidas,
mas evidenciou que a inflação está sob controle, mesmo que venha a sofrer um
pouco com a alta do petróleo. Vale notar que a economia dos EUA cresceu a 2,8%
ao ano, no último trimestre. O consumo pessoal, os investimentos e a
exportações impulsionaram essa alta de 0,7% no PIB americano do quarto
trimestre. Bernanke tem feito o mesmo
que o BCE: na ausência de “pacotes” de resgate ele expande a liquidez
diretamente pelas operações do Federal
Reserve. O mercado talvez tenha apenas reagido ao que já é sabido: o problema
da Europa afeta a todos e está longe de ser resolvido. A volatilidade do
mercado de hoje expressa esse conjunto
de incertezas que ainda paira na economia global.
Pedro Paulo Silveira
Economista
"Este
informativo foi preparado pela TOV Corretora de Câmbio, Títulos e
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